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Humberto Delgado. O general que queria ser o pacificador da família portuguesa

Fez na sexta-feira 50 anos que Humberto Delgado, o General sem Medo, foi morto. O seu corpo só seria descoberto em Abril e os assassinos só seriam parcialmente condenados dali a 16 anos. Perdeu as eleições de Junho de 1958 por actos “de revoltante maquiavelismo” que confirmavam que a oposição ao regime “só de sete em sete anos pode usufruir de um escasso período de 30 dias para viver”, e mal. Apesar de todos os riscos, recusou o silêncio e a complacência e prometeu “despedir” Salazar. A PIDE vingou-se a 13 de Fevereiro de 1965

“Excelência: estas pressões do tipo selvático sobre civis e militares estão criando no país uma onda de revolta, que me preocupa como candidato que pretendia ser o pacificador da família portuguesa, por evolução. Quem anda, como eu, no meio de tantas classes, e já viveu 52 anos, uns de paz, outros de agitação ou ‘guerra civil’, confessa que começa a sentir um ambiente, inevitável prelúdio de possibilidade de acções violentas.”

A 19 de Maio de 1958, Humberto Delgado escreveu a Craveiro Lopes, presidente em funções, a queixar–se das manobras do regime contra a sua candidatura a Presidente da República, único cargo com poderes para destituir Salazar. A candidatura foi apresentada publicamente dias antes, momento que ficou para a história pela promessa de demissão do presidente do Conselho em caso de vitória. “Obviamente, demito-o.” A resposta foi dada apesar de na noite anterior alguns dos seus apoiantes mais próximos terem defendido que não devia fazê-lo, de forma a não afastar eleitores mais moderados, conta Iva Delgado em “Meu Pai, o General sem Medo”. Mas Delgado não hesitou quando chegou a hora, provocando mesmo os jornalistas presentes no Chave d’Ouro: “É de lamentar que alguns jornais ou organizações de imprensa estrangeiras se representem por indivíduos residentes em Portugal, pois é do domínio público que até estes temem os poderes públicos tomando assim cuidado no que enviam para o estrangeiro a nosso respeito”, disse na intervenção inicial, antes de passar a palavra aos jornalistas. Logo de seguida, “o primeiro jornalista que se dirigiu ao candidato perguntou: ‘Se V. Ex.a for eleito, qual será a sua atitude para com o senhor presidente do Conselho?’ – ‘Demiti-lo’, respondeu com energia o general.” É desta forma que o “Diário de Lisboa” de 10 de Maio de 1958 dá conta do episódio.

As queixas que o candidato apresentou a Craveiro Lopes foram muitas. É que mesmo tendo consciência daquilo em que se estava a meter quando avançou contra o regime, foi surpreendido pela intensidade da repressão: “Quando de forma activa, mas legal, me resolvi a arriscar tudo que Vossa Excelência e o país conhecem, para tentar acabar pelas vias constitucionais o regime de barbarismo em que vivemos, não supunha ter-se ido tão longe.” O general queixava-se da ocultação na imprensa de intervenções e fotografias suas, de ter menos de 30 dias para campanha, dos “espancamentos” para “criar o terror” ou dos tiros sobre a “multidão que me aclamava” em Lisboa… “Excelência, em que liberdade estou vivendo?Quem sou eu neste país? Um candidato a sucessor de Sua Excelência ou um possível criminoso?” Mesmo ciente de que de nada serviriam as suas queixas, Delgado recusava-se a ficar calado: “Não ficarei na história do país como um general que não avisou outro general elevado à Presidência da República do estado de espírito danação e das violências do governo.”

Regressando ao Chave d’Ouro, o general anunciou nesse dia o seu programa, referindo desde logo ser “um erro pensar que governar é obra de um só homem”. Nas promessas estavam eleições livres, a revisão da Lei de Imprensa, “a revogação de todos os decretos de excepção e restabelecer o direito de reunião”. Mas as eleições deram a vitória a Américo Tomás, com 75% dos votos oficiais. Na imprensa portuguesa, só boas notícias sobre as eleições: decorreram de forma ordeira e com uma afluência “raras vezes” vista, havendo ainda lugar para a história da “criança de nove anos” que entregou um ramo de flores a Salazar depois de este votar. Um acto que “o presidente do Conselho” agradeceu “afagando os cabelos do pequeno Vítor Manuel” -ironicamente, o ramo era de cravos vermelhos. Ainda sobre o decurso das eleições, o “Diário de Lisboa” conta também que, “no que respeita a senhoras, deve dizer-se que o desfile de eleitores primou pela elegância dos conjuntos de alta-costura e pela diversidade de perfumes de categoria, embora houvesse também entre elas mulheres do povo, que envergavam roupas a cheirar a arca”.

Mas a tal ordem em que decorreram as eleições foi vista de forma diferente pelo “New York Times”:“Há lei e ordem num cemitério”, escreve a 10 de Junho. “O general Delgado, é claro, perdeu, por uma larga margem de votos a favor do candidato escolhido por Oliveira Salazar […] Ele não terá qualquer poder e o Dr. Salazar podia da mesma forma ter escolhido o polícia de trânsito mais à mão.” No dia das eleições, Vieira de Almeida, que dirigiu a campanha de Delgado, foi preso. Já o general foi logo destituído de director-geral da Aeronáutica, passando pouco depois ao exílio.

A associação do seu nome à captura do Santa Maria, mas sobretudo ao assalto ao Quartel de Beja, em 1961, acabaram por levar à decisão de o anular. Tal como Delgado na carta ao Presidente, também o “NYT” viu na candidatura de 1958 do General sem Medo o prenúncio de que algo começava a mudar na sociedade portuguesa: “Esta eleição pode vir a ser o primeiro passo hesitante do povo português a caminho da liberdade.”

in: Jornal i, 14 Fevereiro 2015

Ver em página: Delgado1, Delgado2

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