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Reestruturação envelheceu os bancos e limpou 9300 empregos

Dieta passou fatura mais alta aos mais jovens, com trabalhadores até aos 29 anos a cair 64%. Remunerações também sofreram

in: Dinheiro Vivo, 23 agosto 2016

A enorme reestruturação que atravessa o setor financeiro em Portugal está a alterar de forma significativa as estruturas dos bancos. Os quadros das instituições estão hoje mais envelhecidos, mas também mais qualificados. Contudo, e à imagem do mercado, são os jovens os que mais estão a sofrer. Os bancos empregam hoje menos 64% de trabalhadores até aos 29 anos face ao que faziam em 2011 e menos de 10% dos quadros foram contratados nos últimos cinco anos. Em 2011, valor chegava a 23%.

Este foi o ano em que a banca atingiu o pico em Portugal: os residentes no país em 2011 tinham ao dispor 6306 agências por onde escolher, dimensão a que correspondiam 57 069 trabalhadores. Em comparação com 2010, estes números evidenciavam o aparecimento de 66 balcões e o reforço dos quadros em 225 colaboradores. Mas este foi o último ano em que a banca cresceu, de acordo com os dados estatísticos anualmente compilados pela Associação Portuguesa de Bancos (APB).

Chegou a troika e ficou impossível de disfarçar que a banca vivia acima das possibilidades e que ia entrar numa fase de vacas magras, mais exigências, menores rendimentos e maior concorrência.

“Estas condicionantes, aliadas aos elevados níveis de capacidade instalada, quando comparada com a de outros países europeus, tornaram imperativo o aumento da eficiência dos bancos designadamente através da maior flexibilização dos quadros de pessoal e da redução das estruturas de custos”, sintetiza Fernando Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), em declarações ao DN/Dinheiro Vivo.

A dieta de balcões e emprego

Foi em 2011 que a banca chocou definitivamente com esta realidade. A reestruturação começou então a avançar a um ritmo acelerado: de 2011 a 2015, as 6306 agências passaram a apenas 4908 e os mais de 57 mil trabalhadores caíram para pouco menos de 48 mil, reduções que tiveram naturalmente reflexos ao nível dos ganhos e das remunerações médias: segundo o INE, e entre 2011 e 2014, a remuneração base média nas “atividades financeiras e de seguros” recuou 0,48%, de 1580 euros mensais para 1573 euros. Já nos ganhos médios, porém, estes acabaram por crescer no mesmo período, em 2,24%, ou de 2261 euros para 2312 euros.

Contas feitas aos cortes realizados conclui-se que o emagrecimento, neste período, chegou a 1388 agências (22%) e 9219 empregos (16%) do setor. Ao nível das agências, a maioria dos encerramentos visaram as regiões onde a atividade estava mais concentrada – em Lisboa e Porto desapareceram 653 balcões. Já em relação à idade dos quadros, e apesar de os bancos terem apostado muito em reformas antecipadas, é nos números relativos aos colaboradores mais novos que mais se nota o preço das reestruturações recentes.

Pessoal até aos 30 anos: menos 64%

A redução de 16% no total dos trabalhadores verificada entre 2011 e 2015 esconde diferentes realidades de cada faixa etária, já que em detalhe percebe-se que as reduções sentiram-se sobretudo nos quadros até aos 44 anos. Veja-se que os colaboradores acima daquela idade até aumentaram 6,3% no período, culpa do envelhecimento natural dos quadros, mas também do seu não rejuvenescimento.

Senão vejamos: em 2011, a APB contabilizava 5904 trabalhadores com idades até aos 30 anos – 10,3% do total. Já entre os 30 e os 44 anos, havia 31 mil profissionais, ou 55% do total. Com 45 ou mais anos, havia 19 800 colaboradores – 34,7% do total.

Cinco anos depois o cenário é bem diferente: no final de 2015 havia 2111 trabalhadores até aos 30 anos, ou seja menos 64% e pesando agora 4,4% no total; no patamar acima, entre os 30 e os 44 anos, contavam-se 24 700 bancários, ou menos 21% para um peso de 51,6% no total com 45 ou mais anos, havia 21 mil trabalhadores, mais 6,3% e 44% do total.

reestrut-bancos

Novas contratações: a miragem

Estas variações nas idades dos trabalhadores bancários tiveram também reflexos óbvios na estrutura da antiguidade dos recursos humanos dos bancos. Uma evolução que evidencia também a resistência de apostar em caras novas.

De acordo com os dados relativos a 2015, apenas 2% dos trabalhadores da banca contava com menos de um ano “de casa” e apenas 7,5% tinha entre um e cinco anos de antiguidade. Pondo de outra forma: dos 47 800 trabalhadores com que a banca contava no final do ano passado, apenas 4500 entraram no setor nos últimos cinco anos (9,5%). Este valor compara com os 23% de trabalhadores que entraram no setor nos cinco anos anteriores a 2011.

Já no lado oposto, os trabalhadores com mais de 15 anos “de casa” aumentaram 15,5% de 2011 para 2015, respondendo por 54% do total de trabalhadores do setor – em 2011 era menos de 40%.

Este aumento da antiguidade e da idade média na banca surge numa fase em que a banca é cada vez mais ameaçada pela concorrência de serviços assentes em soluções tecnológicas (as fintech) e pouco antes das mudanças previstas para 2018, que vão alargar os prestadores de serviços de pagamentos a empresas como a PayPal.

Mais eficiência e qualificações

Sobre estas alterações nos recursos humanos dos bancos, Fernando Faria de Oliveira sinalizou o facto de o “‘envelhecimento’” ter ocorrido “em simultâneo” com “um acréscimo do peso dos trabalhadores mais qualificados e especializados” – há hoje 57% de trabalhadores com ensino superior, contra 52,5% de 2011.

O presidente da APB nomeou as exigências regulatórias e os desafios que o negócio enfrenta como razões para tais mudanças. “As crescentes exigências associadas ao negócio bancário, designadamente regulamentares, têm levado a uma aposta em quadros simultaneamente mais qualificados e experientes, com reflexo no aumento da qualificação média dos colaboradores.” A evolução tecnológica é outra das razões para a necessidade de reestruturação da banca, já que os clientes usam, cada vez mais, a Internet para as suas operações, tornando obsoletos muitos balcões. “A necessidade de adaptação do sector aos desafios da era digital” ditou, em boa parte, a dieta dos últimos anos, já que veio exigir “maiores níveis de automação de tarefas, o investimento em tecnologias de informação e a adaptação dos canais de distribuição”, explica Faria de Oliveira.

Mas as razões são muitas, como o contexto económico “extremamente difícil”, o enquadramento de taxas de juro reduzidas e as crescentes exigências regulatórias. E lembra que houve também cortes por outras razões: “Importa salientar o impacto produzido, por um lado, pela redução e/ou encerramento de operações de alguns bancos (…), e por outro, pela ocorrência de processos de fusão e, mais recentemente, de resolução, que criaram necessariamente duplicidades nas redes físicas e em termos de quadros de pessoal”.

Sobre a menor presença de jovens na banca, Faria de Oliveira justifica com “uma menor aposta em programas de estágios” por parte das instituições mas também com “a crescente necessidade de recrutamento de colaboradores para funções específicas”.

Admite, contudo, que “a maior flexibilidade e consequente mobilidade dos colaboradores com menor antiguidade” também teve o seu peso nesta evolução. O banqueiro realça que, das poucas contratações feitas pelas instituições financeiras, a maioria visou quadros “até aos 29 anos”.

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