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Banco de Portugal: Saúde da banca portuguesa não está a melhorar

O total de ativos não parou de cair, a rendibilidade e solvabilidade afundaram e o crédito em risco voltou a subir. Assim foi o 1º trimestre da banca

in: Dinheiro Vivo, 29 junho 2016

A saúde da banca portuguesa não melhorou nos três primeiros meses deste ano. Esta é a ideia que se retira da radiografia feita pelo Banco de Portugal aos desenvolvimentos registados no primeiro trimestre de 2016 no sistema bancário presente em Portugal. Menos ativos, mais créditos em risco e uma rendibilidade em queda marcaram o primeiro trimestre do ano da banca presente no país.

O relatório agora divulgado pelo Banco de Portugal foi elaborado com as informações disponíveis até 2 de junho que foram recolhidas pelo supervisor bancário junto das entidades financeiras que operam em Portugal.

“O ativo total do sistema bancário continuou a reduzir-se no primeiro trimestre de 2016”, começa por apontar o banco central na avaliação global ao setor financeiro, onde destaca “o aumento do crédito em risco” no balanço dos bancos e o facto da “rendibilidade do sistema bancário” ter decrescido nos primeiros meses do ano, “devido, sobretudo, à quebra dos resultados com operações financeiras”.

Além disto – ou por tudo isto – também os níveis de solvabilidade dos bancos no período em análise “diminuíram ligeiramente”, culpa da quebra dos fundos próprios das instituições.

De acordo com os cálculos do supervisor, entre dezembro de 2015 e março de 2016, o total de ativos detido pelo sistema bancário caiu mais quatro mil milhões de euros, situando-se no final do primeiro trimestre em 409 mil milhões de euros, o equivalente a 2,3 vezes o PIB português. Este valor compara com os 513 mil milhões em ativos detidos pela banca em 2011 e implica uma quebra de 20% desde o final desse ano.

“À semelhança dos trimestres anteriores, o ativo total do sistema bancário continuou a reduzir-se de forma gradual”, reconhece o BdP. Em termos de composição dos ativos do sistema, verificou-se um “ligeiro decréscimo dos depósitos”, um decréscimo que, dado o recuo do total registado nos ativos, não teve impacto no peso dos depósitos face ao total dos ativos, que assim permaneceu “virtualmente inalterado”.

Ainda em relação à evolução da estrutura dos balanços da banca, o supervisor aponta que “observou-se” no período “uma redução de 4,4% dos recursos de bancos centrais e de 6,4% das responsabilidades representadas por títulos”. Ainda assim, o peso dos bancos centrais na estrutura do financiamento da banca continuou a representar 6,6% do total, um recuo de apenas 0,2 pontos face a dezembro de 2015.

Gap comercial em queda, crédito em risco a subir

Com o arranque do ano marcado por uma contração do crédito superior à registada nos depósitos, os bancos também viveram um primeiro trimestre marcado pela continuação da quebra do gap comercial (crédito líquido menos depósitos), hoje em valores raramente vistos em anos anteriores.

“No primeiro trimestre de 2016, o gap comercial diminuiu 200 milhões de euros”, diz o BdP. No final do período, este gap foi avaliado em 6,3 mil milhões de euros, valor que compara com 6,5 mil milhões no final de 2015. Olhando mais para trás, e de acordo com os dados do Banco de Portugal, nota-se que este gap comercial está em queda acelerada: em 2011 foi de 98,2 mil milhões, em 2012 de 70 mil milhões, em 2013 de 42,7 mil milhões e em 2014 de 18 mil milhões.

Já ao nível do crédito em risco que ameaça os balanços do sistema bancário português, o primeiro trimestre também não trouxe boas notícias para a qualidade dos bancos. “O rácio de crédito em risco aumentou ligeiramente no primeiro trimestre de 2016 para 12,2%, refletindo um aumento do crédito em risco e a diminuição do crédito bruto”, conclui o supervisor que detalha que a “evolução foi transversal a todos os segmentos do setor privado não financeiro”.

O total de crédito em risco passou de 6% para 6,1% nos contratos à habitação, de 14,2% para 14,3% nos créditos ao consumo e de 19,7% para 19,9% nos créditos a empresas não financeiras. Estes valores significam um regresso às subidas do total de créditos em risco, que tinham recuado de 2014 para 2015 – à exceção do crédito à habitação, que subiu ligeramente de 2014 para 2015.

Quanto às imparidades, o supervisor aponta que o “stock de imparidades para crédito em percentagem do crédito bruto manteve-se praticamente inalterado” nos três primeiros meses do ano.

Custos pesam cada vez mais nos bancos

Com o sistema bancário a não conseguir inverter a tendência para a quebra das receitas, os custos operacionais das entidades financeiras voltaram a aumentar de peso em termos relativos nos três primeiros meses do ano, isto apesar da grande maioria dos bancos ter já em curso planos de reestruturação. Mas o problema não está nos custos, está mesmo nas receitas.

No primeiro trimestre do ano registou-se “uma redução substancial dos resultados em operações financeiras”, diz o BdP, sendo que apesar da “rendibilidade dos capitais próprios e dos ativos” ter sido positiva no período em análise, “ambos os indicadores apresentam uma diminuição significativa”, alerta.

De acordo com os dados disponibilizados pelo BdP, a rendibilidade dos capitais próprios caiu de 6,7% para 2,6% e a rendibilidade dos ativos do sistema caiu de 0,5% para 0,2%. Estas evoluções marcam tal como no caso do crédito em risco, um regresso às evoluções negativas no setor: de 2014 para 2015, a banca recuperou para um cenário de rendibilidade positiva mas com a entrada no novo ano esta voltou a quebrar.

Um outro fator que o supervisor destaca dos primeiros três meses deste ano na banca foi o quase desaparecimento da rubrica relativa a “outros proveitos” dos resultados das instituições financeiras, que se tornaram “residuais”, diz o BdP. Contudo, e dada a redução “acentuada” dos custos com juros, o quase desaparecimento deste tipo de proveitos acabou por ser parcialmente compensada. O mesmo já não aconteceu com o rácio cost-to-income.

“Apesar da redução dos custos operacionais, o rácio cost-to-income aumentou no primeiro trimestre de 2016, em termos homólogos, devido à diminuição do produto bancário”, diz o Banco de Portugal. O supervisor identifica mesmo um salto significativo neste indicador de março de 2015 para março de 2016, o que inverte por completo a tendência de redução do peso dos custos face aos proveitos que se verificava desde 2013.

Por fim, e em relação à solvabilidade do sistema bancário presente em Portugal, o supervisor destaca no seu relatório que o “rácio entre o capital tier 1 e os ativos diminuiu 0,3 pontos percentuais face ao quarto trimestre de 2015″, registando-se uma evolução negativa dos rácios de capital no período.

Para o BdP, esta evolução negativa deve-se ao facto dos bancos ainda estarem a “refletir o efeito dos ajustamentos regulamentares decorrentes das novas disposições transitórias CRD IV /CRR” – ou seja, as disposições sobre reserva de conservação de fundos próprios (CRD IV) e sobre as regras de cálculo e determinação de níveis mínimos de fundos próprios (CRR).

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