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Défice externo. A “pseudovitória” que passa factura elevada a todos

A melhoria das contas externas, sempre olhada pelo governo pelo lado das exportações, esconde e resulta de alguns fantasmas no armário que estão a passar factura a todos os portugueses. Em 2012, segundo o Instituto Nacional de Estatística, Portugal fechou os negócios com o exterior com um saldo negativo de 10,6 mil milhões de euros, valor distante do “prejuízo” de 16,3 mil milhões registado em 2011. A melhoria chegou por duas vias, com mais 5,8% de exportações – mais 2,47 mil milhões vendidos – e menos 5,4% de importações – menos 3,22 mil milhões comprados.

É contudo preciso olhar para as variações com cautela, já que não só resultam de situações temporárias como trazem uma factura elevada para o país. Sobretudo pela via das importações, de onde veio 57% da melhoria.

A quebra nas compras ao exterior resultou acima de tudo da quebra do emprego e do rendimento disponível – outra forma de dizer empobrecimento –, assim como do aumento do custo de vida no país, que levaram a cortes abruptos no consumo. Esta quebra abrupta no consumo, por seu turno, está a passar uma alta factura ao tecido empresarial, ao emprego e a todos os portugueses, através de mais impostos e de cortes em serviços básicos, como educação, saúde ou protecção social.

Automóveis: 52% do corte  Os  3,22 mil milhões de euros que Portugal importou menos ao longo do ano passado vieram de dois dos sectores que mais emprego destruíram ao longo de 2012, fruto da falta de consumo.

Só no sector automóvel as importações caíram 1,67 mil milhões de euros de 2011 para 2012 – de 6 mil milhões para 4,3 mil milhões –, sendo este negócio responsável por 52% da quebra das importações portuguesas. Em resultado, perto de 2700 empresas do sector fecharam no ano passado, lançando para o desemprego 23 mil pessoas, segundo a Associação Automóvel de Portugal. Considerando que entre Janeiro e Setembro, os dados mais recentes do INE, Portugal perdeu 100 mil empregos em 2012, o sector automóvel terá tido um peso de 23% nessa sangria. Além do preço financeiro e social do desemprego, é de salientar outro reverso da medalha desta queda na venda de automóveis:o governo encaixou menos 42% de receita com o imposto sobre veículos, uma quebra de 300 milhões de euros, a que se junta uma fatia significativa da quebra no IVA, impossível de desagregar. O custo da queda das importações, contudo, não fica por aqui.

Outro sector que ajudou a baixar a factura das importações foi a construção. Se a compra de automóveis cortou 1,67 mil milhões, outra fatia de mil milhões veio da quebra na compra de produtos de pedra, gesso, cimento, químicos, madeira, carvão, borracha, cartão, ferro fundido e alumínio, resultado da quebra das actividades da construção. O sector em Novembro era já responsável por mais de 16% dos desempregados do país, tendo sido o grande motor do crescimento desta taxa. Oaumento do desemprego em Portugal em 2012 levou ao aumento da despesa com estes subsídios em 500 milhões de euros, levando ainda a uma quebra de 700 milhões nas contribuições. Apesar de não ser possível desagregar a responsabilidade do sector automóvel e da construção nestas evoluções, não será de estranhar que tenha sido determinante, dado o peso das actividades na evolução do desemprego ao longo do ano.

in: Jornal i, 12 Fevereiro 2013

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