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Lesados. “Cumprimentei Carlos Costa, mas não lhe agradeço nada”

Alívio pelo fim do pesadelo. É assim que os lesados do BES veem solução do governo. Vão perder 25% a 50%, mas a hora é de ver o copo meio cheio

in: Dinheiro Vivo, 24 dezembro 2016

Com uma média de idades entre os 60 e 65 anos, os perto de 4000 particulares que investiram em papel comercial do Grupo Espírito Santo (GES) já só têm um desejo: acordar do pesadelo e retomar as suas vidas.

Este é a ideia comum entre os lesados ouvidos pelo Dinheiro Vivo sobre a solução esta semana apresentada para o seu caso. Volvidos dois anos e meio sobre o colapso, o dinheiro que perdem com a solução anunciada é visto como um preço pequeno para o regresso (ou aproximação) à normalidade perdida.

José (nome fictício), reformado e com 82 anos, vai finalmente planear a viagem até aos Estados Unidos para a operação de que precisa e que o Serviço Nacional de Saúde não realiza por cá. O custo da cirurgia ronda os 140 mil euros. Tinha 250 mil euros no GES, para o ano será ressarcido em 75 mil euros e em mais 56,25 mil euros em 2018 e em 2019. A viagem ainda não está paga, mas já está ao alcance.

Maria, reformada e viúva, vai finalmente pagar as dívidas que acumulou no tempo recente. Só no lar onde reside, no Porto, estão 18 mensalidades por saldar. Está num lar caro, é certo, mas o património sempre deu para tanto. Pena o erro de meter todos os ovos – 800 mil – no mesmo cesto e de ter confiado no seu gestor de sempre.

Muitas das perdas que nos foram relatadas são irrecuperáveis. Os problemas de saúde de José, por exemplo, foram agravados quando deu por si sem poupanças. Seguiu-se um acidente vascular cerebral e o choque de perceber que estava “sem dinheiro para fisioterapia, enfermeiros ou apoio domiciliário”.

Há depois Mário, que, a aproximar-se da reforma, decidiu recolher os frutos de uma vida de trabalho: vendeu a empresa por cinco milhões, empatou-os no GES para viver dos juros. Agora fica feliz por perder apenas 50% do investido, ou antes, recuperar 50%, como diz. “E aliviado, muito.” Escolhe ver o copo meio cheio, explicou-nos.

As histórias são muitas e únicas em impacto, ramificações e custos. Uns tinham outras poupanças, outros ficaram a zero de um dia para o outro. Mas além de serem “os lesados”, algo mais os une: os elogios ao governo, as duríssimas críticas ao Banco de Portugal (BdP) e o guião que lhes foi vendido pelos gestores do BES antes do colapso.

“Quando começámos a reunir-nos na associação percebemos que as histórias eram iguais com ligeiras alterações. Houve um guião seguido para transferir produtos”, relata-nos Hélio, na casa dos 40 anos.

Pelo telefone, lembra que está entre os mais novos dos lesados e que, como tal, passou horas com outros lesados, mais velhos e em maiores dificuldades, a tentar ajudá-los a perceber como iriam sobreviver dali em diante. “Recuperar 50% ou 75% do investido, apesar de tudo, é uma boa solução… Fomos muito castigados, há pessoas em sérias dificuldades, sem liquidez, houve suicídios…” É traído pela voz, embargada de emoção. “Sem a associação teria sido bem pior, também serviu de grupo de apoio”, confessa.

“Para mim não foi o fim do mundo, mas para a maioria foi”, diz-nos agora João, 61 anos e com 250 mil euros investidos. “Fomos ao BES várias vezes assim que começámos a ouvir falar dos problemas do banco. Diziam sempre que estava tudo bem, tal como Carlos Costa, Maria Luís, Cavaco Silva… Todos diziam que estava tudo bem”, lamenta.

Tinha investido na ES Activos Financeiros (ESAF) e dá-nos agora o tal relato que, com ligeiras alterações, é comum a quase todos: “A gestora de conta ligou a dizer para desinvestirmos neste produto, porque o juro ia baixar, e para aplicar o dinheiro no papel comercial, onde o juro era melhor.” Mas o problema não era do juro, era da supervisão: o banco estava a pôr os clientes a financiar diretamente o GES através de aplicações da Rioforte e da ESI, sem revelar as entidades como reais emitentes.

Paulo Lopes, 150 mil euros investidos, passou pelo mesmo. E nem a experiência profissional na banca o ajudou, antes pelo contrário. É que apesar de trabalhar na concorrência, “sempre tive a ideia de que o BES era o melhor banco do país.” Garante que só um mês depois de ter subscrito as aplicações lhe foi dado conhecimento dos emitentes do papel. “Acho que 95% dos clientes jamais tinham ouvido falar da Rioforte ou da ESI.”

Os elogios ao governo são outro ponto comum aos relatos: “Prometeu e cumpriu, coisa rara na política hoje”; “Deu a mesa e obrigou o BdP a sentar-se.” Mas António Costa não está sozinho nos elogiados: Carlos Tavares, ex-CMVM, e Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, são repetidamente apontados como dos intervenientes mais importantes no processo.

Do lado oposto estão BES, o ex-governo e o banco central, este até apontado por alguns em primeiro lugar na lista dos rancores: “O BdP foi tão mau ou pior do que Ricardo Salgado. Obrigou o banco a pôr de lado 700 milhões para nos pagar, mas depois aproveitou as provisões para injetar capital no grupo”, lembra um dos lesados. Mas o BdP não foi publicamente elogiado esta semana? “Pura diplomacia”, dizem. “Até cumprimentei o governador, mas não lhe agradeço nada.”

Sobre o anterior governo, “que ironicamente sempre foi o voto de muitos dos lesados”, as palavras são duras. Especialmente agora que Passos Coelho critica a restituição de parte do dinheiro: “Abandonou e ignorou a banca, lixou o Banif, adiou decisões só para dizer que tínhamos uma ‘saída limpa’ e agora não fala de outra coisa a não ser de bancos? Uma vergonha”, desabafa um dos lesados ouvidos pelo DV. Deste grupo de pessoas, que raramente votaram de outra forma, poucos voltarão a votar à direita, preveem. “Não defendem o privado, só o poder.”

Questionados sobre as expectativas quanto ao nível de adesão à solução, os lesados ouvidos preveem uma adesão em massa. “É um enorme alívio. O nível de desespero é muito grande”, diz Paulo. A vontade de passar à frente é superior ao sonho de recuperar 100% do valor que lhes é devido. Mas há também um lado racional na decisão: “Pelas estimativas, e dada a complexidade, os processos iam demorar 10/15 anos em tribunais. E a verdade é que a maioria, com 60/65 anos, não se pode dar ao luxo de esperar tanto.”

Além disso, há as custas: como os lesados ficaram sem dinheiro, não têm como pagar os processos que lhes poderiam permitir recuperar esse dinheiro. Por tudo isto, o sentimento que estes lesados hoje partilham é de que chegou a hora de ver o copo meio cheio, conter perdas e retomar a vida que viram ser congelada há mais de dois anos. E, já agora, desfrutar de um Natal mais descansado.

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