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“Não se vive de amor…”. Irene e Julio, alheados do mundo exterior. 

Uma história que nos chega desde 1910, três meses antes da Revolução.

nao se vive de amor

Fonte: A Capital, julho 1910

Não se vive de amor

Dupla tentativa de suicidio

A intervenção opportuna de visinhança salva da morte dois desesperados

O caso de hoje é simples e de desfecho menos trágico do que á primeira vista se poderia suppor.

Elle tem 19 annos de edade, chama-se Julio Sousa Bello, reside na calçada de Arroyos, 35, rez-do-chão e é empregado do commercio.

Ella é uma gentil creança de 18 annos, residente na rua do Terreirinho, 80, 2º. Chama-se Iréne Pessanha.

Há oito dias, approximadamente, elle que a namora ha mezes, resolvido a tudo para unir ao d’ella o seu destino, propoz-se raptal a de casa dos paes. E raptou-a. A scena revestiu todos os pormenores de uso em tres casos, com uma pontinha de romance a tornal a mais commovedora para os tenros corações dos dois jovens. A familia da Iréne, mal deu pela fuga, correu alarmada a queixar-se á policia e até hontem não descançara em descobrir o paradeiro dos namorados. E talvêz o não tivesse conseguido tão cedo se o caso de hoje o não revelasse por uma forma inesperada, quando as duas creanças, n’um desespero horroroso da vida, iam decididamente a precipitar se na morte.

Effectuado o rapto, o Julio Sousa Bello, que escolhera para nicho dos seus amores, um quarto n’uma casa da praça Duque de Saldanha, installou-se alli com a Iréne e durante alguns dias alheiou-se completamente do mundo exterior, confiado em que a vida lhe sorriria sempre e cada vez mais bella e apenas com o fraco alimento da sua paixão.

Essa illusão, porém, durou pouco. Decorreram mais alguns dias e esgotados os insignificantes recursos de que os dois namorados dispunham, um e outro reconheceram que não tardaria a envolvel-os a mais negra miséria. N’um impulso desesperado resolveram ambos matar-se. Elle adquiriu, não se sabe como, uns pós venenosos e esta manhã, pouco antes das oito horas, repartia com a Irene a droga sinistra.

Mas o effeito do veneno não se fez sentir immediatamente. E o Julio Sousa Bello, receioso de que falhasse por completo a primeira tentativa de suicidio, sahiu á rua, comprou dois fogareiros e carvão, voltou ao quarto, calafetou-o e deitou-se no leito ao lado da Irene, esperando resignadamente que a asphyxia pelo oxydo de carbone produzisse os seus tragicos resultados.

Uns visinhos que viram sahir muito fumo pelas frinchas do quarto, suppondo que se tratava d’um incendio, correram a chamar a policia e o agente da auctoridade, mettendo hombros á porta, fel-a saltar dos gonzos, patenteando aos olhares dos curiosos o espectaculo acima descripto. Acto continuo mandou transportar os dois jovens para o hospital de S. José, onde depois de reanimados lhes foi feita a lavagem do estômago. Do hospital foram depois para o governo civil, visto que, além da queixa alli existente sobre o rapto da Irene, o que implica procedimento criminal, o codigo não permitte que qualquer creatura disponha da sua existencia como melhor lhe pareça.”

(…) páginas à frente (…)

A familia tresloucada visita-a no governo civil

N’outro logar narramos uma dupla tentativa de suicidio occorrida hoje n’uma casa da praça Duque de Saldanha. Já depois dos dois jovens se encontrarem no governo civil appareceram no hospital de S. José o pae e um tio de Irene Pessanha, que alli foram na supposição de que os namorados tinham recolhido a qualquer das enfermarias. Do hospital seguiram depois para o governo civil, onde se conservaram algum tempo junto da Irene, prodigalisando lhe bons conselhos.

Ás 6 horas, ainda a policia não tinha tomado resolução definitiva sobre o destino a dar aos dois desesperados, parecendo, no emtanto, que a Irene vai ser esta noite entregue á familia. O casamento, em breve, talvez liquide o assumpto.”

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