Desde 2011 que a chanceler alemã considera a dívida grega insustentável, revelam telegramas da espionagem norte-americana
O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendia em Outubro de 2011 o avanço de uma nova reestruturação da dívida grega, isto depois de os líderes europeus terem acordado poucos meses antes avançar com o primeiro haircut à dívida pública de Atenas – que avançaria durante 2012. À posição do seu ministro, Angela Merkel não conseguiu reagir: “A chanceler manifestou estar na dúvida sobre qual a melhor solução para resolver o problema, se um novo corte à dívida ou mais transferências dos países da União.”
A revelação é feita num telegrama dos serviços secretos norte-americanos, nas incontáveis acções de espionagem aos líderes europeus, que foi agora publicado pelo site WikiLeaks. Segundo relata o telegrama enviado pelos espiões norte-americanos, “dentro do executivo alemão, Wolfgang Schäuble continuou, sozinho, a apoiar fortemente o avanço de um novo haircut, isto apesar dos esforços de_Merkel para o controlar”. Mas a chanceler alemã duvidava “que um novo haircut ajudasse os gregos a resolver os seus problemas, já que continuariam a não conseguir lidar com o resto da dívida”, relata ainda o telegrama, que acrescenta: “Além disso, ela [Merkel] até duvidava que enviar especialistas financeiros para Atenas servisse de alguma coisa parar controlar o sistema financeiro da Grécia.”
O relatório de espionagem aborda ainda as posições tomadas pelo então presidente da_Comissão Europeia, Durão Barroso, e de Jean-Claude Trichet, então líder do BCE, e de Christine Lagarde, já líder do FMI. “Trichet opôs–se fortemente” ao avanço de uma nova redução da dívida e_“Barroso, tal como a França, propôs uma abordagem mais gentil. Lagarde “foi descrita como estando indecisa face à ideia”. Este_relatório enviado ao governo dos EUA tem por base uma conversa de_Merkel com o assistente pessoal em Outubro de 2011.
Os BRIC que paguem O segundo telegrama agora revelado pelo WikiLeaks, enviado aos EUA pelos serviços de espionagem britânicos, já mostram um outro lado da questão. Na véspera da cimeira europeia em que foi debatido o resgate à Grécia, a 14 de Outubro, o espiado foi Nikolaus Meyer-Landrut, responsável alemão pelos assuntos europeus. Este responsável, em conversas com o seu governo para saber até que ponto este estava disposto a ir no resgate, ouve “que o governo alemão quer soluções dentro do enquadramento legal já existente na Europa”. Mas o assunto mais forte deste telegrama é uma das ideias do governo alemão para financiar o resgate grego: “Por outro lado, os alemães mostraram-se disponíveis para apoiar a criação de um fundo especial dentro do FMI para o qual os BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) contribuíram com verbas para financiar os resgates necessários na Europa”, relata a espionagem britânica aos líderes e altos responsáveis da Europa.
Estes dois telegramas dos serviços de espionagem americano e britânico foram divulgados no final da última quarta-feira pelo WikiLeaks, com o site de Julian Assange a rotulá-los como actos de espionagem elaborados para que o governo de Washington tomasse conhecimento das posições e dos desacordos dos europeus em relação à crise grega.
Segundo o comunicado da Wikileaks divulgado com os telegramas, os documentos são “relatórios de espionagem confidenciais, que resultaram dos serviços de vigilância e que evidenciam que os EUA e o Reino Unido espiaram governantes alemães a discutir as suas posições e desacordos sobre as soluções para a crise financeira grega”.
Apesar de toda a resistência manifestada pelos líderes europeus ainda em 2011 a propósito de um eventual novo corte à dívida grega, certo é que quase quatro anos depois o mesmo parece ter-se tornado quase inevitável. Ontem o FMI defendeu isso mesmo, recusando participar num novo resgate sem que a dívida grega seja reduzida.
in: Jornal i, 3 Julho 2015