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Micro crítica: «Correspondente de guerra»

Correspondente de guerra, de John Steinbeck

Trailer: «Escritos por John Steinbeck para o jornal New York Herald Tribune entre junho e dezembro de 1943, a partir de diferentes campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, os textos aqui reunidos foram pela primeira vez publicados em livro em 1958.»


Para quem já antes tomou contacto com a obra de Steinbeck, não ficará surpreendido em encontrar neste conjunto de crónicas não um relambório de termos técnicos, avanços e recuos tácticos, listas de movimentos de tropas, número de vítimas ou descritivos de desembarques, ataques, linhas defensivas, etc., etc., mas antes, e por um lado, as histórias do «dia-a-dia» dos que foram extraídos do seu «dia-a-dia» para ir combater, e, por outro, as histórias dos que viram os combates a ir ter consigo, a estilhaçar o seu quotidiano e a obrigar a encontrar um «novo normal» em plena guerra – não apenas com os blitz em Londres, mas especialmente em Dover (“Os boches esta noite deram-me cabo da roseira amarela. Logo agora que ia começar a florir.”)

As crónicas começam por acompanhar um barco atolado com milhares de soldados dos Estados Unidos a caminho da Europa (e, nesta, todas as viagens) e as dificuldades logísticas associadas – como dormiam? como eram organizadas as refeições? como se entretinham? -, a sua reacção (e recepção) à chegada ao «Velho Mundo», sendo esta primeira parte uma excelente introdução para o que nos espera no resto do livro que avança também pelas pequenas e as grandes superstições, pelas «historietas», os «mitos», os «rumores», pela gestão da ansiedade e do antes, durante e depois de combates, pelas tradições que se criaram… e muito mais. Mas a guerra está sempre presente. E a sua violência também, implícita ou explicitamente. O olhar, o ângulo, o pormenor fixado e eternizado, esses é que são particulares.

É precisamente por fugir do aspecto técnico, táctico, dos avanços e recuos militares, das manobras, que o livro de Steinbeck assegura a intemporalidade. Não apenas por ter optado por fixar histórias «comuns» em cenários bastante incomuns, como por registar pequenas trivialidades quotidianas que se desconhecem através dos grandes compêndios já que são isso mesmo, pequenas trivialidades.

Neste livro encontra-se não um trabalho de um «correspondente de guerra» mas antes o trabalho de um correspondente da adaptabilidade e da natureza humana em cenário de guerra. Steinbeck esteve em Inglaterra, África e Itália entre junho e dezembro de 1943, período a que dizem respeito as crónicas, mas escreveu para todo e qualquer tempo.

«Ao luar, no convés de ferro, fitam-se uns aos outros com singular expressão. Homens que muito bem conhecem, com quem acamaradaram na vida de soldados, parecem-lhes agora estranhos e todos os homens se sentem separados uns dos outros e procuram intimamente a morte nos rostos dos amigos. Quem estará vivo amanhã à noite? Eu, de certeza. Nunca ninguém morre na guerra. É impossível. Se as pessoas pudessem morrer nela, nunca haveria guerra. Mas cada um dos homens, nesta última noite, à luz da Lua, contempla os outros com ar estranho vendo neles a morte. São estas as horas mais horríveis de passar – as desta noite, que antecede o ataque.»

p. 146


Avaliação: 8/10

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