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Já lhe compensa comprar um veículo elétrico?

A expansão dos veículos elétricos é inevitável. E ainda que estes representem apenas 3% do parque automóvel português, o número de carros elétricos tem duplicado a cada ano. Saiba, neste artigo, se lhe compensa comprar um veículo elétrico em 2020.

In: Revista Montepio nº33, 2020

Ainda que mais caros, os ganhos prometidos pelos veículos elétricos são suficientes para muitos já os verem como uma solução economicamente mais vantajosa face a veículos de combustão. Segundo a Associação Automóvel de Portugal (ACAP), em 2019 estes veículos já respondiam por mais de 3% do parque automóvel, marca suficiente para fazer do país o “o terceiro na Europa com a maior penetração de veículos elétricos”. Uma “quota que tem vindo a duplicar a cada ano que passa”, realça Helder Pedro, secretário-geral da ACAP.

Apesar da boa resposta do mercado aos elétricos, as previsões apontam que os preços de compra continuem a cair à medida que as fabricantes vão encontrando alternativas ao lítio e intensificam cadeias de valor. Neste caso, será que vale a pena esperar para comprar um elétrico? “Cada caso é um caso, e o racional financeiro dependerá sempre da intensidade de utilização que a pessoa precisará de fazer do veículo automóvel, que será sempre mais vantajosa para o veículo elétrico quanto maior for a necessidade de utilização do veículo, pelos menores custos de abastecimento e manutenção”, aponta-nos Francisco Ferreira, presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável. Uma visão com que a ACAP concorda: “Em certos casos compensa e noutros não, tudo depende do perfil de utilização, do tipo de veículo que se pretende adquirir e do valor residual expectável no futuro, quando se pretenda proceder à sua substituição”, aponta Helder Pedro, que não dá como totalmente assegurado que os preços dos elétricos persistam em rota sempre descendente. “Será difícil prever a sua evolução, uma vez que os mesmos não dependem apenas da generalização da produção em série, mas também da evolução do custo das baterias e da respetiva matéria prima”, sublinha.

Ainda assim, e com as poupanças associadas aos carros elétricos dependentes do tipo de utilização que se dá aos veículos, questionámos então sobre para que tipos de utilizadores já se justificará a aquisição de um elétrico em 2020 apesar das maiores exigências no investimento inicial.

A comparação entre elétricos e a combustão não se fecha ao custo de aquisição e de utilização por quilómetro. Os ganhos dos elétricos vão mais além, realçando-se os de manutenção. E é fácil perceber porquê: se um carro “normal” tem perto de 2.000 peças móveis, os elétricos contam com cerca de 20. “As manutenções são muito mais baratas pois o carro elétrico ao ter apenas cerca de 1% das peças móveis de um carro com motor de combustão interna, não necessita de sistemas de arrefecimento, filtros, óleos, velas, etc”, diz Henrique Sanchez, presidente da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE). Não há, contudo, bela sem senão. “O único custo de maior são as baterias, que são caras e podem ter de ser substituídas ao fim de uns anos.”

As baterias são o calcanhar de Aquiles dos elétricos: são caras, precisam de substituição ao fim de pouco mais de 180 mil quilómetros, têm autonomia reduzida e exigem mais tempo de recarga do que o exigido para atestar um carro. Mas é graças a estas que os elétricos oferecem um preço por quilómetro mais reduzido.

Quanto mais andar, melhor

Parece certo que “se atentarmos apenas à manutenção e consumos”, ou seja, desligando dos custos de aquisição, “compensará sempre optar para um automóvel elétrico face a um com motor tradicional: as manutenções têm custos da ordem de 25% das ‘revisões’ dos automóveis tradicionais e os consumos aos 100km representam em média metade dos custos de combustível”, quantifica Teresa Ponce de Leão, presidente da Associação Portuguesa do Veículo Elétrico (APVE).

Esta quantificação é reforçada pelo líder da UVE, que sublinha que tendo em atenção os consumos e preços médios de combustível/energia, “o custo para percorrer 100 km” é de “12€ num carro a gasolina, 9€ num a gasóleo e de 6€ para um elétrico em caso de carregadores rápidos ou 2€ em caso de carregamento numa casa com tarifa bi-horária”. A isto há ainda que juntar outros benefícios. “O carro elétrico está isento de Imposto Sobre Veículos, do Imposto Único de Circulação e ao adquirir um carro elétrico beneficiamos de um incentivo do estado no valor de 3.000€. Em muitas cidades do país (Lisboa, Oeiras, Funchal, Loures, Guimarães, Vila Nova de Gaia, etc.) o elétrico está isento do pagamento ou tem grandes descontos no estacionamento, nas portagens das pontes Vasco da Gama e 25 de abril tem desconto com o Viacard, tem desconto nas viagens de ferry-boat entre Portimão e o Funchal”, exemplifica Henrique Sanchez.

