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30 Abril 1945. Os últimos minutos da vida de Hitler

Viu o céu pela última vez a 20 de Abril. Dias depois decidia: “Prefiro meter uma bala na cabeça a abandonar Berlim.” E assim foi. “Esperem pelo homem que há-de vir”, disse na despedida.

© Getty

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Cerca de meia hora antes de disparar o tiro com que acabou com a sua vida, há 70 anos, Adolf Hitler recusou pela quinta vez em poucos dias abandonar Berlim. “Não”, disse a Goebbels, “a minha decisão é irreversível.” Depois despediu-se do seu ministro da Propaganda. Este poria fim à vida um dia depois do Führer. Goebbels, um dos mentores da Solução Final, foi o único do núcleo duro nazi que acompanhou o líder até à última hora:Himmler, Goering ou Ribbentrop, por exemplo, já há muito se tinham feito à vida. Eles e milhares de berlinenses que começaram a fugir assim que souberam que os soviéticos se aproximavam da capital alemã. A fuga intensificou-se a partir de 21 de Abril: “Milhares de pessoas deixaram a cidade em direcção a ocidente, de autocarro, de carro, de carroça, bicicleta ou a empurrar carrinhos de bebé. Uma massa humana teve de se deslocar a pé. Filas infinitas arrastavam-se para fora da cidade.”Entre estes milhares de fugitivos também se encontravam funcionários estatais e militares que, “munidos de documentos falsos, viravam costas a Berlim sem autorização.”

Bibliografia recomendada:

Wook.pt - Os Ditadores Wook.pt - Os Segredos do III Reich O Livro de HitlerWook.pt - A Queda de Berlim

A descrição é baseada em relatos e anotações de dois homens que acompanharam de perto os últimos dias de Hitler, Heinz Linge e Otto Günsche. O primeiro pertenceu à guarda pessoal de Hitler desde 1935 e chegou a 1945 como chefe do serviço do pessoal do Führer.Já Günsche era desde 1943 o responsável pela agenda político-militar de Hitler. Foi a estes dois colaboradores que Hitler pediu que cremassem o seu corpo.

Capturados pelos soviéticos a 3 de Maio, foram separados e interrogados separadamente de 1946 a 1949 pelos serviços secretos soviéticos (NKVD) no âmbito da Operação Mito, missão para reconstruir os últimos dias de vida de Hitler. Os seus testemunhos, lado a lado com a documentação recolhida pelo NKVD e com informações obtidas em vários interrogatórios a outros prisioneiros alemães próximos deHitler levaram à elaboração do “Livro de Hitler”, o relatório final da Operação Mito, entregue a Estaline no final de 1949. Este relatório só recentemente ficou acessível, tendo Henrik Eberle e Mathias Uhl, historiadores alemães, editado uma edição traduzida e anotada do mesmo, cuja versão portuguesa chegou a Portugal pela mão da Alêtheia Editores. É esse livro, que abrange o período 1933-1945, que serve de base a esta síntese.

O último céu

A 30 de Abril de 1945, Hitler já não via o céu há dez dias. E morreria sem voltar a vê-lo. A última vez que pôs os pés fora do bunker foi no seu 56.o aniversário, a 20 de Abril, e quase obrigado. Já muito debilitado, esmagado pela derrota iminente e por problemas de saúde que já se arrastavam há muito tempo, às 15h do dia do aniversário o líder do IIIReich foi ao jardim por cima do seu refúgio receber felicitações de várias delegações. “Depois, cansado, Hitler levantou a mão direita e regressou ao bunker. Naquele dia Hitler viu o céu pela última vez.”.

A pressão russa sobre Berlim crescia a cada minuto que passava. “Os russos já estão assim tão perto?”, questionava o ditador um dia depois do seu aniversário. Os rumores de que Hitler estava prestes a sair da capital também iam crescendo, para alívio dos seus colaboradores mais próximos, desejosos de escapar da pinça soviética que se fechava sobre Berlim. Mas enganavam-se: o Führer foi rápido a desmentir os rumores da fuga iminente de Berlim mas permitiu que os elementos não essenciais abandonassem a cidade:“É evidente que todas as pessoas dispensáveis devem deixar Berlim. As minhas coisas pessoais e o arquivo militar devem ser levados para Obersalzberg [o ‘Ninho de Águia’, retiro de Hitler]. Comigo fica apenas o círculo mais restrito do meu estado-maior.” Este círculo só teria ordem para fugir a 30 de Abril, quando Hitler, já decidido a pôr fim à vida, redige as suas últimas ordens. Eram 8 horas. O seu estado-maior devia fugir do bunker em pequenas unidades e tentar juntar-se às poucas tropas alemãs que ainda combatiam, mas só depois de incinerarem os corpos de Adolf e Eva.

