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Futebol e Direitos TV. Portugal, uma exceção europeia

A venda de direitos de TV de forma individual faz da liga portuguesa uma “exceção”, culpa da “visão liberal que aumenta fosso entre clubes”, diz KPMG

in: Dinheiro Vivo, 7 setembro 2016

A discussão sobre a melhor forma de rentabilizar os direitos das transmissões televisivas no futebol português ganhou um novo alento depois de no final de 2015 os principais clubes de futebol terem optado por avançar individualmente para a venda dos mesmos. A Liga Portuguesa de Futebol pretendia uma venda conjunta de forma a rentabilizar o todo mas os maiores clubes avançaram sozinhos.

Face a esta opção também as restantes equipas acabaram por ir seguindo o mesmo caminho, fechando cada uma delas a cedência dos seus próprios direitos. Mas a Liga Portuguesa ainda não desistiu da centralização tendo Pedro Proença comentado ainda no final de agosto que o futebol em Portugal está a “meio de um caminho” de chegar à mesma. Um estudo da KPMG poderá vir a reforçar o caso do ex-árbitro, hoje presidente da Liga portuguesa.

A consultora analisou em detalhe as diferentes valorizações e tipos de negociação seguidos pelas maiores ligas de futebol da Europa. Neste campo, há que destacar duas “divisões” distintas. Os cinco maiores campeonatos europeus, os “Big Five”, e os outros. Portugal entra nesta segunda categoria, sendo comparado pela KPMG com a liga turca, holandesa e polaca.

Os Big Five

Olhando rapidamente para as ligas inglesa, francesa, alemã e espanhola, o levantamento da consultora recorda que os recentes acordos obtidos nestas “Big Five” elevaram a fasquia dos direitos televisivos para novos patamares, afastando-se ainda mais das receitas conseguidas nas restantes ligas europeias.

Em Inglaterra, os direitos foram adjudicados por perto de 2,4 mil milhões de euros/época, em Itália, Espanha e Alemanha por valores superiores a 900 milhões de euros. Já a liga francesa apresenta os valores mais reduzidos entre as cinco maiores, com os direitos de transmissão a valerem 727 milhões.

De acordo com a KPMG, nestas cinco ligas, a taxa de ocupação média dos estádios é de 78%, ou seja cerca de 35 mil espetadores por jogo.

Os outros

Mas há mais futebol (e negócio) além destes cinco países, diz a KPMG. “Na Europa também há ligas menos visíveis mas seguramente importantes, mercados onde os clubes apresentam históricos relevantes e adeptos apaixonados”, passando então à análise dos casos turco, holandês, português e polaco.” E como foram tratados os direitos televisivos nestes? Bem, Portugal é a única exceção. E esta exceção favorece os clubes mais fortes.

“O contrato para a liga turca foi avaliado em 360 milhões de euros por ano; Na Polónia em 34 milhões; Na Holanda por 80 milhões, enquanto em Portugal os direitos são ainda vendidos numa base individual e não coletiva, com o Benfica, Porto e Sporting a garantir as maiores fatias”, resume a consultora.

Os direitos do campeonato turco são, assim, os mais valiosos entre estas ligas comparáveis, valendo pouco mais de metade dos direitos da liga francesa, a menos rentável entre os “Big Five”. Mas a tendência será de aumento: “A dimensão da população turca, cerca de 78 milhões de habitantes, e uma economia em crescimento apontam para um potencial de incremento das receitas a longo-prazo.”

Também a tentar ganhar novas fontes de receitas está a liga polaca, que apesar de ser a menos valiosa – 34 milhões por época -, conseguiu recentemente aumentar a sua visibilidade internacional, tendo vendido os direitos de transmissão dos jogos polacos para mais de 40 países, nota a KPMG.

Já na Holanda, os clubes venderam os direitos de transmissão por 12 anos a troco de 960 milhões de euros, resultando num encaixe anual de 80 milhões de euros. “Estes números, mais uma vez, parecem modestos quando comparados com as ligas maiores e denotam como o país, que deu ao mundo o ‘futebol total’, tem encontrando dificuldades em manter-se a par com os restantes campeonatos”, sintetiza a consultora, lembrando que Ajax, Feyenoord ou PSV têm estado afastados dos grandes palcos europeus nos anos mais recentes.

Portugal: a exceção

A KPMG coloca de seguida o caso português em contraste com todos os anteriores. “Em contraste, os direitos de transmissão em Portugal ainda são vendidos numa base individual em vez de coletivamente”, diz.

A consultora não tem dúvidas que este é um modelo que favorece – e afasta ainda mais – os grandes clubes dos restantes: “Como este sistema beneficia as equipas com mais adeptos, sem surpresa, Benfica, Porto e Sporting – responsáveis por mais de 60% dos adeptos que vão aos estádios no país – apresentam os contratos mais valiosos, cada um encaixando mais de 40 milhões por época.”

E rematam: Esta “visão liberal do mercado reduz a competitividade da liga e aumenta o fosso entre os grandes e os pequenos.”

Esta conclusão tem sido um dos maiores argumentos daqueles que defendem que a liga portuguesa devia ter avançado para uma negociação coletiva dos direitos de transmissão, de forma a uma repartição mais igualitária entre os clubes do encaixe. A Liga Portuguesa, aliás, já deu a entender que não vai desistir facilmente deste objetivo.

Um dos factos que pode levar a alguns recuos neste tipo de negociação individual seguida pelos clubes poderá vir da análise concorrencial aos contratos fechados pelos maiores clubes portugueses com os operadores dada a duração dos mesmos. Sporting e Porto venderam os direitos por 10 anos, uma duração excessiva no entender preliminar do presidente da Autoridade da Concorrência.

Televisão e espectadores

A KPMG avança de seguida para a comparação entre os encaixes conseguidos com os direitos televisivos e o total de adeptos atraídos para os estádios por cada liga, “outra medida para avaliar a atractividade de uma liga de futebol”. Mas não foi possível estabelecer alguma relação entre os dois.

“Apesar de ser a mais rentável em termos de receitas televisivas, a liga turca registou a mais baixa média de espectadores nos estádios na época 2015/16, também amputada pela resistência de alguns adeptos ao sistema polémico de bilhetes do país. De facto, as audiências caíram mais de metade na última década para cerca de 8500 por jogo”, diz a KPMG.

O destaque neste campo vai para a Holanda que acaba por representar o caso inverso dos turcos: se a venda de direitos televisivos não é muito rentável, a média dos espectadores é elevadíssima, superando até os registos dos “Big Five”, graças aos perto de 20 mil espetadores por jogo ou 88% de taxa de ocupação. Decisivo aqui é o facto dos estádios holandeses serem de dimensão reduzida.

Desligando das taxas de ocupação e olhando apenas para a média de espectadores, a KPMG explica que o total de adeptos que se desloca aos estádios nas “Big Five” também realça a diferença entre estes e as quatro ligas “secundárias” destacadas, já que os primeiros apresentam mais 57% de adeptos nos estádios que a média dos restantes.

Por tudo isto, conclui a KPMG, as ligas de futebol além das “Big Five” “enfrentam desafios significativos para maximizar os seus direitos de transmissão a nível doméstico, seja pela reduzida população do país ou por se tratarem de economias ainda emergentes. Além disso, outro desafio significativo passa por atrair mais adeptos aos estádios, muitos dos quais ainda preferem ver jogos das ligas ‘Big Five’ aos que se praticam no seu país”.

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