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TP425. Os 35 anos da maior tragédia da aviação nacional

Às 21h48:36 de 19 de Novembro de 1977, 131 das 164 pessoas a bordo do voo TP425, uma ligação Bruxelas-Lisboa-Funchal num Boeing 727-282 da TAP, perderam a vida no único acidente da companhia aérea portuguesa com vítimas mortais.

Aconteceu na terceira tentativa de aterragem no Funchal, quando o TP425 falhou o início da pista por 628 metros, tocando no solo a uma velocidade 19 nós acima da de referência, não conseguindo imobilizar-se antes do final da pista – então com apenas 1540 metros utilizáveis. “A aeronave depois da saída da pista (…) embateu numa ponte de pedra situada 28 metros abaixo da pista e aproximadamente à distância de 118 metros da extremidade daquela. A secção de cauda ficou suspensa sobre a ponte, tendo a asa direita, com o respectivo trem, sido destacada da fuselagem, assim como os 3 reactores, ficando todo este conjunto a montante daquela ponte. A parte restante da fuselagem, com a asa esquerda, prosseguiu a sua trajectória indo cair numa praia rochosa, junto ao mar, 14 metros abaixo do nível da ponte”, descreve o relatório do acidente elaborado pela Direcção-Geral da Aeronáutica Civil com o apoio da National Transportation Safety Board e também da Boeing.

As más condições meteorológicas e de visibilidade, a condição da pista, o surgimento de vento pela traseira ou a hidroplanagem serão os factores que se terão conjugado, provocando o acidente.

“Eu julgo se der uma espera talvez consiga aterrar.” “Não consigo, só tenho combustível para mais uma aproximação.” Esta foi uma das últimas comunicações entre a torre e o comandante João Costa. Ao final de um dia intenso de trabalho – Lisboa para Bruxelas; Bruxelas para Lisboa e Lisboa para o Funchal –, e já com 14 horas de trabalho consecutivo, a alternativa às más condições na Madeira era um desvio de 400 quilómetros até Las Palmas. “TP425 para informação agora tenho vento calmo na 24, vai tentar?” “OK estou na final vou aterrar.” “OK, está calmo autorizado a aterrar.”

“Antes da primeira tentativa de aterragem foi uma viagem normal, sem grande turbulência. Mas depois da primeira tentativa de aterrar a coisa ficou bastante complicada, as pessoas vomitavam muito, os assistentes de bordo ainda deram os sacos mas a partir de certa altura cada um ficou entregue a si próprio.” O relato é de Torcato Magalhães, um dos sobreviventes, que explicou à RTP os últimos momentos antes do acidente. Já segundo o descritivo presente no relatório do acidente, e depois da última troca de mensagens entre avião e torre, “passados alguns momentos o telefone do Funchal para Lisboa toca com insistência, Lisboa ouve mal, mas o Funchal ainda diz que o TP425 se espetou”.

Seguiram-se momentos de pânico. “Após o ensurdecedor ruído, o avião despenhou-se e elevaram-se fortes labaredas. Mais tarde veio a saber-se que o aparelho embatera na ponte (…) tendo aí ficado preso do reactor para trás. Com o embate, parte da fuselagem foi parar à praia, tendo alguns passageiros e bagagem sido projectados (…) Entretanto, de dentro do resto da fuselagem caída na praia elevavam-se as labaredas e gritos de socorro, perante testemunhas impotentes para prestar auxílio”, relata o “Diário de Lisboa” de 21 de Novembro de 1977.

O relatório oficial dá como causa provável do acidente as condições meteorológicas “muito desfavoráveis” na aterragem, possível hidroplanagem, “velocidade acima da referência” e uma aproximação demasiado longa, abordagem à qual a TAP discordou num relatório interno, onde culpa sobretudo as “acumulações de borracha” e as más condições da pista, que não permitiam o escoamento das chuvas. Problemas que apesar de surgirem elencados no relatório oficial – “a superfície da pista apresentava deformações que, nalgumas zonas, não permitiam o normal escoamento transversal das águas”; “foi verificada a existência de depósitos de borracha, entre ligeiros e espessos” – não são apontados como causas.

Sobreviveram ao acidente 33 pessoas, duas das quais tripulantes da TAP. Na altura a companhia assegurou os tratamentos e pagou indemnizações entre 125 e 1200 contos, consoante o grau de invalidez, e quem recusou só em 2006 viu o processo em tribunal resolvido. É de notar ainda que segundo o Relatório e Contas da TAP de 1977, de meados de 1978, a transportadora acabou por ganhar 193,4 mil contos com o acidente, entre indemnização recebida da seguradora e o valor contabilístico do avião.

Em consequência do acidente, a ampliação da pista do aeroporto da Madeira avançou finalmente e a TAP deixou de voar com a versão 200 do B727 para o Funchal, passando a voar só com a versão 100, cinco metros mais curto.

in: Jornal i, 19 Novembro 2012

Ver artigo em página: Parte 1; Parte 2

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