A ideia do suicídio

Apesar de Hitler sempre se ter recusado a sair de Berlim, os colaboradores que se encontravam com ele na cidade alemã mantinham a esperança de que o líder acabasse por ceder.

As tropas nazis tinham em carteira um plano de assentar nos Alpes bávaros o último bastião defensivo do regime, mas o ditador nem quis ouvir falar dessa opção. Confrontado com o aumento das brechas na frente alemã e tendo já sido obrigado a trocar os mapas das frentes oriental eocidental por mapas de Berlim e arredores nas reuniões com o seu estado-maior, Hitler aborda o tema do suicídio pela primeira vez num ataque de fúria contra os seus líderes militares – o enésimo de milhares. “Não posso continuar a comandar nestas condições”, gritou quando foi informado dos recuos sucessivos das unidades alemãs, empurradas pelos soviéticos.“A guerra está perdida! Mas, meus senhores, se acham que vou abandonar Berlim, estão muito enganados!Prefiro meter uma bala na cabeça!” Segundo os redactores do relatório para Estaline, mal foi proferida esta frase “gerou-se um caos indescritível! Muitos apressaram-se a beber uns goles de conhaque”. Hitler de seguida telefona a Goebbels e pede-lhe que se mude com mulher e os filhos para o bunker, pois estava tudo acabado. O suicídio passava à fase de planeamento.

Enforcamentos e casamentos

A 23 de Abril, dia em que a família Goebbels se muda para o bunker, Eva Braun, aproveitando o abrandamento dos bombardeamentos, pede a Heinz Linge que a acompanhe numa volta ao jardim por cima do bunker. Neste passeio, a companheira de Hitler admite a hipótese de suicídio, comentando com o futuro prisioneiro de Estaline “o desejo de morrer como esposa legítima deHitler”. O desejo seria realizado numa cerimónia cinco dias depois. Mas enquanto a sua namorada pensava em casar, Hitler pensava na forca.

Os relatos sobre o crescente número de berlinenses a pôr bandeiras brancas e vermelhas às janelas para serem vistas pelas tropas soviéticas assim que entrassem em Berlim, assim como sobre a multiplicação de deserções e de militares escondidos – refugiaram-se em casa, escondendo tudo o que os associasse aos nazis – levou a que Hitler enviasse uma divisão das SSpara os perseguir.“Dei ordens para que os culpados sejam mortos a tiro ou enforcados em lugares visíveis”, comunicou Goebbels. A divisão das SSacabou por prender um grupo de oficiais e soldados:foram enforcados na estação de Friedrichstrasse. “Ao peito foi-lhes pendurado um letreiro que dizia:‘Estou aqui pendurado porque não cumpri as ordens do Führer!’”

O cerco soviético a Berlim fecha-se de 24 para 25 de Abril, noite em que o derrotado, deprimido e débil Adolf dá ordens para que se queime toda a documentação sensível que ainda está em Berlim. O tema do suicídio volta à mesa das reuniões de Hitler. Ogeneral que defendia o Sul da cidade dá um tiro na cabeça quando percebe que não travou o avanço soviético. “Por fim , um general com coragem”, saúda Hitler.

O plano de suicídio

Nesta altura já o líder nazi tinha delineado a sua morte. Nos seus serões, que se arrastavam madrugada dentro, não falava de outra coisa. Um tiro?Veneno?Cortar as veias?Qual a melhor forma?Uma decisão difícil, portanto. “Na companhia de Fräulein Braun, vou matar-me diante do acesso ao bunker, no jardim da chancelaria do Reich. Não há outra saída. Traga gasolina para regar os nossos corpos e queimá-los. Em caso algum deverá deixar o meu cadáver cair nas mãos dos russos. Enviar-me-iam com prazer para Moscovo, onde me exporiam como no circo.”Opedido foi feito a Linge, que o respeitaria escrupulosamente. Martin Bormann, secretário pessoal deHitler, pede–lhe nesta altura que entre em contacto com as forças norte-americanas para tentar um entendimento com os Aliados, que avançavam vindos de Ocidente. “Já não tenho autoridade para isso. Isso vai ter de ser feito por outro, no meu lugar. Esta é inevitavelmente a conclusão a que tenho de chegar”, rematou o líder do partido nazi, agora um homem “completamente transtornado” e que mal se aguentava de pé sem se apoiar com as mãos.

