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JO 1936. Resultados e peripécias do “país amigo” de Berlim

A comitiva portuguesa assegurou uma medalha de bronze no último dia de uma competição em que a falta de vinho foi notado e o bacalhau teve que vir de Portugal

in: “JN História”, nº3, Maio 2016

“Como não há bela sem senão, os portugueses só lamentam a falta de vinho. Às refeições só servem água ou leite. Hão de convir, que não é das coisas mais agradáveis, acompanhar a carne guisada ou o bife com um copo de leite.” A “bela” era a Aldeia Olímpica de Berlim, um “verdadeiro triunfo” nas palavras do enviado especial do Diário de Lisboa, quem deu igualmente conta dos lamentos portugueses pela falta de vinho às refeições. “Não lhes deixam beber vinho, mas deixam-nos admirar bailarinas quase nuas”, acrescenta sobre a oferta de variedades disponível na aldeia olímpica. Não havia vinho, mas bacalhau não faltou, ainda que trazido desde Portugal por Manuel Dias, maratonista, e um dos 19 atletas entre os 22 e os 50 anos que compôs a comitiva portuguesa. João Sasseti, esgrimista então com 44 anos, foi o porta-bandeira na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos.

No total estiveram quase 4500 atletas de 49 países em competição nos Jogos Olímpicos de 1936, realizados entre 1 e 16 de agosto, com 150 eventos de 24 desportos. O país mais representado e medalhado foi a Alemanha, com 101 medalhas, seguido pelos EUA (57) e Itália (27). Também os atletas mais premiados foram alemães, Konrad Frey, com 6 medalhas, três das quais de ouro, e Alfred Schwarzmann, com 5, três de ouro.

Apesar destes marcos para o desporto alemão, o nome que ficou para a História em 1936 foi no entanto o de Jesse Owens, atleta norte-americano, negro, que conquistou quatro medalhas de ouro entregando desta forma um dos maiores dissabores a Hitler, além de ter colocado em xeque as teorias racistas que não só na Alemanha mas também nos Estados Unidos ou Portugal, continuavam bastante presentes. “Os americanos que não os consideram lá em casa, é à custa deles que vão marcando os pontos para a classificação geral”, diz-nos Ribeiro dos Reis numa das crónicas sobre os JO, rotulando de “desolador para a raça branca” os resultados das provas de atletismo. “Simplesmente maravilhoso”, sintetiza sobre Owens.

Sommerolympiade, Siegerehrung Weitsprung

Jesse Owens no topo do pódio do salto em comprimento, relegando para segundo lugar o alemão “Luz” Long e para terceiro o japonês Naoto Tajima

A delegação portuguesa acabou por conquistar uma medalha já no último dia dos Jogos, na prova de hipismo por equipas. “Pela primeira vez na nossa vida assistimos à consagração do desporto português em terra estranha, e foi com desvanecimento que ouvimos os aplausos da multidão quando a bandeira portuguesa começou a subir lentamente num dos três mastros de honra”, confidencia Ribeiro dos Reis. A proeza deveu-se aos tenentes Mena e Silva, Domingos Coutinho (Marquês de Funchal) e José Beltrão, que entre 54 cavaleiros de 18 países conseguiram o terceiro lugar – muito graças à desclassificação de italianos e belgas na última ronda, levando os portugueses do quinto posto até à medalha de bronze.

Além do hipismo, Portugal conseguiu um 17º lugar na Maratona, por Manuel Dias, e um 6º lugar na prova individual de esgrima, através de Henrique da Silveira, terceirense que em 1928, nos Jogos de Amesterdão, fez parte da equipa que garantiu o bronze em conjunto com João Sassetti, o porta-bandeira em 1936.

sino e estadio olimpico(1)

“Sofreu de um modo geral, do mal da improvisação. Os ‘Olímpicos’ preparam-se em quatro anos e não em quatro meses”, explicaria mais tarde o capitão Maia Loureiro, dirigente do Comité Olímpico e da Federação Portuguesa de Futebol sobre a prestação portuguesa. “O Manuel Dias não soube dosear o esforço e a ‘história dos sapatos’ ainda será preciso que ele ma conte mais uma dúzia de vezes para a compreender”, acrescentaria. Mas qual história dos sapatos?

