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OXI. O dia em que os gregos se ergueram contra a austeridade

A recusa europeia em incluir na proposta medidas concretas de alívio da dívida foi o que levou o governo grego a resistir até à última

A 63 anos de distância do perdão que a Grécia e outras duas dezenas de países estenderam às contas públicas alemãs, perdão esse que permitiu a sobrevivência e o relançamento do país, os gregos decidiram ontem de forma clara que tinha chegado a hora de bater o pé aos desejos de Berlim e Bruxelas de continuar a combater a crise com a imposição de pacotes de austeridade dura. A proposta dos credores europeus que foi ontem a votos continuava totalmente omissa em relação às promessas feitas pelos parceiros europeus aos gregos, há mais de dois anos, de analisar e avançar com o alívio da dívida. E os gregos fartaram-se, ou pelo menos mais de 61% dos mesmos.

A vitória clara conseguida ontem pelo “Não”, tal como o governo do Syriza desejava, transporta agora Tsipras e Varoufakis até Bruxelas para reiniciar negociações com novos e reforçados trunfos: além dos gregos não terem deixado margem para dúvidas sobre o que desejam, o governo grego levará consigo também o relatório do FMI sobre a (in)sustentabilidade da dívida grega – relatório esse que os líderes europeus tentaram evitar que fosse publicado.

Ontem, ainda os votos estavam a ser contados, e já os próximos dias começavam a ser preparados. Assim que se tornou claro que o “Não” sairia vitorioso, Alexis Tsipras multiplicou-se em contactos telefónicos com os principais líderes europeus, leia-se Angela Merkel e François Hollande, para preparar as novas rondas negociais que Atenas deseja relançar. O primeiro-ministro grego também terá contactado de imediato com Mario Draghi, líder do Banco Central Europeu, provavelmente para reforçar o apelo feito pelo próprio banco central da Grécia para o aumento da liquidez de emergência disponível para o país: só isto permitirá levantar o garrote financeiro imposto à Grécia na semana que antecedeu o referendo de ontem. A multiplicação de contactos por parte de Tsipras não visou apenas os líderes europeus, mas também a oposição grega (ver ao lado).

Discursos de vitória, demissões de derrota Ainda a contagem dos votos estava a meio e já milhares de gregos se dirigiam para a praça Syntagma para celebrar a vitória do “Não”. Ao contrário do que indicavam as sondagens, o resultado não foi equilibrado, nem de perto. Isto também deu margem a que os eventos se sucedessem de forma um pouco mais acelerada do que se esperava – Antonis Samaras foi obrigado a demitir-se, por exemplo –, tal como os discursos.

Yanis Varoufakis, ministro das Finanças, comentou que a vitória do “não” era “um grande ‘sim’ à Europa democrática”, atacando de seguida a postura dos credores europeus dos últimos cinco meses. “Durante cinco meses recusaram negociações substanciais, impuseram o fecho da banca e planearam a nossa humilhação”, disse, defendendo depois que: “A partir de amanhã [hoje], vamos contactar os nossos parceiros e procurar uma plataforma de entendimento.” Apesar da euforia dos gregos, Alexis Tsipras lembrou no seu discurso que “não houve vencedores nem derrotados” no rescaldo do referendo, saudando porém os seus eleitores por terem mostrado que “nem nas mais difíceis circunstâncias a democracia pode ser chantageada. É um valor dominante”.

Tsipras esclareceu depois que a “prioridade imediata” é relançar o sector bancário mas também promover a união entre todos os gregos, daí a decisão de convocar uma reunião para hoje com todos os partidos (ao lado).

in: Jornal i, 6 Julho 2015

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