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Poupança: as prioridades, os cuidados e as alternativas

A taxa de poupança do país cresceu em 2020, mas, seja por receio ou desconhecimento, grande parte desta poupança persiste «estacionada» em depósitos. Que alternativas existem? Que cuidados se deve ter? E quais as prioridades de um plano de poupança? O Público reuniu um conjunto de especialistas para debater estas e outras questões.

in: Público, 12 abril 2021

A poupança e o investimento são termos que muitas vezes vivem lado-a-lado. Se é certo que uma parte das nossas poupanças não deve servir para arriscar em produtos voláteis, é também certo que, quando se poupa, procura-se sempre uma forma de não ter o dinheiro a desvalorizar.

Contudo, nos tempos que atravessamos, o recurso aos produtos tradicionais de poupança tem significado muitas vezes «estacionar» o dinheiro em aplicações com pouca ou nenhuma remuneração. No final do ano passado, os residentes em Portugal contavam com muitos milhares de milhões de euros em depósitos à ordem ou a prazo. Ao estarem «estacionados» em depósitos, não estarão estes milhões a passar ao lado de ofertas mais recompensadoras?

A poupança e as alternativas de investimento serviram de mote para um webinar organizado pelo Público em parceria com o BPI, que contou com quatro especialistas para abordar as alternativas de poupança e os cuidados que se deve ter quando se procuram maiores rentabilidades. Andreia Teixeira, economista, Inês Correia, especialista em Finanças Pessoais, Clara Raposo, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e Adérito Oliveira, responsável de negócio da BPI Gestão de Ativos, foram os convidados.

Prioridades na poupança

Os oradores deste debate foram unânimes em considerar que o primeiro passo de qualquer investimento passa pela constituição de uma poupança, o que obriga à organização financeira e, provavelmente, a uma dieta de gastos. Só com capital disponível, e não necessário no imediato, é possível começar a pensar no onde e como colocar o dinheiro. Mas nem toda a poupança deve ser vista como investimento, sublinharam. Primeiro, há que acautelar o futuro. “É importante definir uma estratégia, anotando gastos e criando orçamento para controlar esses gastos. A organização financeira é fundamental em qualquer fase da nossa vida”, apontou Inês Correia, que gere o site “Mais que Poupar”. Este planeamento não se deve cingir ao que hoje temos, mas também antecipando o futuro mais próximo, acrescentou Clara Raposo: “Ninguém pode investir se não conseguir poupar. É preciso ver o nível de rendimentos actual, imaginar o fluxo financeiro ao longo de determinado horizonte, e a partir daí planear o seu investimento”, referiu a presidente do ISEG.

Como prioridade de qualquer plano de poupança, Inês Correia apontou o chamado “Fundo de Emergência” que, na sua perspectiva, deve antes ser visto como um Fundo de tranquilidade. “É dinheiro que temos rapidamente disponível, para fazer face a qualquer eventualidade da vida”, explica. Uma espécie de viga que sustenta a restante poupança – rapidamente disponível e a aplicar em produtos de baixo risco. O objectivo deste fundo não é assegurar rendibilidade, antes estabilidade. “É muito importante ter este fundo em algo que seja rapidamente resgatável”, acrescentou. Como opções sugere certificados de aforro ou tesouro. “O retorno é baixo, mas existe e, tirando o período inicial de três meses, é possível mobilizar o dinheiro em dias”, realçou.

Além da constituição deste fundo, há outra prioridade de longo-prazo, advertiu Andreia Teixeira. A economista e co-fundadora da Teixeira & Gonçalves, empresa de consultoria financeira, aponta o planeamento da reforma como um passo a dar o quanto antes. “É importante que os jovens comecem cedo a investir num bom complemento de reforma. Na altura ficamos apenas com uma percentagem do nosso ordenado. As taxas de substituição ainda são boas, mas com o passar dos anos provavelmente deixarão de ser”, salientou. Neste campo, o tempo é mesmo o melhor aliado.

