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Angola. Crédito malparado duplica em três anos e soma-se aos desafios da banca

Banca angolana continua com a torneira do crédito aberta, com mais 9,5% concedido, controlando assim o rácio de crédito vencido/crédito

in: Dinheiro Vivo, 19 novembro 2016

Com o país assolado por uma crise económica e financeira, justificada sobretudo pela persistência em baixa do preço de petróleo, os bancos angolanos têm visto os níveis de crédito vencido a crescer de forma significativa desde 2012, com a KPMG a estimar um crescimento anual de 26% no malparado presente nos balanços dos bancos angolanos desde aquele ano.

“O volume de crédito vencido duplicou desde 2012, o que corresponde a um crescimento anual de 26%. No último ano, o crédito vencido registou um aumento de 8,8%”, salienta a consultora na “Análise ao Sector Bancário Angolano”, estudo agora apresentado por Vítor da Cunha Ribeirinho, Head of Audit & Financial Services da KPMG.

O levantamento da auditora partiu de um universo de 27 bancos a operar no mercado angolano, uma fatia que representa a quase totalidade do setor financeiro (93%) do país. Mas apesar da subida do crédito vencido, a banca angolana continua com a torneira do crédito aberta – segundo a KPMG, no ano passado o crédito bruto cresceu mais 9,5%.

Tem sido este ritmo de crescimento que vai permitindo aos bancos locais manter o rácio de crédito vencido/crédito total controlado apesar dos significativos crescimentos no malparado: “O rácio de crédito vencido manteve-se sensivelmente constante [em 2015], registando um decréscimo de 0,1 p.p.”, aponta a KPMG, situando-se em cerca de 11%.

A rentabilidade do setor, também associada ao crescimento do crédito, é outro ponto em que a banca angolana tem mostrado resiliência, com os resultados líquidos agregados a crescerem 19,8% graças à “evolução cambial registada em 2015, por crescentes volumes de proveitos relativos ao crédito concedido e progressivos níveis de eficiência operacional”, sintetiza a auditora.

“O rácio cost-to-income cifrou-se em 42,3%, em 2015, registando o melhor valor do período 2010-2015. Contudo, a melhoria verificada é reflexo de um crescimento do produto bancário (39,7%) superior aos custos operativos (15%), muito influenciado pelos resultados de operações financeiras”, detalha.

O top da banca angolana

Igualmente associado à melhoria da rentabilidade do setor está o crescimento da penetração dos serviços bancários entre a população angolana. Apesar de ainda não ter valores referentes a 2015, a KPMG aponta que o índice de ‘bancarização’ dos angolanos chegou a 47% em 2014, o dobro dos valores registados em 2012.

O aumento da utilização de serviços financeiros por parte da população angolana tem levado igualmente a uma maior diluição do peso das maiores instituições. Os cinco maiores bancos angolanos passaram de uma fatia de 73% do total de ativos em 2013, para uma fatia de 69% no final do ano passado, salienta a consultora, verificando-se o mesmo “ao nível do crédito concedido e depósitos”.

Em relação aos bancos que lideram o mercado, destaque para o Banco de Fomento Angola (BFA), banco de que o BPI espera ceder a maioria a muito breve trecho, e para o Banco BIC. O BFA é o banco líder em depósitos, o segundo em ativos totais e o quinto em crédito, sendo o líder em termos de resultados líquidos – 37,86 mil milhões de kwanzas.

No ranking dos lucros, o Banco BIC surge imediatamente a seguir ao BFA, com 27,65 mil milhões de kwanzas de resultado em 2015, ostentando a quarta posição em ativos e em depósitos, e o lugar de bronze no crédito total. Já o Banco Caixa Geral Angola e o Banco Millennium Angola surgem em quinto e oitavo em termos de lucro obtido em 2015.

Os 12 desafios: colaterais, crédito e rácios

Na análise ao setor bancário em Angola, a KPMG identifica um total de 12 desafios que estes bancos têm que enfrentar no futuro, destacando em primeiro lugar o “reforço do processo de gestão de colaterais e impacto na determinação da imparidade de acordo com as IFRS”.

Segundo a auditora, a alteração para estas novas normas levanta questões sobre como “o provisionamento da carteira de crédito será efetuado”, sublinhando que “a falta de fiabilidade da informação sobre colaterais pode implicar a incapacidade das instituições os utilizarem como mitigador de risco e nesta base um esforço adicional de imparidade com impacto nas contas de exploração dos bancos”.

Um outro desafio está no crescimento do crédito, sobretudo aquele alimentado pelas “inúmeras PME” que estão a aparecer em Angola, assentes em financiamento bancário. Estas empresas, apesar do apetite, “ainda estão numa fase embrionária em termos da sua capacidade de gestão e organizativa, bem como da informação financeira regular”, pelo que é premente os bancos “reforçarem os níveis de exigência e rigor relativamente à regularidade e qualidade da informação financeira prestada pelos seus clientes”.

A inovação dos produtos e serviços bancários e a aposta no negócio segurador como alavanca de maiores lucros são outros dois desafios identificados pela KPMG, que acrescenta a gestão de processos de negócio, os modelos da gestão de risco, a “eventual introdução do IVA no ordenamento tributário angolano” e a própria gestão do crédito e os impactos da adoção das IFRS.

Em termos prudenciais, a KPMG destaca como desafios para a banca de Angola a “melhoria do processo de preparação de informação financeira e prudencial”, também associado às exigências das normas IFRS em termos de demonstrações financeiras.

“A alteração relevante do nível das divulgações e a sua complexidade, as alterações esperadas ao nível do perímetro de consolidação e da harmonização dos processos e políticas colocam desafios relevantes às instituições”, sintetiza a auditora.

Por fim, as alterações regulamentares que o Banco Nacional de Angola vai promover para a “implementação plena do acordo de Basileia II”, incluindo novas regras para calcular o “rácio de solvabilidade regulamentar” são outro dos desafios que se apresentam ao setor bancário angolano.

“As instituições terão de reportar os rácios de solvabilidade, com alterações nas metodologias de quantificação dos requisitos e na definição de elementos elegíveis para fundos próprios, face ao enquadramento atual, o que configura desafios ao nível do tratamento da informação de suporte, devido à maior granularidade da informação e pluralidade das metodologias de quantificação.”

Este último desafio vem em linha com “o papel de maior intervenção e supervisão” em que o BNA tem apostado, “em linha com as melhores práticas”, salienta a auditora. “Reflexo desta tendência é o reforço da supervisão prudencial e comportamental, a publicação de diretivas, avisos e instrutivos referentes à política monetária e cambial, à atividade bancária, ao combate ao branqueamento de capitais, a adoção plena das IAS/IFRS, bem como o reforço da nova regulação fiscal sobre operações com o exterior.”

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