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O meu discurso do 25 de Abril

Não festejar o 25 de Abril no parlamento é das opções mais coerentes que se podia tomar nesta altura. O que me espantou foi a reacção do governo: os capitães de Abril ou Mário Soares precisam de protagonismo no 25 de Abril?

Se há coisa que me parece certa é que o declínio da democracia em Portugal tem sido tão acentuado nos últimos anos quanto o gráfico que mostra a evolução da dívida pública no mesmo período – o desespero perante a subida de um levou ao declínio do outro. A lógica governativa das últimas duas décadas morreu há anos. Andámos a passar a batata quente de um governo para o outro e agora está a explodir tudo. Já todos perceberam isso, mas a falta de capacidade de quem manda em nós levou a que entrássemos na lógica do vale tudo para persistir no mesmo caminho.

Os exemplos mais recentes são os mais fáceis, mas convém não esquecer outros. Podemos falar do fim das reformas antecipadas ou das nomeações para o Constitucional. Podemos falar dos cortes dos salários, do fim dos subsídios, da limitação das indemnizações por despedimento ou da mentira de estarmos a proteger os mais fracos só porque temos tarifas sociais para quem ganha menos que o ordenado mínimo. Ou podemos ir mais atrás e recordar as promessas feitas na última campanha ou até a imposição de impostos retroactivos. Também podemos ficar no presente e relembrar as promessas do governo de que não vai haver mais austeridade enquanto impõe mais medidas todos os dias. Podemos olhar mais para a frente e antecipar já que o desemprego e a pobreza vão continuar a aumentar porque insistimos no que nos trouxe até aqui: cortar nos ganhos das pessoas, manter o statu quo e atingir a consolidação com receitas extraordinárias. A grande diferença, agora, é que as pessoas já não têm mais para dar ao governo, que os interesses que é preciso abater já estão em mãos mais fortes que as nossas (China, Angola…) e que a torneira das receitas extraordinárias está prestes a secar.

O futuro está negro e não é por acaso. Festejar o 25 de Abril no parlamento quando se tem plena consciência que é por culpa desse mesmo parlamento que temos cada vez mais pobres é fingir que não se pensa. Parabéns a quem teve a coragem de festejar o 25 de Abril apenas como ele merece.

in: Jornal i, 26 Abril 2012 

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