Os combates já estavam entretanto nas ruas de Berlim, com os soviéticos a penetrar em cidade adentro graças aos túneis de metro, onde se encontrava grande parte da população berlinense refugiada. “Hitler perguntou se podia ser usado gás fulminante nos corredores de metro”, tal como foi feito aquando do levantamento de Varsóvia – no Verão de 1944 e que durou 63 dias –, tendo também equacionado mandar inundar estes túneis, apesar do número de civis que lá se encontravam. As ideias encontraram muita resistência dos oficiais alemães reunidos com Hitler e acabaram por não ser postas em prática:a primeira porque os oficiais responderam não ter gás fulminante, a segunda provavelmente por desobediência.

Com as tropas russas já a avançar por Berlim, a capitulação tornou-se uma certeza quando a 27 de Abril foi sabido que uma ofensiva alemã para tentar quebrar o cerco tinha sido neutralizada. Neste dia já os soviéticos dominavam os subúrbios e a periferia de Berlim, cidade reduzida a dois dias de mantimentos.

Já a uma distância relativamente curta do núcleo governativo de Berlim, os militares russos começaram a martelar o mesmo com os lança-mísseis Katyusha. A tomada do bunker estava iminente. A 28 de Abril foi comunicado a Hitler queos russos se encontravam perto da Wilhelmstrasse, a 1200/1300 metros da chancelaria do Reich, por baixo do qual se encontrava o refúgio. Estava na hora de cumprir e escrever os desejos finais.

Ainda a 28 de Abril, Adolf e Eva casam. “Saíram dos seus quartos de mão dada.”Hitler prendeu no casaco a insígnia de ouro do partido, a Cruz deFerro de primeira classe e a condecoração por ferimentos em combate na Grande Guerra.Eva Braun estava com um vestido azul-escuro de seda e uma capa cinzenta. Acerimónia não durou 10 minutos e a noite de núpcias foi passada com Hitler a ditar o testamento a uma das secretárias. A 29 de Abril, com disparos a caírem ininterruptamente no bunker, Hitler decide que vai morrer com um tiro na cabeça. Já Eva Braun tomará cianeto. Para evitar surpresas, ensaia-se o cianeto na cadela deHitler, Blondi:na noite de 29 para 30 de Abril, “a cadela foi envenenada na casa de banho”.

O último dia

Sem conseguir dormir há  dias, dadas as explosões incessantes, às 8h da manhã de 30 de Abril, Hitler redige então a ordem para que todos os que ainda estavam no bunker fujam depois de o incinerarem. Relembrou que em caso algum o seu corpo devia cair em mãos soviéticas. “Os olhos deHitler, que outrora irradiavam fogo, estavam extintos.”

Reuniu-se pela última vez com os colaboradores, “esboçou um gesto de despedida com o braço direito e deu meia volta”. Só ao início da tarde é que foram entregues no bunker dez latas com gasolina. Às 15h10 foi a vez de Eva Braun se despedir dos companheiros de refúgio. Magda Goebbels pediu-lhe para falar com o Führer uma última vez. Às 15h40, o casal Goebbels defende que ainda é possível tentar fugir de Berlim. “É irreversível!” No regresso aos aposentos, Hitler cruza-se com Linge. “Tenta avançar para ocidente, com um pequeno grupo”, recomenda-lhe. “Mas por quem havemos de avançar?”, questiona Linge. “Pelo homem que há-de vir!”, profetiza Hitler.

O casal Hitler fecha-se então na sala de trabalho do bunker. Passavam poucos minutos das 16h quando Linge, à porta da sala, declara:“Acho que acabou.” Entrou na sala e viu o seguinte quadro:“À esquerda, no sofá, estava Hitler, sentado. Estava morto. A seu lado, Eva Braun, também morta. Na têmpora esquerda de Hitler era visível uma pequena ferida de bala, do tamanho de uma pequena moeda. Duas gotas de sangue escorriam-lhe pela face.” Linge pegou em cobertores, embrulhou os corpos e estes foram incinerados à porta do bunker.

No dia seguinte foi a vez da família Goebbels. Primeiro Hilde, Holde, Helke, Heike e Heiner foram “suicidados”às 16h, com café envenenado. Só às 22h do mesmo dia é que Joseph eMagda tomariam o mesmo caminho. A 2 de Maio, Berlim rendia-se.

in: Jornal i, 30 Abril 2015

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