De acordo com dados citados por Adérito Oliveira, da BPI Gestão de Ativos, a diferença entre começar um PPR aos 25 anos ou aos 45 anos com o mesmo valor mensal (25 euros) pode traduzir-se num número, 73% – assumindo uma rentabilidade líquida anual de 5%, começando aos 25 anos no final podemos ter um bolo de 37 mil euros, graças aos ganhos que se vão acumulando desde cedo. Já começando aos 45 anos com os mesmos 25 euros, teremos apenas 10 mil euros à nossa espera. “A lição que se tira daqui é que quanto mais cedo começar, menor terá de ser o esforço mensal.”

Que alternativas às baixas remunerações?

Depois da organização das finanças e das prioridades da poupança, o cenário actual surgiu como tema, abordando-se as alternativas aos produtos que hoje oferecem remunerações baixas. “De facto, vivemos há uma série de anos em ambiente de taxas de juro muito baixas, o que nos deixa com um desafio: para se ter uma rentabilidade atractiva, temos de correr algum risco”, diagnosticou Adérito Oliveira. Mas se implica correr riscos, então esta é uma alternativa para verbas que não precisamos no imediato e que não afectarão de maneira radical a nossa vida em caso de perda total, advertiram os convidados.

“O melhor é recorrer a uma ajuda profissional, que nos explique as diversas soluções que existem e faça um diagnóstico à nossa situação financeira”, recomendou Adérito Oliveira. Mas mesmo quando se ouve um especialista, há cautelas a tomar, sublinhou Clara Raposo. “Há perguntas fundamentais que não se podem deixar de fazer, pois há produtos que podem dar algum potencial de rendimento, mas é preciso perguntar: ‘Quanto é que posso perder com esta aplicação?’. Isto é essencial, ter noção da perda muitas vezes pode ser tudo”, disse a presidente do ISEG. “Nunca há potencial de retorno sem potencial de perdas. Cada pessoa deve ver até quanto é que pode arriscar”, detalhou.

As alternativas de investimento são hoje uma possibilidade mais acessível graças ao que Inês Correia chamou de “democratização do investimento”. “Há cada vez mais formas simples e baratas para investir”, referiu. Contudo, o excesso também pode ser mau conselheiro, já que a acessibilidade de vários produtos e a multiplicação de informação também pode levar a muita indecisão. De todas as formas, “já não é preciso ser um génio das finanças para investirmos por nós próprios”, apontou a especialista em Finanças Pessoais, lembrando que “dá para investir em bolsa com risco moderado, já que podemos investir num conjunto de empresas e não numa única”.

Neste ponto a tónica dos convidados deste debate foi unânime. A importância de «espalhar» os investimentos por diferentes activos foi um conselho repetido diversas vezes. Andreia Teixeira lembrou que “em bolsa se pode perder tudo, mesmo”. Para evitar cenários extremos, o melhor é mesmo procurar produtos expostos a diferentes títulos ou mercados.

“Em termos de procurar uma rentabilidade um pouco superior, há soluções mais ou menos comuns, como os investimentos multiactivos, seja em PPR, sejam fundos de investimento ou seguros de capitalização”, apontou o responsável de negócio da BPI Gestão de Ativos. “Devemos diversificar os investimentos e um produto multiactivos faz isso de forma conveniente, já que num só investimento diversifica por vários tipos de activos… outra vantagem é que o leque de produtos multiactivos abrange diferentes patamares de risco”, explicou.

No campo das alternativas, Clara Raposo lembrou também a dívida pública e as obrigações emitidas por empresas. “Nestas obrigações, que passam por emprestar dinheiro às empresas, as empresas pagam um cupão com regularidade, o que também tem os seus riscos, mas serão menos que investir na acção dessa empresa”, realçou a presidente do ISEG. Mas, reiterou: “As pessoas devem sempre ter uma análise feita com o seu consultor e perceber bem quanto podem ganhar ou perder no máximo, factor muito importante para decidir.”