Apesar de todos os benefícios, a ACAP lembra que a questão do perfil de utilização é de facto muito importante a considerar quando chega a hora de fazer contas. “Temos, por um lado, os custos de utilização, tais como o custo da energia, o IUC, os custos de manutenção, e, por outro lado, o custo de aquisição versus o valor residual expectável na altura da troca. No caso dos veículos elétricos existem, claramente, vantagens fiscais para as empresas. Por outro lado, e sobretudo no caso de particulares, deverá ser tido em conta o tipo de utilização que é feita assim como a disponibilidade de pontos de carregamento quer na área de residência quer na do local de trabalho”, sublinha a associação.

Para quem utiliza um veículo de forma intensiva (leia-se mais de 100 quilómetros por dia, ou perto), contudo, a aposta no elétrico aparenta já hoje ser economicamente mais proveitosa que a opção por um veículo a combustível. “Atendendo ao diferencial de custos de ‘energia’ entre eletricidade e combustíveis fósseis, o aumento das distâncias percorridas eleva só por si a competitividade dos automóveis elétricos”, refere Teresa Ponce de Leão. Quanto a quem apenas usa o carro esporadicamente, prossegue, “existem diferentes fatores que terão de ser ponderados e que podem decidir qual das opções é a mais benéfica financeiramente”. Ainda assim, assegura que no caso de alguém que usa o carro diariamente “e especialmente se os custos de estacionamento forem relevantes, a vantagem dos automóveis elétricos é evidente”. Quanto a Henrique Sanchez vê vantagens em todos os cenários de utilização, de intensiva à esporádica. “Se contabilizarmos o Custo Total de Utilização (Total Operations Cost) então já hoje é compensador adquirir um carro elétrico e isto sem levarmos em conta os aspetos ambientais”, diz o presidente da UVE.

O presidente da ZERO, por seu turno, apresenta uma visão distinta para utilizadores esporádicos, já que nestes o fator ambiental ganhar particular relevância, pois é graças aos quilómetros percorridos que o veículo elétrico se torna numa opção ambientalmente sustentável. Isto acontece por causa do peso para o ambiente da construção dos carros: o fabrico de um veículo a combustão pesa menos ao ambiente que um elétrico. Só depois, com a utilização, é que o caso muda de figura.

É por isto que Francisco Ferreira aponta outro caminho para os utilizadores esporádicos: “Para quem utilize pouco, o peso ambiental da construção de qualquer carro será sempre significativo, mas naturalmente ainda mais nos veículos elétricos.” Por isso, e se o recurso a transportes públicos, bicicletas ou caminhada está fora de hipótese, nada como evitar o impacto ambiental da construção de um novo veículo optando “por uma viatura já existente, pois desta forma continua-se a dar utilização a veículos que já estão construídos”, recomenda.

CAIXA: Atenção ao fabrico e à fonte da eletricidade

Não sendo o foco deste artigo, há impactos ambientais associados aos carros elétricos que convém conhecer. O fabrico da viatura, por exemplo, passa maior fatura que o de um carro a combustão. Outro é o risco da fonte da eletricidade utilizada: se vier de uma fábrica a carvão então o carro será mais poluente do que a gasolina. Mas este ponto pode ser controlado pelo condutor. Como? “Fazendo contrato com comercializadores de eletricidade que só comercializam fontes renováveis ou com essa possibilidade”, explica Francisco Ferreira, da ZERO. Papel que o país também pode cumprir. “Se assegurarmos que a eletricidade produzida, tão rapidamente quanto possível, é totalmente proveniente de fontes renováveis” então este ponto deixa de ser uma preocupação para quem se abastece em Portugal. Para tal ajudará “o fecho das duas centrais de carvão até 2023”, diz.

PROS E CONTRAS

  1. Pros:
     Os custos de manutenção de um carro elétrico equivalem a 25% dos custos de um carro a combustão, já que conta com bastante menos peças;
     Os consumos aos 100 quilómetros serão cerca de metade dos exigidos pelos veículos a combustão;
     Redução da poluição sonora e das emissões de CO2 na fase de utilização;
     O governo aprovou para 2020 o reforço das verbas previstas para incentivos à aquisição de veículos elétricos por particulares e empresas, apoiando as aquisições com 3.000 euros e 2.250 euros respetivamente;
     Atualmente os veículos elétricos beneficiam de ausência de ISV e IUC, além de outros benefícios como em alguns estacionamentos;
     Performance: Além de proporcionarem uma condução mais suave, o binário dos motores é constante a qualquer rotação;
  1. Contras:
     Preço de aquisição ainda é mais elevado que os modelos equivalentes a combustão;
     As autonomias oferecidas por estes veículos ainda são reduzidas face às capacidades de um tanque de combustível;
     Os carregamentos são mais demorados que o simples e rápido ato de atestar o tanque;
     A rede de carregamentos rápidos ainda não está suficientemente difundida, estando bem presente nas cidades, mas nem por isso fora delas;
     As emissões associadas ao fabrico de um carro elétrico são bem mais pesadas do que as associadas ao fabrico de um carro com motor de combustão;
     Se a eletricidade com que abastecer o carro vier de uma central a carvão então estará a poluir mais do que com um carro a gasolina;

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