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Pingo a pingo, vai-se a concorrência

Pelo que foi possível perceber, a maioria dos consumidores que sobreviveram à campanha do Pingo Doce ficaram muito agradecidos “ao Dr. Jerónimo Martins”. Pouparam centenas de euros e têm a dispensa cheia. Isto explica porque ninguém pode ser juiz em causa própria: se beneficiam, não serão contra. Mas, além dos sobreviventes, é de salientar a postura dos “especialistas de marketing”, que saudaram a iniciativa porque “não se fala de outra coisa”, lembrando a hedionda máxima de que “o que interessa é que falem de nós” – só espero que nenhum destes vá trabalhar para uma companhia aérea ou ainda manda os aviões cair para ter publicidade gratuita.

O “Dr. JM” conseguiu algo raro com esta campanha, abusando de limites concorrenciais e sociais numa só jogada. Aproveitou-se da pobreza generalizada – ou do medo dela, da ânsia de poupar, da ganância ou da sovinice – para dar mais um golpe duro na concorrência, roubando aplausos a um povo que só consegue pensar a curto prazo, seja por tacanhez, seja por necessidade. Que interessa lembrar hoje que a política de terra queimada de JM ou Sonae destrói as outras superfícies, os fornecedores e o comércio local, ceifando milhares de empregos, se a maioria dos consumidores está de barriga cheia? Que interessa lembrar que temos cada vez menos poder de escolha? Que interessa dizer que quanto menos empresas há num sector menos empregos temos? Que interessa referir que a JM é uma das empresas que vingaram com uma política de esmagamento salarial e de margens – aqui e na Polónia? Que interessa lembrar que qualquer dia a JM e a Sonae podem subir os preços até 100% e ninguém terá maneira de fugir? Se a maioria dos consumidores comprou 30 quilos de arroz pelo preço de 15 à boleia do dumping da JM, que interessa se Lidl ou Minipreço vendam menos 20% nos próximos meses e, continuando assim, despeçam mil ou 2 mil pessoas em breve? Por fim, de que serve uma lei se a coima máxima a que se arrisca a JM são 30 mil euros?

Não interessa nada. Não serve para nada. Mas que ninguém se esqueça que a morte lenta da concorrência em Portugal tem evoluído ao ritmo do aumento do desemprego e da pobreza no país.

in: Jornal i, 3 Maio 2012

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