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Grécia. Decisão soberana causa azia aos líderes europeus

Políticos, bancos e exportadores alemães, e não só, reagem mal à vitória do “não” e ameaçam que agora novo acordo será mais duro e caro

“Alexis Tsipras queimou as últimas pontes através das quais a Europa e a Grécia poderiam ter chegado a um consenso.” Qual consenso? Não explicou, mas o recado ficou dado. Sigmar Gabriel, vice-chanceler alemão, foi um dos vários representantes do statu quo germânico e europeu que não esconderam a azia provocada pelo resultado. Gabriel falava horas depois de até as associações de bancos e dos exportadores da Alemanha terem vindo a público exigir a expulsão da Grécia da zona euro.

“Com a rejeição das regras do euro”, disse Sigmar Gabriel, sem especificar a que regras se referia, “as negociações para um programa avaliado em milhares de milhões ficam muito difíceis de conceber”. O braço-direito de Merkel foi mais longe e acusou o governo de Tsipras de estar a condenar “o seu povo a um caminho amargo, sem esperança e de abandono”. E se estes recados não chegassem, também Michael Fuchs, da coligação de governo na Alemanha, veio reforçá-los: “Tsipras causou um desastre, ele que nem pense que há hipóteses de ter um acordo dentro de 48 horas.”

Seguiu-se o ministro das Finanças da Eslováquia, Peter Kazimir, que através do Twitter comentou que “a rejeição das reformas pelos gregos não pode significar que terão um acesso mais facilitado ao dinheiro”, assumindo mesmo: “Estou desapontado com os resultados do referendo.” Depois foi o primeiro -ministro belga, Charles Michel: “Lembro que há mais 18 democracias na zona euro.”

Inflexibilidade Todas estas posições das autoridades alemãs e europeias acabaram no fundo por reflectir a postura destes mesmos responsáveis que fica para a história das últimas semanas: os credores da Grécia evidenciaram falta de flexibilidade tanto a nível negocial como a nível diplomático, uma postura que acabou por chocar de frente com o resultado do referendo – e com a vontade de muitos milhares de europeus que nos últimos dias se manifestaram em apoio ao “OXI”.

A nível negocial, a falta de flexibilidade dos credores europeus ficou evidente pela omissão deliberada destes de assumir no acordo proposto a Atenas o corte da dívida grega, algo que para o Fundo Monetário Internacional, só para citar um exemplo, já é mais que inevitável. Do ponto de vista diplomático, a falta de flexibilidade ficou visível pela decisão de Bruxelas e Berlim de fazer do referendo uma consulta não sobre a proposta de acordo mas sim sobre a permanência na moeda única e na União Europeia – mensagem que não condicionou os gregos, já que se a maioria votou no “não”, essa mesma maioria que é claramente europeísta.

Ganhou o “não”. E agora? Considerando a postura assumida pelos responsáveis europeus, Tsipras e Varoufakis vão continuar a ter uma tarefa hercúlea pela frente, mesmo com a decisão soberana do povo grego na bagagem. É_que, apesar de a população grega ter dito que não à proposta europeia, os credores defenderam que tal resultado ia levar a ainda mais austeridade.

O governo grego terá estado reunido ao longo desta madrugada a preparar os argumentos para o regresso à mesa das negociações, devendo agora insistir ainda mais no avanço de um corte na dívida ao país, corte suficiente para que Atenas possa, por um lado, começar a debelar a miséria que foi acumulando ao longo dos últimos anos de austeridade, mas também para dar a volta por cima e reiniciar o crescimento económico.

O primeiro objectivo grego será agora desbloquear o sistema bancário, precisando para isso do BCE, que ao decidir na última semana não aumentar a linha de liquidez disponível para a banca grega obrigou à imposição de medidas de controlo de capitais no país. Fora isto, que já será bem difícil, há depois que contar com os líderes europeus, cuja posição, como já vimos, não tem sido de flexibilidade. Veja-se que Jeroen Dijsselbloem, líder do Eurogrupo, na última sexta-feira assegurou que o “não” no referendo não levaria os europeus a darem mais margem a Atenas.

Assim, o que irá acontecer? Como temos visto nos últimos anos, nesta crise tudo pode mudar de um dia para o outro – menos a austeridade. Caso os países do euro aceitem incorporar nas negociações o voto dos gregos e a posição do FMI, poderá surgir um acordo menos recessivo num curto espaço de tempo. Mas e se o resultado levar a que os adultos da UE façam birra? Tal pode levar a que o BCE não alivie as restrições a Atenas e à apresentação de um acordo mais duro. Neste caso, Tsipras será forçado ou a aceitar esse acordo a qualquer custo ou simplesmente a avançar para uma nova unidade monetária e iniciar o processo de saída do euro, mesmo que temporariamente.

in: Jornal i, 6 Julho 2015

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