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Produtividade. Cada trabalhador vale mais 30% em exportações

De ministros a gestores, todos querem os louros pela subida das exportações. Mas o crédito é dos trabalhadores, que fazem cada vez mais com menos (salário e recursos)

Puxar para si os louros da subida das exportações – o “porta-aviões da recuperação” – tem sido um must político – “é um feito extraordinário”. No meio de tantas opções que correram mal, a concorrência por dar a cara por uma coisa que corre bem – e que já corria antes de 2011 – é intensa. Então e qual o papel dos trabalhadores? Aí o discurso mantém-se: “Os portugueses não são produtivos” repete o governo, num discurso que faz depois escola em Paris, Berlim ou Finlândia.

Entre 2006 e 2012, segundo números do Instituto Nacional de Estatística, a economia portuguesa mudou profundamente: menos empresas, menos emprego, cortes salariais, aumentos de impostos e do custo de vida, empobrecimento… Com a chegada da troika em 2011 e da maioria PSD/CDS, as promessas foram muitas, quase nenhuma concretizada.

O tecido empresarial foi sofrendo com as opções tomadas e o “ir além da troika”, e a economia portuguesa chegou ao final de 2012 com menos 31 700 empresas que as existentes em 2006. O desaparecimento destas arrastou para o desemprego 84 600 pessoas. As 1,11 milhões de sociedades que sobreviveram a este período, continuaram no entanto a empregar em média 3,3 trabalhadores cada. A realidade empresarial que aguenta a economia portuguesa está assim bem longe daquela a quem o poder político dedica mais atenção: as empresas do principal índice da bolsa, o PSI20, e sobre isto basta ver quem foi chamado pelo executivo para reformar o IRC – António Lobo Xavier, alto quadro da Sonae e dirigente do CDS.

cada Trabalhador dá mais 3000€ É das empresas de reduzida dimensão e dos seus trabalhadores que tem vindo não só o pilar que vai impedindo um desemprego mais alto mas também o único indicador que correu bem ao longo do programa de ajustamento: a subida das exportações. Se em 2006 as 1,14 milhões de empresas eram responsáveis por 35,6 mil milhões de euros em vendas ao exterior. Em 2012 as 1,11 milhões de sociedades que sobreviveram à crise já conseguiam exportar 45,3 mil milhões de euros. Em termos médios significa que cada empresa exportava 31,1 mil euros por ano em 2006 e que até 2012 essa média foi elevada para os 40,8 mil euros. Ao mesmo tempo, foi um período de cortes salariais, despedimentos e desinvestimento e corte agressivo de despesas, que obrigou cada trabalhador a fazer mais com menos recursos.

Assumindo os 3,81 milhões de trabalhadores existentes nestas empresas em 2006 e os 3,73 milhões em 2012, e avaliando o respectivo peso nas exportações, os dados são claros: um trabalhador em 2006 rendia à sua empresa 9,3 mil euros por ano em exportações. De então até 2012, o aumento da produtividade foi evidente: cada trabalhador é agora responsável por 12,1 mil euros de exportações. Um salto de 30% na produtividade de cada trabalhador em seis anos.

e só gasta mais 320€ Já nas importações, entre 2006 e 2012 a média de compras ao exterior feitas por cada empresa em Portugal subiu ligeiramente. Se em 2006 a média apontava para a importação de 49,3 mil euros anuais por sociedade, até 2012 este valor saltou para os 50,5 mil euros, um crescimento de 2,7%.

Já se olharmos globalmente para os valores das importações feitas pelas empresas, houve um recuo. Ou seja, as 1,14 milhões de empresas a operar em Portugal importavam 56,3 mil milhões de euros em 2006. O valor passou para 56,23 mil milhões de euros em 2012, mas divididos por menos empresas – 1,11 milhões.

Olhe-se por que ângulo olhar, certo é que a evolução das importações foi bastante inferior ao crescimento das exportações entre 2006 e 2012, o que automaticamente resultou na melhoria do saldo comercial médio das empresas portuguesas. Se em 2006 as contas mostravam um défice médio de 18 mil euros, até 2012 este foi cortado quase em metade, tendo caído para 9,8 mil euros. O corte nas importações por empresa foi resultado directo das quebras de investimento e dos cortes a direito nas despesas feitas pela grande maioria das empresas. E se estas sociedades ficaram com menos trabalhadores, investiram menos e compraram menos recursos, as suas equipas ainda assim exportaram mais.

A evolução do contributo de um trabalhador para as exportações – crescimento de 30% nas vendas que consegue fazer ao exterior – contrasta com a evolução registada com os recursos importados que aquele trabalhador utiliza para produzir: as importações por trabalhador subiram apenas 2,2%, com cada colaborador a utilizar mais 317 euros em importações para dar à empresa mais 2800 euros em exportações.

Contas feitas, também o saldo comercial medido por trabalhador caiu a pique entre 2006 e 2012. Se em 2006 as empresas tinham um défice comercial de 5,4 mil euros por trabalhador, em 2012 este valor já estava nos 2,9 mil euros, uma melhoria de 46%. Por fim, é de salientar que no período analisado os gestores das cotadas portuguesas passaram de receber o equivalente a 25,5 salários médios dos seus colaboradores para o equivalente a 44 salários – isto quando grande parte dos trabalhadores viu o salário reduzido.

in: Jornal i, 14 Abril 2014

Dados adicionais:

EMPRESAS 2006 2012
PORTUGAL 1143648 1112000 -2,8%
NORTE 362816 360482 -0,64%
CENTRO 251684 241272 -4,14%
LX 341340 325541 -4,63%
ALENT 82487 79747 -3,32%
ALGA 59163 58333 -1,40%
RAA 25073 25633 2,23%
RAM 21085 20992 -0,44%
EXPORTS/EMPRESA 2006 2012
PORTUGAL    31.163,43    40.758,09 30,8%
NORTE    36.519,89    46.570,98 27,52%
CENTRO    26.422,02    35.623,69 34,83%
LX    28.704,52    46.866,60 63,27%
ALENT    22.961,19    34.408,82 49,86%
ALGA      1.571,93      2.434,30 54,86%
RAA      1.276,27      4.291,34 236,24%
RAM      1.565,09      6.859,76 338,30%
EXPORTS/TRAB 2006 2012
PORTUGAL      9.329,99    12.133,57 30,0%
NORTE    10.483,17    13.704,17 30,73%
CENTRO      9.199,91    12.356,24 34,31%
LX      7.429,84    11.548,67 55,44%
ALENT      9.146,44    13.610,17 48,80%
ALGA          596,47          958,84 60,75%
RAA          472,48      1.586,73 235,83%
RAM          394,13      1.931,05 389,95%

 

 

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