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Alemanha em febre pré-eleitoral. Keep calm e não matem o euro com palavras

As eleições legislativas na Alemanha estão a pouco mais de um ano de distância, e se em meados de Julho a chanceler alemã, Angela Merkel, transformou o acto num sufrágio à política que tem seguido durante a crise do euro – “no próximo ano iremos votar para saber onde está a Europa e o que queremos da Europa” –, o presidente do SPD apresentou agora a sua alternativa, ao defender um referendo sobre as obrigações europeias.

“A política europeia do governo de centro-direita liderado por Angela Merkel para salvar o euro fracassou”, sentenciou Sigmar Gabriel, dos sociais-democratas alemães, em entrevista ao “Berliner Zeitung”. Na mesma entrevista, Gabriel defendeu que se proceda rapidamente a uma análise às alterações que é necessário fazer à Constituição alemã para que as obrigações europeias possam avançar e, seguidamente, que se pergunte aos alemães através de referendo se as aceitam. O SPD mostra-se assim favorável a uma “responsabilidade partilhada” pela dívida soberana dos países do euro, através da emissão de dívida para cada país, mas garantida por todos. Gabriel recuperou a ideia defendida recentemente pelo chamado grupo de “cinco sábios”, que inclui dois actuais conselheiros do governo alemão, um filósofo e outro economista, e ainda um ex-ministro da Cultura, todos convidados a ajudar na preparação do programa eleitoral do SPD para as legislativas de Setembro de 2013. A eventual aprovação das obrigações europeias pela Alemanha, salientou, viria a par de um rigoroso controlo orçamental para todos os países.

O actual presidente do SPD, Sigmar Gabriel, é apenas um dos candidatos que o maior partido da oposição poderá vir a apresentar nas eleições, sendo apontado o líder parlamentar e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, como aquele que tem melhores condições de enfrentar Merkel. Também Peer Steinbrueck, ex-ministro das Finanças, está na corrida. A eleição do candidato do SPD ocorrerá ainda este ano, no congresso nacional do partido.

Mas não é só a nível nacional que a Alemanha está a entrar em registo pré-eleitoral. Alexander Dobrindt e Markus Soeder, secretário-geral e líder da CSU, respectivamente, lançaram duras críticas à Grécia e a Mario Monti no que foi visto como uma reacção à queda nas sondagens que a CSU, maior parceiro de Merkel na coligação governamental, tem registado na Baviera. Primeiro, Soeder afirmou que a Alemanha devia empurrar a Grécia para fora do euro já este ano: “É uma velha regra do montanhismo: se alguém está pendurado na tua corda e a puxar-te para o abismo, deves cortar a corda. Estamos nesse ponto agora: ou cortamos a corda ou a Alemanha fica em risco.” No mesmo dia, domingo, o secretário-geral da CSU também lançou um duro ataque, este visando Mario Monti. O primeiro-ministro italiano pediu este fim- -de-semana “uma maior margem de manobra” aos países do Norte na gestão da crise da Europa, sublinhando que, se “os governos estiverem demasiado presos às decisões dos seus parlamentos, sem terem o seu próprio espaço de manobra, então a Europa fica mais perto de se desintegrar que de se aproximar” – uma declaração que surge na altura em que o Tribunal Constitucional alemão pondera a legalidade da participação do país no Mecanismo Europeu de Estabilidade.

A resposta da CSU, através de Dobrindt, não se fez esperar: “Não estamos dispostos a abdicar da nossa democracia para pagar as dívidas italianas.” A CSU é o partido-irmão da CDU de Merkel e está apenas presente na Baviera.

O governo alemão reagiu a tudo isto através de Guido Westerwelle, ministro dos Negócios Estrangeiros, que pediu a todos os políticos – CSU incluída – mais calma e tranquilidade. “O tom do debate está demasiado perigoso, temos de nos preocupar em não condenar o euro através das palavras. Não podemos deixar que as nossas acções sejam reduzidas ao único objectivo de aumentar a nossa popularidade interna, e dou este recado também aos alemães”, atirou o governante esta segunda-feira. Westerwelle não terminou sem deixar um recado específico a Monti: “Precisamos de dar mais força à legitimidade democrática da Europa, e não de a enfraquecer”, disse o MNE alemão.

Ontem, o dia ficou ainda marcado por outra posição do governo alemão, através do porta-voz de Merkel, que sublinhou que a chanceler apoia o plano de Mario Draghi – que tem apostado em baixar os juros da dívida através da compra de títulos no mercado secundário –, considerando que se insere no mandato previsto para o Banco Central Europeu.

in: Jornal i, 7 Agosto 2012

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