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“Há hoje mais exportadores portugueses para o Reino Unido do que antes do anúncio do Brexit”

Ao lado da pera, a maçã é uma das frutas mais exportadas pelo distrito de Leiria e a abertura do México está para muito breve, garante Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado da Internacionalização que destaca ainda a importância que o acordo com o Mercosul terá ao nível dos componentes automóvel

in: Região de Leiria, suplemento – “Campeões da Exportação”, 29 março 2018 

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Os números de janeiro do comércio internacional mostram um salto nas exportações, mas outro ainda mais expressivo nas importações. Isto não invalida o esforço de vender ais ao exterior?

Não. Uma das razões por que é importante que cresçamos nas exportações passa pela necessidade que temos de importar mais e de forma cada vez melhor, porque precisamos de importar para investir, através da compra de equipamentos por exemplo. Mas as importações crescem também porque os rendimentos dos portugueses têm vindo a aumentar e é inevitável que parte desse rendimento vá para bens que puxam pelas importações. A questão é conseguirmos que o crescimento das exportações permita sustentar o crescimento económico que implica também um aumento de importações. O grande salto estrutural na evolução da economia foi conseguirmos crescer sem desequilibrar a balança, como no passado. Em 2017, Portugal registou o seu sexto ano de balança de bens e serviços positiva, crescendo 2,7% e fazendo crescer o investimento.

Estamos em equilíbrio desde 2012. Falamos agora de um equilíbrio mais equilibrado, passe a expressão?

Sim, nesse ano falávamos de uma realidade totalmente diferente, de depressão no consumo e no investimento, já que o reequilíbrio veio pelo afundamento das importações e do investimento, o que trouxe a balança até situação superavitária. O mérito agora é que as exportações cresceram de tal modo que foi possível recuperar de forma saudável as importações… o país não produz tudo o que precisa para suportar o seu crescimento. Tudo o que conseguirmos substituir de forma competitiva, melhor, mas não vamos poder substituir tudo, seja pela natureza dos recursos, seja pela dimensão do país.

O Governo deu como objetivo levar as exportações a um peso de 50% do PIB até 2025. Qual o peso previsto para as importações?

As perspetivas que temos, e isso vê-se no Programa de Estabilidade entregue anualmente em Bruxelas, permitem-nos dizer que a ideia é continuar a ter um superavit na balança de bens e serviços. É normal que os operadores portugueses, num momento em que têm de investir e em que há maior tração no consumo, incorram em mais importações.

Em  2017, o peso das exportações foi de 42% do PIB. Estamos a oito anos de 2025, chegar aos 50% não é pouco ambicioso?

Não, não é. Se apontássemos para essa meta num cenário de PIB estagnado, estaria de acordo. Mas a questão é chegar a 50% com um duplo crescimento: o do PIB e o das exportações, que desta forma terão de crescer sempre – na média do período, entenda-se – acima do produto, o que fará das exportações a tração fundamental do crescimento do PIB e que obriga as vendas ao exterior a crescimentos de 2% a 2,5% acima do PIB.

Qual o peso do turismo nessas contas? Está previsto que mantenha os fortes ritmos de crescimento?

É um sector que tem crescido muito, quase 20% no ano passado. Mas apesar do crescimento, o turismo terá um peso de cerca de 17% no total, e os serviços, no seu conjunto, representam cerca de um terço do total. Logo, o turismo, sozinho, teria permitido um crescimento de 2% a 3% do total em 2017. E as exportações em termos nominais cresceram quase 11%. Ou seja, o turismo é muito importante, até porque tem forte impacto no emprego, mas as exportações estão a crescer também nos bens, nos aparelhos, sector automóvel e componentes, combustíveis, têxteis, sector aeronáutico. Os bens são responsáveis por dois terços das exportações e continuam a crescer a bom ritmo.

Em caso de queda no turismo esta não se refletiria?

Preocupava-me se estivéssemos numa situação de monocultura, o que não é o caso. Temos um sector exportador diversificado, com várias âncoras. Este lado exterior tem sido uma prioridade dos governos há mais de 10 anos e é por isso que em 2005 as exportações valiam 27% do PIB e hoje valem 44% em termos nominais.

Mas apesar desse salto, a concentração ainda é um problema. Cerca de 50% das exportadoras valem 7% das exportações… 

Há uma dupla concentração. Uma de empresas e outra de mercados. Temos uma base exportadora que diversifica pouco os mercados, sendo até de “monomercado”, exportando para um só país, em muitos casos Espanha ou Angola. E isso é uma debilidade. Precisamos por um lado de alargar a base exportadora, com mais empresas a exportar, e, segundo, temos de trabalhar pela diversificação, algo que precisa de ser feito também com as empresas que já exportam e que procuram chegar ao seu terceiro ou quarto mercado, e com as grandes.

Os EUA têm sido um dos motores da metalurgia e metalomecânica portuguesa, que venderam mais 37% para o país. A postura protecionista de Trump pode amputar este potencial?

O comércio e o investimento internacionais podem ser motores de mais crescimento e emprego, o que não quer dizer que não devam ser regulados, para se evitarem situações de dumping social ou ambiental, por exemplo. Mas os bons acordos, que respeitem essas normas,  são promotores de eficiência coletiva e bem-estar, logo consideramos que ninguém ganha com uma guerra comercial. Neste campo o mandato é da UE, que tem a gestão da pauta aduaneira comum, e o que se espera é que os EUA, depois desta intervenção, possam também fazer com a União Europeia o que foi feito com o Canadá e com o México, mantendo a isenção tarifária para os mercados comunitários.

