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Espártaco: história, ideologia e romance – uma viagem de 22 séculos à boleia de Howard Fast

Esquecido durante longos séculos, Espártaco foi recuperado como figura icónica no séc. XVIII, quando os iluministas identificaram na revolta deste trácio um potencial literário e ideológico imenso. Também o seu inimigo, a magnífica, gigantesca e quase imperial Roma se prestava a um serviço semelhante, no caso como símbolo último da opressão. A sua dimensão e o facto de se ter sentido seriamente ameaçada por um exército de escravos potenciavam ainda a exaltação de um outro ângulo da revolta e do seu potencial ideológico: a mensagem de que nenhum adversário deve ser visto como demasiado grande para ser enfrentado. Voltaire, Rousseau e a década revolucionária francesa recuperaram assim a figura de Espártaco, até então condenado a sucintas passagens ou notas de rodapé em compêndios de História de Roma – se tanto.

Bibliografia consultada e/ou recomendada:
 

O engrandecimento do mito de Espártaco não veio, contudo, sem algumas ironias. Tratando-se de uma revolta de escravos, o que dizer de ter sido um antiabolicionista a levar o trácio até aos patamares da fama nacional nos Estados Unidos, já em meados do séc. XIX? Um simples exemplo da flexibilidade que a personagem de Espártaco oferece aos autores que se decidem a abordá-lo: ora é um símbolo da luta pelos direitos do homem, ora um símbolo nacionalista contra a opressão estrangeira, ora um herói romântico que luta contra tudo e todos para defender a família, ora um oprimido que apenas procura a liberdade, igualdade e a justa distribuição de riqueza… Espártaco dá para quase tudo, como tentaremos mostrar nas próximas páginas.

Entre o passar dos séculos e a evolução das diferentes roupagens que foram sendo adaptadas ao gladiador trácio, a sua história foi lentamente evoluindo até explodir para os patamares do mito que hoje lhe atribuímos. Aquele que nas fontes clássicas surge como mais um episódio da história do grande general romano Marco Licínio Crasso tornou-se ao longo de um lento mas crescente processo de 22 séculos maior que este último, que ironicamente estaria hoje mais votado ao esquecimento não fosse ter sido o responsável pela morte de Espártaco. Para este processo lento mas crescente muito contribuiu também a evolução dos próprios meios de comunicação, em especial ao longo do século passado, com o cinema a desempenhar um papel fundamental na explosão do mito, sobretudo graças ao filme de 1960 realizado pelo jovem Stanley Kubrick e protagonizado por Kirk Douglas e Laurence Olivier. Na base deste filme, o livro “Espártaco” de Howard Fast, de 1951, objecto central deste trabalho.

Para entender e analisar criticamente a obra através de diferentes ângulos, são necessários vários passos intermédios até construirmos uma ideia mais abrangente sobre os diferentes alcances e influências da mesma. Estes passos intermédios vão levar-nos desde os relatos sobre a revolta de 71-73 d.C. deixados pelos autores, historiadores e biógrafos clássicos, tanto gregos como romanos, até aos diferentes aproveitamentos de que a figura de Espártaco foi sendo alvo nos séculos mais recentes, tanto por autores, ensaístas, políticos como por ideólogos. Procuraremos de seguida entender o enquadramento do próprio Howard Fast e de uns Estados Unidos que o perseguiram e oprimiram já em pleno séc. XX, culpa da paranóia anti-comunista que então grassava no país. Só com todos estes dados em mão será então possível ir além da superfície na análise a que nos propusemos.

E como todas as viagens começam com um primeiro passo, antes de todas as etapas intermédias referidas, começaremos por abordar as problemáticas do estudo das fontes clássicas assim como por uma nota sobre a metodologia a que obedeceu este trabalho ao nível da análise da fidelidade da obra de Howard Fast em relação ao que nos contam Plutarco, Salústio, Apiano ou Orósio, entre outros. Comecemos então.

 

Trabalho de seminário em Antiguidade Clássica para licenciatura em História. Nota final 18 valores

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