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Reestruturação da banca em Portugal está muito longe do fim

Apesar do corte de mais de 7400 empregos e 1300 balcões desde 2012, custos com pessoal na banca atingiram em 2015 o peso mais alto desde 2011

in: Dinheiro Vivo, 28 maio 2016

Entre colapsos, resoluções, reestruturações ou cortes avulso, a banca em Portugal passou nos últimos anos por uma dieta que já custou mais de 7500 empregos (13%) no país e levou ao fecho de mais de 1300 balcões (20%) entre 2011 e junho de 2015, segundo dados da Associação Portuguesa de Bancos.

Esta foi a fórmula encontrada pelo setor para lidar com o emagrecimento prescrito a um negócio que engordou demasiado depressa recorrendo a práticas arriscadas – ou, nas palavras do Banco de Portugal, que engordou por culpa de uma “política de concessão de crédito pouco conservadora”.

Mas apesar de a dieta já ter alguns anos, o seu fim está longe. Não só porque o setor continua a comparar mal com os pares europeus mas porque as ameaças existentes não são passageiras, antes estacionaram na economia, e as exigências regulatórias só têm um sentido: endurecer.

Estado da arte

Desde 2010, o ativo total da banca portuguesa recuou 22%, tendo-se registado um esmagamento superior a dois mil milhões de euros na margem financeira total – de mais 8 mil milhões para menos de 6 mil milhões -, uma quebra de 25% nos ganhos disponíveis para o setor, segundo o BdP. Esta margem é a base do lucro da banca, resultado da diferença de juros cobrados e pagos.

A quebra do negócio “disponível” no mercado (-25%) foi assim superior à dieta levada a cabo em termos de balcões (-20%) e trabalhadores (-13%) pelo que a banca acabou por continuar com peso a mais para o negócio existente. Um exemplo: Mesmo com os cortes dos últimos anos, os custos com pessoal na banca em 2015 atingiram o peso mais elevado face aos custos (55%) desde 2011.

Mas a dieta produziu alguns resultados. Em 2015, a rendibilidade do setor retomou níveis positivos, aponta o BdP, mas ainda distante do passado e beneficiando de efeitos não recorrentes. Ou seja, os números em 2015 evidenciaram melhorias mas estas vieram de negócios irrepetíveis: os resultados de operações financeiras em 2015 dispararam 27%, destacando-se a venda de dívida pública portuguesa.

O peso dos negócios não recorrentes nos resultados de 2015 fica evidente se olharmos para o rácio dos custos sobre as receitas – cost to income, (CTI) – da banca em Portugal: o indicador oficial foi de 59,9% em 2015. Todavia, expurgando os elementos não recorrentes das contas, o rácio teria sido de 70%.

Os pares e os rácios

A banca da Alemanha e França são as únicas da zona euro com um CTI mais elevado que o da banca em Portugal, segundo o Banco Central Europeu, com a média da banca da região a situar-se abaixo dos 60% no final de 2014, altura em que em Portugal estava nos 66%.

Além de contar com um elevado peso dos custos face aos rendimentos, a banca no país apresenta ainda dos valores mais reduzidos em termos de eficiência operacional, já que tem dos valores mais reduzidos de população por balcão e de ativos por trabalhador face aos pares europeus.

A estes rácios, juntam-se os financeiros: Apesar de ao nível do comon equity tier 1 a banca nacional cumprir os mínimos, “nos restantes rácios prudenciais existem desafios assinaláveis a enfrentar, uma vez que nem todos os grupos bancários [em Portugal] atingiam os requisitos mínimos”, diz o BdP. E isto quando as ameaças e as exigências vão se acumulando.

“Significativo corte de custos”

O elevado nível de endividamento do país dá pouca margem para a banca aumentar o negócio por esta via sem correr riscos excessivos numa altura em que as imparidades ainda são elevadas. O endividamento do país faz crescer também a perceção do risco do setor, aumentando os custos de financiamento – se eventualmente os bancos decidirem/conseguirem recorrer a essa via, algo que, inevitavelmente, terão que enfrentar.

Depois, e dado as taxas de juro reduzidas – que vieram para ficar – também os incentivos para o aumento dos depósitos são reduzidos, isto quando a subida de depósitos foi um elemento fulcral para o “ajustamento estrutural” que a banca conseguiu fazer nos últimos anos.

Seguem-se os desafios económicos de Angola, por exemplo. Seja pela crise económica do país, seja pelas novas regras europeias, estes desafios fazem pender sobre o setor bancário português um risco elevado – por um lado porque os ativos em Angola representaram uma larga fatia dos resultados dos últimos anos e, por outro, porque o agudizar da crise no país poderá levar ao aumento de créditos em risco ou das imparidades no balanço dos bancos em Portugal.

Por fim, e numa lista que ainda poderia ser mais exaustiva, há que ter em conta o facto da banca europeia ter pouco menos de dois anos para passar a ter que cumprir uma série de exigências regulatórias novas ou mais elevadas em matéria de capital e de liquidez, algo que, para o BdP, “poderá contribuir para pressionar a geração de resultados do sistema bancário, em particular, do português”.

Tudo somado, e com mais trabalhadores e balcões que a média da zona euro, sem margem para aumentar exponencialmente o negócio e com custos regulatórios acrescidos, a banca em Portugal ainda precisa de mais dieta para se adaptar aos novos tempos da banca europeia. A melhor solução? “Uma significativa redução de custos operacionais”, sentencia o BdP no recente relatório sobre a estabilidade financeira em Portugal.

“A rendibilidade do setor bancário em Portugal poderá ser particularmente afetada pela manutenção de taxas de juro muito reduzidas (…) e pelo nível elevado de ativos não geradores de rendimento”, fatores que “dificultam a recuperação (…) reforçando, assim, a necessidade de uma significativa redução de custos operacionais”, salienta o BdP.

O banco central vai mesmo mais longe e até sugere um ramo de negócio a explorar pela banca: “O crescimento da banca digital, embora represente um desafio (…), constitui uma via para a redução sustentável de custos do setor.”

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