Ainda no campo internacional, o Brexit não teve grande impacto na balança?

Pode parecer surpreendente, mas em setembro estive em Londres e os números que tínhamos mostravam que há hoje mais exportadores portugueses para o Reino Unido do que antes do anúncio do Brexit. Eram praticamente mais mil empresas a exportar para o Reino Unido do que no ano anterior e, logo, as exportações de bens também estão a aumentar. Evidentemente que há muitas empresas atentas e na expectativa de um bom acordo. E isso leva a que as empresas continuem a apostar no Reino Unido.

Pensando agora nos exportadores do distrito de Leiria e na ideia de diversificação assim como nos mais recentes acordos comerciais, que mercados estão hoje mais abertos para estes?

O Governo tem procurado uma lógica mais indutiva do que deliberativa. Trabalhar com as associações empresariais, falar com as empresas, e definir prioridades de apoio em linha com as das empresas e seus projetos. Ao mesmo tempo vamos sinalizando ao tecido empresarial as oportunidades que do ponto de vista comercial vamos construindo. Ora porque o CETA [Comprehensive Economic and Trade Agreement, com o Canadá] está aprovado e ratificado, ora porque se fechou o acordo com o Japão, sublinhando também os avanços registados com o Mercosul. Além disso temos reforçado diplomaticamente a presença no Magrebe e no Egipto, procurando abrir espaço e acompanhar as empresas e as prioridades de diversificação das mesmas. Acreditamos que a maior proximidade ao tecido e às associações nos permitirá ter uma postura mais eficaz neste campo.

Certo, mas há mercados que hoje estão mais acessíveis…

Além dos que atrás referi, como o Japão, México e Egipto, sublinho o Mercosul, onde além do acordo a ser negociado, temos resolvido algumas questões pontuais e sectoriais que abrem novas oportunidades. O mesmo na China, na área das carnes. Mas vamos resolvendo problemas, como o recente caso do México, onde fechámos um acordo e finalmente vamos poder exportar Pera Rocha e, espera-se, proximamente Maçã de Alcobaça também. O acordo com o Mercosul será também muito importante para as partes e componentes automóveis. Estamos também a trabalhar a área dos medicamentos nos EUA e em breve no Médio Oriente. O que fazemos neste campo surge do acompanhamento próximo, não só da política da UE, como das prioridades apresentadas por cada um dos sectores com que vamos falando.

Um acompanhamento que se estende a Leiria…

Acompanhamos o distrito com muita proximidade, próximo das associações de grande relevo, como a NERLEI, um núcleo bastante dinâmico, ou a CEFAMOL. É um distrito muito importante, com pilares essenciais e, do ponto de vista do ecossistema empresarial, tem um conjunto de empresas muito importantes, tanto grandes como PME, para o sector exportador. Tem muitas empresas ligadas aos componentes automóveis, moldes, cerâmica e vidro, e também no agroalimentar, e é dos distritos que em termos médios mais contribui para o sector exportador, com uma integração e interação com o sistema universitário, já que o Politécnico de Leiria sempre deu grande atenção ao comércio internacional.

Apesar dos números positivos do distrito, os números de Pedrógão evidenciam outro dos impactos dos incêndios, com uma quebra de 40% nas exportações. Que medidas estão em curso para a revitalização do município?

O Governo tem vindo a trabalhar com os municípios mais afetados para os colocar no radar dos investimentos para Portugal. Estive há pouco em Coimbra e nota-se um esforço de reconstrução incrível por parte do sector empresarial. Também reunimos em Santa Comba Dão com 21 municípios da região Centro fortemente afetados pelos incêndios e procurámos, em conjunto com a AICEP, a inclusão de parques empresariais no instrumento de localização desenvolvido pela Global Parques, e desenvolver soluções como os dossiês de investimento, para que acolham de forma mais célere e eficiente investimentos. Está também em fase final a celebração de um protocolo com a Associação Nacional de Municípios para a identificação de localizações para indústrias e serviços.

Em relação às medidas do Internacionalizar que competem ao MNE e previstas para o segundo trimestre, em que ponto se encontram? Prontas a arrancar?

Mais do que arrancar, falamos de medidas que queremos já em fase plena de execução nessa data. Algumas já foram fechadas e estão a avançar ou perto, caso da revisão da Lei das Câmaras de Comércio, ou do Fundo 200M que também está resolvido e que terá um comité de investimento muito proximamente.

Quais as expectativas imediatas para este programa?

As expectativas passam por chegar a 2019, data do término do atual mandato do Governo, com o conjunto das 32 medidas em pleno funcionamento. O Programa não é de medidas causa-efeito, é de política pública para a área da internacionalização que implica coordenação e articulação entre entidades públicas e associativas e as confederações e as empresas para alinhar recursos em conjunto e aumentar exportações. Temos muitas medidas no Internacionalizar que, mais do que colocar mais recursos para cima de um problema muitas vezes de forma ineficiente, são pensadas para alinhar melhor os atores, e utilizar o Conselho Estratégico para Internacionalização da Economia como fórum de concertação. ●

 

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