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O testamento político e material de Hitler

Hitler acumulou quase 4500 obras de arte. Destas, 37% foram compradas legalmente e adornam hoje edifícios ou museus alemães

© Getty Images

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As últimas vontades de Adolf Hitler dividem-se em dois campos: o político e o material. Do ponto de vista político, é notório que Hitler ainda acreditava na continuação de uma Alemanha nazi sem o próprio. A esperança do líder do III Reich era que o seu desaparecimento permitisse à Alemanha celebrar uma aliança anti-soviética com os Aliados, já que desde pelo menos 1944 que havia conversações entre Aliados e nazis sobre uma eventual paz. Os primeiros, porém, exigiam como passo inicial de uma aproximação a deposição de Hitler, o que o próprio sempre recusou. Depois, quando Hitler finalmente desapareceu, a Alemanha já estava em cacos e pouco tinha com que negociar.

Os sucessores

No testamento político, Hitler deixou a estrutura de governo que o deveria suceder:o almirante Dönitz seria o presidente e o cargo de chanceler do Reich caberia a Goebbels – que todavia se suicidou um dia depois de Adolf Hitler. Além destes cargos, o Führer nomeava mais oito ministros – ministro do Partido, dos Assuntos Externos, dos Assuntos Internos, daGuerra, da Economia, da Agricultura, da Justiça e dos Assuntos Culturais. Deixou também escrito quem deveriam ser os comandantes supremos do Exército, da Marinha, da Luftwaffe, assim como os líderes das SS e da polícia alemã. Esta nova hierarquia foi redigida em três exemplares entregues a três diferentes responsáveis, para assegurar que as ordens eram efectivamente seguidas.

As riquezas

Hitler morreu rico e no testamento material definia o destino da sua fortuna:“Tudo o que possuo – se ainda tiver valor – pertence ao partido. No caso de este já não existir, entregar-se-á ao Estado. No caso de até o Estado ter sido destruído, não será preciso que eu tome nenhuma decisão adicional”, declara o testamento, citado pelo historiador alemão Guido Knopp.

Bibliografia sugerida:
Wook.pt - Os Segredos do III Reich

Com a aniquilação do III Reich, porém, a definição do destino das riquezas de Hitler coube aos Aliados. Estes decidiram que todas as posses do ex-Führer eram do Estado Livre da Baviera, já que até à data da sua morte a residência oficial de Hitler tinha sido em Munique, explica o mesmo autor. Foi assim que coube à Baviera a propriedade de “A Minha Luta”, o que acabou com a decisão de não reeditar a obra. Esta proibição, todavia, tem os dias contados – os direitos de autor extinguem-se passados 70 anos depois da morte do autor, pelo que a Baviera já admitiu que as primeiras reedições surjam em 2016 – embora o livro já tenha sido reeditado em vários países.

Mais complicado tem sido decidir o futuro de 4353 obras de arte que Hitler acumulou, já que nem todas foram obtidas por meios ilícitos. Destas 4353 peças, conta Knopp, 406 foram identificadas como tendo sido confiscadas ilegalmente. Porém, dois terços da colecção foram efectivamente compradas a intermediários, pelo que era preciso apurar se estes as tinham negociado legal ou ilegalmente. A tarefa coube a Hanns-Christian Löhr, historiador berlinense, que descobriu que 37% das obras foram compradas legalmente, tendo por isso sido entregues ao Estado alemão, que actualmente as tem ou a adornar edifícios ou em museus.

Das restantes obras, um terço foram devolvidas aos países de origem e 10% foram dadas como “perdas de guerra”. Restam ainda 25% das obras, que hoje, 70 anos volvidos sobre a morte de Hitler, “ainda se encontram pendentes para serem restituídas”, segundo Guido Knopp.

in: Jornal i, 30 Abril 2015

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