Bolsa: sim ou não? E a que prazo?

Sobre investimentos em bolsa, salientou-se muito um ponto ao longo do debate: esta é uma via a seguir só em situações específicas e sempre tendo em conta os riscos. “Creio que associado à tomada de risco tem de haver sempre um pensamento de longo-prazo, não podemos tomar risco e investir a três ou seis meses ou se vamos precisar do dinheiro a breve prazo”, apontou Adérito Oliveira. E puxou de dados históricos para reforçar este ponto. “Se investirmos com risco e no muito curto prazo há uma grande aleatoriedade na rentabilidade e grande dispersão dos retornos. À medida que olhamos para prazos mais longos há um estreitar do intervalo de rentabilidade anualizada, logo faz mais sentido investir em activos de risco no longo-prazo”, defendeu.​

Neste ponto, Inês Correia lembrou “que muita gente perde dinheiro mais por questões emocionais do que racionais”, apontando que desconsiderar o investimento em bolsa quando se pensa em longo-prazo “é perder dinheiro”. Mas, alertou: “Falo de investir, não especular, já que as bolsas também permitem esta postura. Eu falo de investimento em produtos reconhecidos, com racional”, sublinhou. Já em prazos mais curtos, “se precisarmos do dinheiro a cinco anos, por exemplo”, o investimento em bolsa já não fará tanto sentido, aponta.

Olhando para as bolsas há, porém, que ter em conta a conjuntura, que torna estes alertas especialmente pertinentes. “Em termos de bolsa, tenho alguns receios, nomeadamente do que possa decorrer de um certo intervencionismo estatal, mesmo nos EUA”, sublinhou a economista Andreia Teixeira, recordando que os mercados têm estado recompensadores sobretudo por falta de concorrência de outro tipo de activos. Não só os produtos tradicionais estão com remunerações baixas, como os países estão a emitir dívida a taxas negativas, o que empurra mais investidores para as bolsas, valorizando-as. “Como não há concorrência, as pessoas socorrem-se a estes investimentos para ter algum retorno, mas para os próximos tempos teria alguma prudência”, alertou.

CAIXA: A literacia financeira e os investimentos

A relação entre literacia e autonomia financeira foi tópico recorrente no webinar, já que neste campo há muito por fazer. “Quase grau zero”, foi onde Andreia Teixeira situou o nível de literacia financeira do país. É este “quase grau zero” que torna obrigatório sublinhar alertas quando se fala em aplicar poupanças. “Às vezes é assustador a falta de noção dos produtos em que as pessoas se metem”, detalhou a economista.

“A culpa não é das pessoas, é de todos nós, vivemos numa sociedade que não explica”, diagnosticou já Inês Correia. Sem uma literacia robusta, fica difícil entender quais os produtos mais ajustados para o nosso caso. A opacidade de alguns produtos também não ajuda, advertiu Clara Raposo. “Devia existir um sumário sintético, que explicasse bem do que depende cada investimento”, defendeu a Dean do ISEG.

Adérito Oliveira, por seu turno, identificou sinais de melhoria na literacia financeira do país. E apontou que “um bom indicador” disto é a reação a momentos de queda dos mercados. “Já vi várias crises e se nas menos recentes notavam-se resgates de magnitudes significativas, o que denota falta de conhecimento de riscos e volatilidades, em correções mais recentes, as magnitudes têm sido menores. Isto evidencia um maior conhecimento dos mercados e dos ciclos de queda, já que menos pessoas se precipitam a vender e, logo, a fixar as perdas”, explicou. Ainda assim, refere, “há muito por fazer”.

Para compensar esta reduzida literacia financeira, o país tem assistido ao aparecimento de cada vez mais iniciativas e sites de finanças pessoais, como é o caso do “Mais que Poupar”, mantido por Inês Correia, ou do Gabinete de Orientação ao Endividamento do Consumidor do ISEG, que vão compensando a falta de iniciativas alargadas de promoção da literacia financeira.

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