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A ironia laboral. Quanto mais se trabalha, menos se recebe

Um profissional no México dedica 2 228 horas anuais ao seu emprego, recebendo em troca do seu esforço um salário anual de 12 850 dólares. Já no Luxemburgo, bastam 1 643 horas anuais para receber 61,5 mil euros ao final de um ano.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) relativos às diferentes realidades nos mercados laborais dos seus membros mostram uma tendência: quanto mais se trabalha, menos se ganha.

Nos salários, e como já aqui demos conta, há um imenso fosso entre os 31 estados para os quais a OCDE apresenta valores – dos 12,8 mil dólares anuais no México aos 61,5 mil dólares no Luxemburgo.

Mas se o México surge na última posição do ranking salarial, o inverso acontece na tabela dos países da OCDE onde se exige mais horas de trabalho a cada empregado: o México é o único país onde os trabalhadores dedicam mais de 2 200 horas por ano ao emprego.

Além da situação extrema do México, a verdade é que a mesma dicotomia – quanto mais horas no trabalho menos salário – se verifica em vários países considerados. Para perceber isto, é preciso cruzar os dados da OCDE sobre salários e horas trabalhadas.

Salários.

A metodologia da OCDE para o cálculo dos salários médios passa por dividir o valor total de remunerações pagas no país pela média da população empregada no ano em questão. Estes valores consideram já a paridade do poder de compra.

A OCDE compilou os salários médios de 31 dos seus membros, recorrendo para isso às remunerações pagas em 2014, último ano com dados completos. Neste ranking, o Luxemburgo sai como o país que melhor remunera o trabalho, acima dos EUA e da Suíça.

Portugal surge como um dos piores classificados, com uma remuneração média de 23,9 mil dólares, bem abaixo da média da OCDE – nos 44,8 mil dólares.

https://data.oecd.org/chart/4qK3

Horas trabalhadas.

Já virando atenções para os dados compilados pela OCDE sobre o total de horas exigidas a cada empregado nos diferentes países que compõem a organização, há quase uma inversão entre líderes e últimos classificados em relação ao que acontece com os salários.

Como já referimos, o México passa de último (nos salários) para primeiro (nas horas de trabalho exigidas). Além dos mexicanos, destaque para os coreanos (2124 horas), gregos (2042 horas), polacos (1923 horas) ou portugueses (1857 horas). Este nível de intensidade laboral compara com a média de 1770 horas do conjunto de países da OCDE.

Do outro lado da tabela, ou seja entre as economias que menos horas exigem aos seus trabalhadores, encontramos a alemã (1371 horas), holandesa (1425 horas) ou a norueguesa (1427 horas), exigindo jornadas abaixo da média da OCDE.

Para o cálculo das horas de trabalho médias, a organização divide o total de horas trabalhadas pela média da população empregada no ano em questão.

https://data.oecd.org/chart/4qK2

Horas Vs. Salários.

Nos dados da OCDE relativos às horas trabalhadas surgem alguns países para os quais a organização não conta com dados sobre salários anuais em 2014, razão pela qual somos obrigados a expurgá-los do cruzamento entre salários e horários. Casos do Chile, Rússia, Islândia ou Letónia.

Sem contar com estes países, nota-se melhor a ligação entre horas trabalhadas e salários baixos: depois do México, a Estónia é o segundo país com os salários mais baixos (21 mil dólares), ocupando depois a 5ª posição no ranking dos que mais trabalham – entre os países com dados sobre salários -, com 1859 horas.

Já na Hungria, a economia apresenta como média o 4º salário mais baixo (21,4 mil dólares), surgindo depois na 6ª posição das que mais horas exigem (1858 horas). Algo semelhante ao que acontece na Polónia, que pratica os sextos salários mais baixos (23,6 mil dólares), sendo o quarto mais exigente em termos de horários (1923 horas).

Já do outro lado da tabela, entre os países com os salários médios mais elevados, destaque para a Holanda, país que detém a sétima remuneração média mais alta (51 mil dólares), sendo o segundo menos exigente em termos de horas (1425 horas). Também a Dinamarca – quarto menos exigente e oitavo maior salário – e a Noruega – terceiro menos exigente e quinto maior salário – apresentam valores semelhantes.

Distância face à média.

Para facilitar a comparação, adaptámos os valores de horas e salários de cada país à diferença destes face à média do conjunto da OCDE, em que esta é 100%. Ou seja, e voltando ao México como exemplo: estes trabalham 126% da média (2228 horas contra 1770 horas da OCDE) e ganham 28,6% da média (12,8 mil dólares contra 44,9 mil dólares).

No caso português, os trabalhadores são chamados a cumprir 105% das horas exigidas na OCDE a troco de um salário que vale 53,3% das remunerações médias praticadas na OCDE.

Com esta adaptação, tanto os desvios salariais como os existentes nos horários exigidos por cada país ficam melhor salientados:

percentagens

in: Dinheiro Vivo, 13 janeiro 2016

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