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Grécia. Entre a ilusão da maioria e o realismo dos casamentos forçados

Incerteza sobre o vencedor coloca partidos com menos intenções de voto como os mais prováveis de estarem no próximo governo

Com 19 partidos e cinco coligações na corrida, as sondagens sobre as eleições de dia 20 vão alimentando todos os cenários, numa campanha que oscila entre a ilusão de quem declara procurar a maioria, os sinais de abertura para coligações e a promessa de “pactos com o diabo” se for preciso.

As sondagens têm mostrado ligeiras diferenças entre o Syriza e a Nova Democracia (ND), os partidos com mais intenções de voto, diferenças que ora surgem em favor do primeiro ora em favor do segundo – ambos a rondar os 25%-28. Com Tsipras a recusar a união à ND, dificilmente surgirá um governo com apenas dois partidos em Atenas, ao contrário do que ocorreu em Janeiro, quando o Syriza se aliou aos Gregos Independentes (ANEL). Mas o ANEL corre o risco de desaparecer de cena a dia 20, pois a lei exige um mínimo de 3% para eleger um deputado, limiar raramente ultrapassado por este partido de direita nas sondagens.

À esquerda E se o anterior parceiro do Syriza à direita pode não estar disponível, à sua esquerda não há grandes hipóteses: Unidade Nacional e o KKE (comunistas) não perdoam o volte-face de Tsipras, tanto que a própria Unidade Nacional nasceu de uma cisão no interior do Syriza, arrastando consigo vários deputados do partido. São e serão contra o resgate.

Deste lado do espectro sobra assim o Pasok para entender-se com Tsipras. Os socialistas, porém, continuam a travessia do deserto e viram o Syriza a ocupar o seu espaço, pelo que mesmo em caso de entendimento entre ambos, este será insuficiente para chegar à maioria. As sondagens mostram que Tsipras e Pasok juntos ficam aquém dos 151 lugares necessários. Note-se que o partido que ganhar as eleições tem direito a um bónus de 50 lugares, pelo que não se procura 50,01% dos votos. Ou seja, imaginando que o Syriza ganha com 30%, então terá 127 deputados, 77 eleitos e 50 de bónus.

Os difíceis cenários que se apresentam a Tsipras em caso de vitória não têm fragilizado o seu discurso, ainda assente na aura anti-sistema: “Estamos de pé, não a pedir uma segunda hipótese, como se costuma dizer, mas a primeira. A primeira hipótese de ter a Esquerda finalmente a governar, porque o período que durou sete meses deu muito poucas hipóteses para governar”, avançou Tsipras esta semana, lembrando as intermináveis negociações dos últimos meses.

“Pedimos um mandato forte e uma participação ainda mais forte na caminhada por este caminho difícil”, apelou o líder do Syriza, que todavia não ignora as sondagens, mostrando-se aberto a uma coligação com “partidos pequenos”. Se o Syriza não ganhar a maioria, disse, “a Grécia terá um governo, porque ninguém quer a responsabilidade de deixar o país à deriva”.

À direita Idêntica é a postura da Nova Democracia de Evangelis Meimarakis, que admite porém aliar-se ao Syriza. “Acredito no consenso e na cooperação”, disse. “Já mostrámos nos últimos anos que quando é em prol do país e pela salvaguarda da posição na zona euro, estamos dispostos a colaborar.” Meimarakis admitiu até abdicar do cargo de primeiro-ministro em caso de vitória se for esse o preço de ter um governo funcional.

Caso risquemos o Syriza como potencial parceiro em cenário de vitória da ND, vemos que só há um caminho para Meimarakis. À direita, e extraindo o ANEL das contas, sobra a Aurora Dourada, de extrema-direita – recorrente terceiro mais votado nas sondagens – pelo que é no centro que Meimarakis – e Tsipras – terá que encontrar a virtude. Aquando da votação no parlamento grego do terceiro resgate ao país, coube à Nova Democracia, ao Pasok e ao To Potami, de centro, assegurarem os votos para o acordo ser aprovado. Unindo-se a estes dois, a ND conseguirá ultrapassar os 151 deputados.

Ao centro Devidamente posicionado encontra-se já o To Potami de Stavros Theodorakis, que definiu como objectivo eleitoral um resultado suficiente para ser um desbloqueador de maiorias, seja a favor do Syriza ou ND. Ideologicamente colocado no centro do espectro, a intenção do To Potami foi bem recebida por Tsipras e Meimarakis, devendo por isso ser dos primeiros a ser convidado a juntar-se a uma coligação – seguindo-se provavelmente o Pasok.

Colocando-se à margem da “política do antigamente”, até porque tem um ano de vida, o Potami tem reiterado ao longo da campanha que os membros do partido “são profissionais, que provaram as suas aptidões nas respectivas áreas” e que não são “filhos” de juventudes partidárias. Theodorakis, ex-jornalista, ontem foi mais longe e salientou que o partido “até se aliará ao diabo desde que isso resolva o problema grego”, repetindo uma ideia que também já se ouviu de responsáveis do Syriza e da ND.

Indecisos, volver Os gregos mostraram recentemente que o que as sondagens dizem pode, no final de contas, ficar distante do que se verifica na hora de contar votos. Seja culpa da forma como são feitas, seja pela relevante número de indecisos, o facto é que no referendo de Julho o potencial empate entre o “Sim” e o “Não”, tornou-se numa vitória clara do “Oxi”.

Os inquéritos apontam para 10-15% de indecisos, eleitores cujo voto vai determinar para que lado caem as eleições e o cenário com que o vencedor se deparará dia 21. A confirmarem-se as intenções de voto que dão cerca de 15-18 deputados a To Potami e ao Pasok, só com estes é que Syriza ou ND conseguirão a maioria, o que no fundo significa que dois dos partidos menos votados pareçam curiosamente mais próximos do governo do que Tsipras ou Meimarakis.

in: Jornal i, 9 Setembro 2015

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