É que além dos resultados, também as peripécias vividas pela comitiva portuguesa ao longo dos JO de 1936, além dos lamentos sobre a falta de vinho e do “bacalhau e uma garrafa de azeite” trazida de Portugal de que já demos conta, são dignas de registo. Como na maratona, prova onde Manuel Dias decidiu arrancar forte logo no início, segurando ainda a quarta posição aos 25 quilómetros. Mas “daí por diante começa porém a sua odisseia”. “O piso da estrada e os sapatos começam a dificultar-lhe a corrida. Chegou ao fim da prova com os pés feridos e cheios de bolhas”, relata o enviado do Diário de Lisboa. Que não tem grande problema em apontar o dedo: “Deve ter tido um pouco de culpa no facto, porque contrariando as indicações (…) não tratou de se habituar convenientemente aos sapatos com que foi correr.” Dias antes já o mesmo enviado tinha criticado Manuel Dias por andar às compras em Berlim a três dias da prova.

Uma outra peripécia verificou-se logo na abertura dos JO. Alguns atletas da comitiva receberam do cônsul português em Berlim camisas com características específicas para uma cerimónia que normalmente obriga os atletas a largas horas de espera. “As caminhas tinham também cuecas pegadas, com um dispositivo especial para determinadas necessidades”, conta o correspondente. Mas alguém esqueceu-se de explicar aos desportistas este pormenor. Assim, sem conhecerem o artigo os atletas “não engiaram nas pernas a parte da camisa que servia de cueca e, como é natural, vestiram umas ceroulas suas. Resultado: durante todo o desfile viram-se e desejaram-se com o excedente da camisa, que fazia um volume enorme e não se acomodava. Percalços que a todos podem suceder.”

As relações com Portugal

Outra ideia que se realça na imprensa da época e também no livro promocional feito pelos alemães para os visitantes de Berlim em 1936 é o facto de Portugal ser visto desde a Alemanha como um país amigo e próximo do regime nacional-socialista. O “folheto” promocional preparado pelos alemães para os turistas dedica duas imagens de página inteira às viagens promovidas pela “Força da Alegria” (Kraft durch Freude) à Madeira e aos Açores em março e abril de 1936, quando oito mil operários alemães visitaram o país em passeio, sendo recebidos por bandeiras nazis e de braço estendido pela comunidade alemã radicada em Portugal – viagens retratadas num documentário de Artur Costa de Macedo e produzido pelo então Secretariado da Propaganda Nacional português, e hoje disponível na Cinemateca Digital.

força pela alegria PT

Também a nível diplomático se confirmavam as boas relações entre os países ao longo do ano das olimpíadas. Karl Emil Schabinger, o barão von Schowingen, delegado do ministério Público em Karslruhe e membro das SS, forças paramilitares do partido nazi, escreveu no início do verão uma série de artigos para jornais alemães depois de uma estadia de um mês a Portugal. Nestas reportagens feitas para o “Karlsruher Tagblatt”, em julho de 1936, Schabinger escreve sobre o país de Salazar realçando que “apesar de algumas diferenças fundamentais” o regime português “corresponde em muito ao da nova Alemanha”, sem duvidar de que lado se coloca Portugal na luta contra o bolchevismo.

“São três os países que actualmente encaram corajosamente o bolchevismo: a Alemanha, a Itália e Portugal. Com esta frase os meus amigos portugueses costumam caracterizar o que há de comum na política destas três nações e que ao mesmo tempo constitui um dos aspetos mais importantes do Estado Novo”, escreveu o magistrado. Que também deu conta da história portuguesa recente aos leitores alemães: “Até 1926, Portugal era conhecido entre nós como país das eternas revoluções. A revolução nacional de 28 de Maio de 1926, levada a efeito pelo Exército e pela Marinha, pôs termo a um tal estado de coisas. O general Carmona (…) foi eleito Presidente da República. A sua acção que mais importantes consequências produziu foi a nomeação do dr. Oliveira Salazar para ministro das Finanças e presidente do Conselho. Salazar é hoje o verdadeiro ditador de Portugal.”

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