Saltar para o conteúdo

Prejuízos das empresas de transporte público agravam-se 40%

Transportes acumulam prejuízos de 171 milhões até Março, elevando perdas totais do SEE a 395 milhões

No final de 2011, ano da entrada da troika em Portugal, o sector empresarial do Estado (SEE) acumulava 28,4 mil milhões de euros em endividamento. Passado o programa de ajustamento, a dívida do SEE totalizava, no final do primeiro trimestre deste ano, 32 mil milhões de euros, isto apesar dos cortes em salários, pessoal e na oferta ao público da maioria das empresas incluídas no sector empresarial público. Deste endividamento, 19 mil milhões de euros já são contabilizados na dívida pública portuguesa – são dívida as empresas públicas reclassificadas -, o que significa que sobram 12,8 mil milhões de euros de dívida do SEE não incluídos nas contas públicas, segundo dados da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF).

O relatório sobre o sector empresarial mostra que este conjunto de empresas detidas pelos contribuintes acumulou quase 395 milhões de euros de prejuízos, valor que representa uma melhoria de 2,8% face aos resultados do primeiro trimestre de 2013 reexpressos. Analisando em pormenor os universos comparáveis, como o grupo de empresas de transportes, que permaneceu inalterado de um ano para o outro, nota-se contudo uma deterioração dos resultados líquidos. Se nos primeiros três meses do ano passado as empresas CP, metros de Lisboa e Porto, Carris ou STCP, perderam 123,5 milhões de euros, já entre Janeiro e Março deste ano o valor saltou para os 171 milhões de euros – quase 2 milhões de euros de perdas por cada dia do trimestre.

Sobre o agravamento das contas do sector dos transportes, mesmo depois dos significativos aumentos tarifários em 2011 e 2012, a DGTF reflecte que “o agravamento da rubrica de variações de justo valor [swaps] em cerca de 76 milhões […] conjugado com a melhoria dos resultados financeiros, em 26,6 milhões, gera uma diminuição do resultado líquido de 47,4 milhões face ao primeiro trimestre de 2013”. Nos resultados financeiros os transportes conseguiram uma melhoria de 26,6 milhões, perdendo apenas 93,5 milhões, ganhos conseguidos à custa do cancelamento dos swaps.

Este agravamento de 38,4% no sector dos transportes só não fez disparar os prejuízos do SEE no primeiro trimestre graças ao agressivo aperto dos gastos em curso no sector da saúde e das infra- -estruturas. Estas duas áreas reduziram as despesas 32,7% e 4,7%, respectivamente, desde o primeiro trimestre de 2013. No caso das infra-estruturas, a redução dos custos da Estradas de Portugal teve, contudo, um preço: o recuo deve-se ao decréscimo de 104 milhões de euros no volume de negócios da empresa no trimestre, devido “à diminuição da actividade de construção da Rede Rodoviária Nacional”. Assim, diz a DGTF, “excluindo o efeito do investimento da EP […] a redução dos gastos operacionais no SEE seria de 3,8%, com especial contributo do sector da saúde que, em valor absoluto, reduziu os seus gastos operacionais em 51,5 milhões de euros”.

ganhos à custa dos trabalhadores O relatório sobre as contas do SEE no primeiro trimestre evidencia ainda uma melhoria global nos resultados operacionais do conjunto das empresas públicas, melhoria quase exclusivamente conseguida à custa dos cortes salariais e redução de efectivos via rescisões “amigáveis” postas em prática pelo governo na era da troika. Se em 2010 as empresas públicas tinham custos com pessoal de 112 milhões de euros no primeiro trimestre, este ano não gastaram sequer 77 milhões de euros nesta rubrica. Ou seja, em quatro anos os gastos operacionais caíram 46,2 milhões de euros, de 228,7 para 182,5 milhões, 40,2 milhões (87%) dos quais foram retirados directamente aos trabalhadores.

E para onde foi este dinheiro se até as dívidas das empresas continuaram a engordar? Para juros pagos à banca.

Segundo a DGTF, as medidas do governo levaram mais de 40 milhões de euros em custos com pessoal entre o primeiro trimestre de 2010 e o de 2014. Porém, no mesmo período, os resultados financeiros das empresas públicas explodiram de 100 milhões de euros para 261 milhões de euros – mais 158%. Analisando apenas a evolução de 2013 para 2014, nota-se que a tendência se mantém, já que houve um agravamento de 1,2% nos resultados financeiros do SEE. Estes resultados só não estão a agravar-se mais porque muitas empresas públicas reclassificadas têm trocado empréstimos da banca comercial por empréstimos do Estado, beneficiando desta forma de condições mais favoráveis. E alguns desses empréstimos estão ser convertidos em capital das empresas, permitindo reduzir a dívida.

No mesmo sentido, também o capital próprio do SEE encontra-se em terreno positivo graças às várias dotações de capital feitas pelo Estado nas empresas de infra-estruturas e saúde.

in: Jornal i, 21 Agosto 2014

Anúncios

Comentar

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: