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Telecomunicações. Sector rico mas ainda com muito por onde crescer

in: Maxim Angola, Setembro 2013

O mercado angolano de telecomunicações tem crescido fortemente desde o início do século XXI, multiplicando mais de dez vezes o total de utilizadores de telemóvel, com os operadores a aproveitarem da melhor forma as falhas de uma rede fixa curta e pouco satisfatória. Além disso, e nos anos mais recentes, Angola passou a ter duas ofertas fortes de televisão paga, uma delas que inclui os conteúdos desportivos portugueses como principal atractivo. Com uma das mais altas previsões de crescimento em todo o Continente, Angola tem ainda muito espaço por aproveitar no sector das telecomunicações.

A Unitel, assim como a Zap, duas das principais empresas do sector das telecomunicações em Angola, são detidas por Isabel dos Santos, filha do presidente de Angola, que se associou às maiores empresas de Portugal desta área para reforçar as ofertas móveis e de televisão que propõe ao mercado.

Embora a Unitel tenha conseguido lucros de 95 mil milhões de kwanzas, a Zap ainda está longe de oferecer esse tipo de retorno a Isabel dos Santos, não só porque continua em fase de expansão e de conquista de mercado à sul-africana Multichoice, como porque os pacotes de televisão paga estão ainda longe do rendimento médio dos angolanos, já que tanto na Zap como na Multichoice, os preços rondam dos 15 dólares aos 60 dólares mensais (entre 1 400 e pouco menos de 6 000 kwanzas).

Ainda dominado pela Multichoice, a entrada em 2010 da Zap TV no mercado de televisão por subscrição angolano inaugurou uma nova fase da vida da operadora líder, já que a TV Cabo Angola, da Visabeira e da Angola Telecom, até então a única rival da Multichoice, nunca foi exactamente uma ameaça forte. Mas este é um mercado que ainda está longe de amadurecido, ao contrário do que já vai acontecendo nos telemóveis.

Números avançados no final do ano passado apontam que menos de um milhão de lares angolanos têm actualmente televisão, um valor já por si baixo e que condena as operadoras  a lutar por um mercado reduzido. Não fosse isto dificuldade suficiente, é de salientar também que serão apenas perto de 400 mil os lares que subscrevem serviços de televisão paga, algo que reduz ainda mais o mercado. Os preços cobrados pelas operadoras também não facilitam a adesão de mais angolanos a estes serviços – cerca de metade do país continua a viver com menos de dois dólares por dia.

Ainda assim, a chegada da Zap TV deu um valente impulso à televisão: Ainda em 2010 assegurou cerca de 40 mil clientes, parte dos quais roubados à Multichoice, aos quais juntou outros 60 mil até ao final de 2011.

Detida em 30% pela portuguesa Zon e em 70% por Isabel dos Santos, filha do presidente angolano, o segredo para a forte entrada da Zap no mercado, segundo a “Informa Telecom & Media”, é a oferta de conteúdos desportivos portugueses de forma exclusiva, sendo a única opção para todos aqueles que quiserem seguir o futebol português, por exemplo. Entre estes conteúdos figura também a recente “Benfica TV”.

Apesar da forte entrada no mercado, certo é que a Multichoice continua a liderar no total de clientes em relação à Zap, ainda que não existam dados recentes para nenhuma das empresas. A “Informa”, em Dezembro de 2012, calculou a quota de mercado da Multichoice em 63%. De todas as formas, a Zap fechou as contas do ano passado com um total de 105,4 milhões de euros em receitas (13,4 mil milhões de kwanzas).

Estes valores da Zap são, todavia, reduzidos face ao que já se consegue obter no mercado angolano de comunicações móveis. Já com quase 13 milhões de angolanos com telemóvel, em comparação com 1,1 milhões em 2001, é nas comunicações móveis que encontramos um dos mercados mais proveitosos para os operadores de telecomunicações e seus accionistas. Com apenas dois operadores para uma população que ronda os 20 milhões de habitantes, o total de clientes com telemóvel tem crescido a um ritmo de 3% por trimestre e 12% anualmente em Angola, isto apesar da oferta existente ser das mais caras de África. Também neste mercado, os preços são um problema.

