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Europa. Alemanha recebeu quase um quarto dos apoios à banca

Ajudas públicas totalizaram 592 mil milhões de euros entre 2008 e 2012

Entre 2008 e 2012, o total de ajudas públicas concedidas à banca europeia ascendeu a 592 mil milhões de euros. Deste total, 413 mil milhões serviram para regularizar a situação deficitária destas instituições, através da recapitalização das mesmas. Os restantes 179 mil milhões exigidos aos contribuintes – mais do que o PIB português, por exemplo – serviram para sanear activos tóxicos ou potencialmente tóxicos em que essa mesma banca investiu. Os dados são do State Aid Scoreboard – 2013, da Comissão Europeia, que ainda não avançou com valores para o pós-2012.

Os 592 mil milhões de euros dizem, assim, respeito apenas a gastos de 17 dos 27 países europeus analisados. E há um deles que dizima a concorrência: a Alemanha. O Estado alemão aplicou, neste período, 144 mil milhões de euros de dinheiro público em apoios ao seu sector bancário – 24,3% do total gasto por todos os países que avançaram com apoios estatais à banca. O mesmo é dizer que em cada quatro euros de apoio público à banca, um euro foi gasto na Alemanha e os outros três nos restantes 16 países considerados. Portugal gastou, neste período, 10 mil milhões de euros em apoios à banca, segundo o relatório.

Apesar do elevado valor usado pelos governos para apoiar a banca nos cinco anos considerados por Bruxelas, a verdade é que nem todos os 27 Estados- -membros considerados nesta tabela da CE cederam à tentação de inundar o sector bancário com milhares de milhões de euros. A Bulgária, República Checa, Estónia, Lituânia, Hungria, Malta, Polónia, Roménia, Eslováquia e Finlândia optaram por ficar de fora deste euromilhões bancário, por exemplo.

Num cálculo simples, e ainda com referência aos mesmos quatro euros, temos uma média de 19 cêntimos gastos por país na sua banca por cada euro gasto por Berlim no seu sector financeiro – isto quando nesta mesma Europa, por exemplo, é proibido injectar dinheiro público em empresas como a TAP, por actuar em mercado aberto e assim evitar “concorrência desleal”. Já no sector bancário, o facto de um país ter capacidade de injectar mais 17% que o segundo Estado que mais apoiou os seus bancos ou mais 1340% que Portugal, por exemplo, não levanta problemas.

Quanto mais força, mais fortes Alargando a análise aos três países que mais concederam ajudas ao sector bancário, então a distribuição destes apoios fica ainda mais desequilibrada. Além dos 144 mil milhões de euros de Berlim, Londres aplicou 123 mil milhões de euros na sua banca e Espanha 88 mil milhões. Só estes três países foram, assim, responsáveis por 60% do total de apoios concedidos ao sector financeiro com a garantia dos contribuintes europeus entre 2008 e 2012, pelo que não será coincidência que os bancos destes mesmos países acabem por sair mais reforçados da crise do que a banca que passou por dificuldades nos restantes países que tiveram de avançar com apoios estatais.

Em termos relativos face ao produto interno bruto, o peso dos apoios dados à banca é, evidentemente, diferente. O gigante alemão – o país que mais tem beneficiado com a crise, estando a bater recordes de baixo desemprego e a reforçar o seu poder de compra face à restante Europa [ver texto ao lado] – fica abaixo das contas para a Irlanda, Grécia e até Portugal, com os apoios nestes seis anos a chegarem aos 40%, 19% e 6% do PIB, respectivamente – no caso português, as contas ainda não reflectem o apoio estatal ao Novo Banco, já que foram apuradas apenas até 2012. Ainda assim, a Alemanha superou a média europeia de apoios à banca em termos de PIB: Berlim aplicou o equivalente a 5,5% do seu PIB de 2012 no sector bancário, quando a média europeia foi de 4,6%. Além do caso alemão, inglês e espanhol, há ainda que salientar os montantes relevantes dados pela Bélgica, França e Holanda às suas instituições financeiras, com estes países a aplicarem 40, 26 e 24 mil milhões, respectivamente, entre 2008 e 2012.

Além dos apoios à banca, em termos gerais, o governo alemão foi igualmente o que mais “notificações de apoios estatais” fez chegar a Bruxelas desde o início da viragem do século. Entre 2000 e 2013, os alemães apresentaram 810 processos distintos de apoio financeiro às suas empresas – 17% dos 4765 destes processos registados na Europa. O segundo país que mais apoios concedeu foi a Itália, com 481 – menos 41% que os alemães.

in: Jornal i, 10 Dezembro 2014

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