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Revoluções de 1848 – O “Verão Britânico”

Massacre de Peterloo

Chegou-nos por Copérnico, matemático do século XVI, a teoria do modelo heliocêntrico explicada no livro “Da Revolução dos Planetas”, livro de onde surgiu o primeiro significado da palavra “Revolução”, no caso referente à órbita completa de um planeta à volta do Sol, com o também astrónomo a recuperar e a inovar sobre as ideias de Ptolomeu, esquecidas durante grande parte da Idade Média. Ao contrário do autor do século I, nascido em Alexandria, que colocava todos os planetas a orbitar à volta da Terra, Copérnico colocou o eixo central das revoluções no Sol. A revolução era então não um movimento de quebra, mas um movimento de continuidade e normalidade.

Bibliografia consultada e/ou recomendada:

A Era das Revoluções Wook.pt - A Era do capital Wook.pt - Manifesto Comunista

Terá sido com as revoltas Americana e Francesa, já no século XVIII, que o termo “revolução” adquiriu o significado que hoje em dia ainda lhe imediatamente atribuímos, ou seja de uma “mudança brusca na estrutura económica, social ou política de um Estado”, como a palavra surge definida no Dicionário de Língua Portuguesa Online, da Priberam. Porém, pouco antes do século XVIII encontramos na “Gloriosa Revolução” de 1688 o recurso ao termo “revolução” no seu sentido de continuidade e normalidade, já que esta revolução gloriosa celebrava o regresso ao “antes”: a recuperação da Coroa para as mãos protestantes, depois da República de Cromwell e do reinado católico e pró-absolutista de Carlos II e Jaime II.

A ideia mais disruptiva que hoje atribuímos ao termo “revolução” terá chegado com a ascensão dos ideais iluministas, que deu uma nova força à vontade de cortar com o passado, no caso o fim de uma monarquia absolutista. O seu primeiro uso com a definição que hoje associamos à palavra datará de 14 de Julho de 1789, quando o Duque de Liancourt, questionado por Luís XVI se havia uma revolta, lhe terá respondido: “Non Sire, c’est une révolution!

Tanto a Revolução Francesa como a Americana marcam de forma decisiva o período que agora nos propomos abordar. Ironicamente, poucas décadas depois da sua utilização pelo Duque de Liancourt, a sociedade europeia é confrontada com um conjunto de revoltas no seu coração que, mesmo sendo já uma “revolução” na definição mais corrente da palavra, seria igualmente bem definida como uma “revolução” à imagem da definição usada por Copérnico. As Revoluções de 1848 alastraram de forma acelerada por quase toda a Europa, partindo do seu “Sol” – a França –, mas entrando rapidamente em retrocesso, acabando por regressar quase ao ponto inicial, tal como uma órbita. E tal como os diferentes caminhos dos astros, cada uma das revoluções de 1848 teve o seu tempo específico de órbita até ser chamada ao ponto inicial, o regresso dos governantes depostos – excepção feita ao “Sol” da revolução.

Existem várias definições do conceito de “revolução” enquanto mudança brusca, com diferentes autores a tentarem definir o seu perímetro, alcance e sobretudo o “quando” de uma revolta, manifestação, insurreição passar a ser vista como revolução. Fechando a análise à principal bibliografia a que recorremos no âmbito deste trabalho, encontramos três delimitações do conceito de revolução que importa salientar. Helge Berger e Mark Spoerer definem uma revolução “ou como violência colectiva generalizada com o objectivo de mudar o sistema político ou com a implementação de reformas constitucionais imediatas e substanciais para prevenir” essa mesma revolução.

Já Charles Tilly, sociólogo e historiador norte-americano, detalha um pouco mais sobre a ideia de revolução, definindo a mesma como “uma transferência forçada de poder num Estado, durante a qual pelo menos dois grupos distintos de contendores têm pretensões incompatíveis ao controlo do Estado e existe uma percentagem significativa da população sujeita à jurisdição desse Estado que concorda com as exigências de cada um dos grupos”. O autor distingue porém a situação revolucionária – conforme atrás descrita – de um desfecho revolucionário, apontando que são poucas as situações revolucionárias que levam a um desfecho revolucionário, sendo que estes desfechos até podem ocorrer sem situações revolucionárias. “Por vezes os resultados revolucionários – transferências importantes do poder do Estado – ocorrem de forma tão gradual ou instantânea que nunca se manifesta uma soberania múltipla. Só numa minoria de casos, em que emergem novos detentores do poder de uma situação de múltipla soberania, se pode falar de uma autêntica revolução.” Para exemplificar, Tilly aponta o caso de uma guerra civil que apesar de provocar uma situação revolucionária não induz necessariamente a um resultado revolucionário.

Ainda nas interpretações deste termo, uma última referência a outra definição de “revolução” por coincidir no tempo com as revoluções que iremos abordar nas próximas páginas. Falamos do uso dado ao termo no Manifesto Comunista, onde Marx e Engels apontam que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrube violento da ordem vigente, “até ao ponto em que rebenta numa revolução aberta e o proletariado, pelo derrube violento da burguesia, funda a sua dominação”. Uma definição restrita e que limita a revolução à “oposição de classes opressoras e oprimidas”. Já sobre o conceito de “proletariado”, regressamos a Charles Tilly, que explica a proletarização como o “aumento da dependência das famílias em relação ao salário e na diminuição do seu controlo dos meios de produção”, definição que será a nossa ao longo deste texto.

Para terminar esta abordagem sobre a evolução do conceito de revolução como enquadramento ao nosso trabalho resta abordar o “porquê” das revoluções. Sem obedecerem a leis ou a conjuntos de factores imutáveis que levem a adivinhar a sua eclosão, surgindo por razões políticas, climáticas, sociais, propagandísticas, repressivas ou por um pouco de tudo atrás referido e outras tantas causas, há alguns pontos previsíveis por detrás das revoluções, como o grau de desespero de uma população esmagada pela fiscalidade ou a experimentar dificuldades extremas de subsistência.

Além do ponto de vista das populações, também do lado do Estado podem surgir factores que potenciam o aparecimento de uma revolução. A constatação da fragilidade do aparelho estatal ou a dissolução parcial dos seus poderes podem evoluir para a ocorrência de situações revolucionárias alimentadas por rivais que ambicionam reclamar para si o poder – uma derrota militar, por exemplo, deixa o Estado não só fragilizado como descredibilizado perante a sua população.

Será através destes conceitos, ideias e pontos de vista que iremos abordar o porquê da Grã-Bretanha ter sido uma excepção durante as revoluções de 1848, questão que nos propusemos esclarecer enquanto tema central deste trabalho. Como método de trabalho, escolhemos seguir o “guião” que Tilly criou para antecipar os casos onde situações revolucionárias podem estar em gestação: “Para saber quais os Estados onde pode ocorrer uma revolução, temos de examinar não só a sua política doméstica, mas também a sua posição no conjunto prevalecente de relações entre Estados.” Adaptando o guião ao caso em apreço, vamos antes olhar para a política interna e externa Britânica para perceber porque uma situação revolucionária tão alargada como a de 1848 não chegou a Londres. As fontes a que recorremos dirão respeito tanto à vida interna britânica como à relação e posição desta face aos diferentes Estados europeus.

Para melhor entender a evolução da política interna inglesa assim como da externa, é, porém, necessário primeiro entender, definir e enquadrar a situação europeia no rescaldo de 1789 e a sua evolução até às vésperas de 1848, por onde começamos.

 

Trabalho para a disciplina de História Contemporânea – Economia e Sociedade. Nota final 18 valores

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