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A economia “fia-te na virgem”

Este ano, como no ano passado, no anterior e em tantos outros, as previsões que servem de base a toda a política de um ano são-nos apresentadas como cenários quase garantidos em que pouco ou nada vai correr mal. São números optimistas, com menos desemprego que aquele que acaba por se revelar, previsões de receitas acima das que se verificam, projecções de despesa abaixo da real, preço do petróleo ilógico, zero derrapagens… corre sempre tudo bem no Portugal dos Orçamentos do Estado.

O pior é depois, quando a teoria de Outubro se torna prática em Janeiro e a fragilidade das previsões começa a revelar-se. É assim este ano, como foi o ano passado, no anterior e em muitos outros. O que devia ser um documento sério torna-se uma prisão de variáveis optimistas que obrigam a passar o ano com políticas correctivas. As receitas estão a cair? A economia parou? Desemprego e despesas sociais subiram? Corrige, corta, aumenta! E o país passa a vida nisto, a navegar à vista, já que se insiste em ir para o mar com um mapa mal feito ao invés de navegar com rumo e cientes dos riscos.

As previsões, por serem previsões, devem falhar pelo pessimismo, não o oposto: é melhor prever que vou ter 100 e assim prever gastar 100 do que rezar para ter 150 e conseguir pagar os 150 que assumo que vou gastar de certeza. A questão é o porquê de navegarmos assim. A dada altura as previsões começaram a ser optimistas para nos convencer a votar em alguém. Recentemente houve uma inversão mais preocupante, pois os desenhadores dos mapas passaram a puxar pelo optimismo não para nos enganar mas para se convencerem de que vai tudo correr bem. Se há três anos as previsões tivessem sido realistas e apontassem para um risco de degradação na Grécia, em Espanha ou Portugal, o caminho actual talvez nem tivesse sido seguido.

Não terá sido esta economia do “fia-te na virgem” que nos pôs na rota da autodestruição? A troika, Merkel, Passos Coelho e afins, justificam as suas medidas com as suas previsões ainda que estas falhem ano após ano. E como reagem quando falham? Com mais previsões optimistas que mostrem que vai tudo correr bem e ninguém dará o braço a torcer.

in: Jornal i, 1 Março 2012

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