Segundo a “Dow Jones”, a receita média mensal por cliente conseguida pelos operadores móveis em Angola, a Unitel e a Movicel, chega aos 20 dólares, valor acima dos dez dólares ou menos em muitos países da região, como por exemplo Nigéria, Quénia ou Tanzânia, e até superior aos 16 dólares de receita média mensal por cliente na África do Sul. Esta diferença é o que permite, por exemplo, que a Unitel tenha fechado o exercício de 2012 com 1,59 mil milhões de euros em receitas (192 mil milhões de kwanzas) e quase 750 milhões de euros (95 mil milhões de kwanzas) em lucros antes de impostos.

A grande diferença do mercado angolano de telemóveis para o dos seus países vizinhos está no número de empresas que actuam no mercado. Se em Angola existem apenas duas, nos países africanos a média são 3,8 operadores por mercado: a Namíbia, Senegal e Zâmbia contam com três, Camarões, Quénia e Ruanda têm quatro, o Gana conta com seis e a Nigéria chega mesmo aos dez operadores móveis. O efeito da concorrência é aliás notório nestes países: desde 2001, a receita média por cliente caiu 80% segundo a edição de 2012 do “Sub-saharan African Mobile Observatory”, publicado pela “Deloitte”.

O mesmo relatório da “Deloitte” aponta que se em Angola o preço médio de um plano pré-pago ronda os 19 dólares mensais, quando no Norte de África o valor médio de um plano idêntico é de 11 dólares, na África Subsariana de 15 dólares e se considerarmos toda a África a média é de 14,5 dólares.

Em meados do ano passado, data dos últimos números comparáveis, a Unitel, detida por Isabel dos Santos e em 25% pela Portugal Telecom, contava com 68,7% de quota de mercado em Angola, segundo dados da “BMI Industry Insights”, citados pela “Dow Jones”, continuando a ganhar distância da Movicel, algo comum desde o nascimento da Unitel em 2001. Recentemente a Movicel lançou a aposta numa rede “Long Term Evolution” (internet móvel ultrarápida), inicialmente em duas províncias, incluindo a capital, contando com esta aposta para angariar um milhão de clientes a breve-prazo, de forma a encurtar distâncias para a Unitel.

Já com uma forte presença em Angola, o mercado das comunicações móveis ainda tem uma última fronteira para conquistar: precisamente o acesso à internet por dispositivos móveis, já que até ao momento apenas 6,6% dos acessos à internet são realizados pelo telemóvel em Angola, valor que compara com os mais de 55% registados no Zimbabué e Nigéria. O mercado da banda larga móvel em África deverá multiplicar por quatro até 2016, segundo a “Deloitte” e, em Angola, a oportunidade está lá para ser agarrada: os telefones fixos são uma quase raridade no país, e mesmo os computadores pessoais estão longe dos níveis de outros países.

O rápido sucesso das operadoras de comunicações móveis deveu-se muito ao facto dos telefones fixos serem em número bastante reduzido no país, sendo que em 2011 contavam-se apenas cerca de 300 mil linhas em funcionamento em Angola. Os anos da guerra civil destruíram grande parte da infraestrutura das comunicações fixas do país e, mesmo depois da paz, o serviço nunca foi inteiramente reposto, apesar dos elevados preços. Com o rápido crescimento do mercado móvel, a rede fixa pode já ter ficado definitivamente para trás.

Além disso, num outro aspecto que poderá ajudar as operadoras móveis a apostarem forte no acesso à internet móvel, também o total de computadores no país é bastante limitado. Segundo a “Springboard Research”, oficialmente compram-se cerca de 80/90 mil computadores em Angola por ano, tendo o país uma base instalada a rondar os 400 mil computadores.

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