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1974 vs. 2012. O que mudou na fotografia do país quase quatro décadas depois

Depois de 38 anos a viver em democracia, Portugal bateu num fundo que já julgava ter ultrapassado. A pobreza vai regressando em força, a contestação social também, e os portugueses voltaram a sentir que não controlam o seu destino – culpa da troika, da dívida e dos mercados. Estes actores não existiam em 1974, mas outros culpados mantinham um país sem voz, educação ou condições mínimas de habitabilidade nas casas. Estamos mal hoje? Estamos. Mas pior que antes da revolução? Nem pouco mais ou menos

1974. O retrato de um país cinzento, onde nem 50% das casas têm água canalizada

25 de Abril de 1974. O dia de hoje ficará para a história como o primeiro dia após a ditadura portuguesa. Onde estaremos nós dentro de 30 ou 40 anos? O que mudará nas próximas décadas para os portugueses?

São enormes os desafios que temos pela frente e daqui a um ano teremos as primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte. A participação será explosiva, seguramente. Agora temos voz, podemos falar, agora vamos decidir o nosso futuro. Jamais vamos querer perder essa força de decidir o nosso destino. Só assim poderemos avançar. Para que fique recordado, eis a fotografia possível de Portugal e dos portugueses em 1974.

Uma criança que nasça hoje tem uma esperança média de vida de 68,2 anos. Se for mulher, provavelmente terá o primeiro filho pouco depois de cumprir 24 anos e quase ao mesmo tempo que casar. Se for homem, casará por volta dos 26,4 anos. Divorciar-se será um verbo que apenas 1% dos casais se atreverão a pronunciar. Será porque damos muito valor à família? Ou apenas porque é difícil para uma mulher ter força e condições para sair de casa? As opiniões dividem-se – como é bom poder ouvir outras opiniões –, mas ai de quem se atrever a quebrar uma família, por mais triste que esta aparente ser… O 1% de mulheres que se divorcia não tem vida fácil. Quanto tempo demorará este estigma a desaparecer?

Seja homem ou mulher, a criança que hoje nascer tem menos de 50% de hipóteses de terminar o ensino obrigatório. Basta ver que são mais de dois milhões os portugueses sem qualquer nível de ensino concluído, isto num país com perto de nove milhões de habitantes. Apenas 5% das crianças portuguesas em idade de frequentar o secundário ainda estudam. Se no primeiro ciclo estão 85% das crianças nessa idade, daí em diante o abandono escolar leva a melhor. Culpa de outras necessidades, culpa de termos todos de começar a trazer dinheiro para a casa o mais depressa possível.

Olhando à volta, Portugal tem muito para progredir nos próximos anos. Há pouco mais de 50 mil de nós com um diploma. Destes, perto de três mil são advogados. As notícias sobre crimes não são muitas, é certo, mas duvido que este número seja suficiente para os nove milhões de portugueses. Nem o número de advogados nem os 70 mil professores que temos hoje. Só conseguiremos ter uma população mais instruída quando tivermos mais pessoas prontas a ensinar.

Nem todos podemos dar-nos ao luxo de sonhar com a universidade. Seguramente que dentro em breve tudo isto mudará. Espero. Esta falta de estudos superiores é especialmente notória na nossa produção intelectual.

São raras as notícias de alguma invenção portuguesa. Segundo julgo saber, porque as informações oficiais são poucas, houve cinco pedidos de patente feitos por portugueses este ano – um número que se mantém constante ao longo dos últimos anos. Não deixa de ser estranho para um povo tão criativo e inventivo ter uma produção tão baixa de criações. Falta de estudos e falta de tempo, talvez. As condições também não são as melhores, nem nas universidades nem nas nossas casas.

Em Portugal temos 2,3 milhões de casas habitadas por famílias. E, segundo os dados existentes, nem 61% têm esgotos. Se pensarmos em água canalizada, o cenário é ainda mais feio: nem 48% dos lares têm acesso a água. Tomar um duche ou um banho não é possível num terço deles.

