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Meio ano no paraíso, un año en el infierno

Madrid, 2001/02. Filipe Paiva Cardoso foi de Erasmus a achar que ia viver no Bernabéu a deliciar-se com Figo e Zidane. Errado. Acabou a viver no Calderón com FernandoTorres a lutar para subir de divisão. Culpa da senhoria e de Futre.

FPC

Dia:11 de Setembro de 2001, terça-feira. Estávamos a meio da N5, a estrada que liga a capital portuguesa à espanhola. Íamos já bem dentro de território espanhol quando as mensagens começaram a cair: “Um avião foi contra as Twin Towers.” Uma, duas, três… à quinta deixámos de achar que era gozo. Ouvidos centrados na Radio Nacional de España, mas os espanhóis estavam demasiado excitados para percebermos. Paramos para almoçar – perto da saída de Mérida, acho – e vimos que o mundo estava virado do avesso. Chegámos a Madrid pelas 17h. Era terça-feira e mais tarde seriam os jogos da Liga dos Campeões. Azar. Cancelados. A aventura pela capital do futebol começava com o pé esquerdo, pensámos nós.

Até que sexta-feira conseguimos uma casa – primeiro tentámos dividir quarto com duas belgas obedecendo a um racional: Erasmus! Mas elas não quiseram viver com dois portugueses em Erasmus, pasme-se! Mas, como sempre, pouco antes de voltarmos a Lisboa alguém soube de alguém que conhecia outrem, etc. casa? Sim. Liga. Combina.

Calhou-nos em sorte uma família louca. A filha, se bem me lembro, nunca a vi sem um fato de treino do Atlético de Madrid e ainda hoje deve estar apaixonada pelo Fernando Torres. O retrato fiel dos pais, portanto: loucos pelo Atleti, assim como o avô, que, coitado, já confundia as cores do Betis com as do Atlético. Mas a ligação da família ao Atleti – incluindo a explicação de como a “nossa” casa era perto do Calderón – acabaria por decidir muitos dos nossos fins-de-semana.

“Vou tentar entrevistar o Futre”, disse-lhes, numa de angariar a simpatia dos nossos senhorios. Missão dada, missão cumprida. Futre era na altura director-geral do Atlético, pelo segundo ano na segunda divisão. “Vai ser um ano no Inferno”, disse-nos El Portugués quando, mostrando uma das características que mais o definem, aceitou ser entrevistado por dois putos – um armado em jornalista, eu, o outro em fotógrafo, o Hugo – para uma revista universitária. A expressão não veio por acaso, era a campanha em curso: Un año en el Infierno – foram foram dois, mas pronto – para unir os adeptos.

“Já foram aqui? Eali? E à Joyce [sic]? E ao Gabana?”; “Calma, Paulo, somos estudantes!”; “Pois… Então vejam lá, no que puder ajudar digam!”; E que tal bilhetes para o Atlético? “Claro!” “Futre, és grande!”

Esta conversa aconteceu já estávamos em Madrid há algum tempo. Chegámos com a fisgada que íamos ver todos os jogos do Real Madrid de Figo e Zidane – vimos uns quantos. Mas na hora do regressar de vez a Lisboa levámos o espírito rojiblanco e do futebol espanhol mais entranhado. Porque um estádio cheio a fazer aquele “huuyyyyyyy” de um remate que é-quase-mas-não-foi é das coisas mais maravilhosas que existem. Seja no Calderón, seja no Bernabéu ou no fim do mundo, que é Vallecas, onde iríamos ver o Rayo ganhar ao Barça [de Saviola, Geovanni e Rochemback], já em Janeiro de 2002.

O primeiro “date” com o Atlético aconteceu em Novembro. Atlético – Elche. “Dani vai ficar no banco. Joga umMovilla”; “Ah… Aqui na‘Marca’ o Gil y Gil diz que esse Movilla é melhor que o Zidane”; “Vamos lá? Eles explicaram como ir, é fácil.” Autocarro à porta directo ao estádio… Bora! O primeiro de dez (em16) jogos no Calderón. Como foi pré-Futre, cumprimos o ritual: taquilla; “Em escudos dá quanto?”; “O estádio é um túnel da M30!”; “Onde é a porta não-sei-quê?”

Ficámos num dos topos – oposto à Frente Atleti. Antes do jogo ouve-se: “Puta ETA, Puta Zabaleta.” Metade do estádio assobia, outros ignoram, poucos aplaudem. “Estão a protestar contra a ETA?”; “Quem é o Zabaleta?”

Com muitos “alegadamentes” pelo meio, a história é assim: um adepto da Real Sociedad foi assassinado por um membro dos Bastión – facção da Frente Atleti –, em Dezembro de 1998. “Não faz mal, ele era um terrorista”, dizem-me. Duas semanas antes já os Bastión tinham sido apedrejados em San Sebastián pela claque donostiarra. Como a UEFA é a duas mãos, os Bastión esperaram pelo segundo jogo, programaram a vingança e Zabaleta acabou esfaqueado. Ainda nem havia jogadores e já tínhamos ali história para levar connosco. Etarras? Ultras? Nazis? Política não é futebol? Futebol não é política? Em Espanha futebol é tudo e a política também.

Ah. E a viagem correu bem: Torres (22), Diego Alonso (45), Dani (64) e Correa (89) despacharam o Elche, o Atlético viria a subir de divisão, não faço ideia o que aconteceu às belgas, fomos à Joy – “Joyce” –, e ao Gabana e isso tudo. Só falhámos um pormenor: pedir emprego ao Futre. Ah, e chumbámos umas quantas cadeiras, mas isso faz parte.

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in: Jornal i, 24 Setembro 2011

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