O que será de nós dentro de três ou quatro décadas? Temos o futuro pela frente e, agora, somos nós que mandamos nele. Antevejo o melhor para Portugal. Porque basta ser livre para ser melhor.

(c) Carlos Monteiro

2012. Um país que está longe do que sonhou ser no tempo da revolução dos cravos

25 de Abril de 2012. Hoje é só mais um dia. Feriado, imaginem. Dos poucos que ainda sobrevivem. Há coisa de um ano perdemos a noção de que somos nós a decidir o nosso destino. Mas será que isso aconteceu há um ano? Há quanto tempo mais de 30% de nós abdicaram de votar para decidir quem manda? Tivéssemos continuado com as taxas de participação que tivemos nas primeiras eleições pós-revolução, estaríamos hoje no sítio onde estamos?

Desde 1985 que mais de três milhões de portugueses preferem não votar e em 2011 batemos um novo recorde: foram mais de quatro milhões os que recusaram ter opinião. Desde 1999 que são menos de 62% os eleitores que se dão ao trabalho de ir às urnas. E julgávamos nós que não mais íamos abdicar do direito de escolher. Esquecemos o privilégio de viver em democracia?

Muitos são os que dizem hoje que dificilmente estamos melhor do que antes de 1974. Estamos a passar por um aperto sem igual, a contestação social está a crescer e a pobreza recupera peso na sociedade. Mas este revivalismo pré-revolucionário não encontra base nas estatísticas do país.
Uma criança que nasça hoje deverá viver, em média, mais 11 anos que a criança que nasceu em 1974. Chegará, se tudo correr bem, aos 79 anos. Uma mulher terá o primeiro filho pouco antes de festejar o 29.º aniversário – e antes de casar. Pode parecer tarde mas, em comparação com 1974, esta mãe terá mais seis anos para acompanhar a vida do seu filho. E seis anos de vida bem melhores.

Hoje, as famílias já não vivem em casas sem água canalizada ou esgotos. Mais de 99% dos quatro milhões de lares habitados por famílias têm todas essas comodidades. Damo-las por garantidas e não nos lembramos que nem 50% delas tinham água canalizada em Abril de 1974. Como seria viver sem água canalizada? E sem esgoto?

A vida em casal, é certo, já não é sagrada, longe disso. Há menos casamentos e, dos que há, 70% acabam em divórcio. Mais escolhas, mais liberdade e mais coragem. Há quem atribua esta elevada taxa de divórcios à perda dos valores tradicionais, outros lembram que os divórcios têm evoluído à medida que as mulheres se tornam mais independentes. Ambas as opiniões estarão seguramente certas, tudo depende dos casos analisados. O que é certo é que o estigma hoje é quase inexistente.

Somos hoje mais de 10,5 milhões. Destes, mais de 1,2 milhões têm um curso superior e quase 72% de todos os portugueses acabaram, pelo menos, o secundário. Já não precisamos de obrigar tantas crianças a trabalhar logo depois do ensino básico, conseguimos investir na educação. Não só as famílias como o Estado. Portugal conta hoje com perto de 180 mil professores prontos a educar.

Claro que isso tem um preço: se em 1974 os impostos equivaliam a 9,5% do produto interno bruto, hoje valem mais de 19%. Podemos contestar dizendo que a maioria é mal utilizada, mas não podemos contestar que hoje temos mais e melhores serviços e infra-estruturas do que há 38 anos – mesmo que parte deles sejam mais caros do que deviam.

É verdade que em 1974 os sonhos que tivemos eram bem mais altos que aquilo que temos hoje. Mas continuamos com voz e com a liberdade de usá-la. Falta-nos talvez a vontade, ou saber como. Quiçá seja esse o desafio para as próximas três ou quatro décadas.

in: Jornal i, 25 Abril 2012

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