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Grécia. Só o perdão de dívida evita rendição incondicional de Tsipras

Nova proposta é cedência quase total aos credores, menos no capítulo da redução da dívida prometida em 2012.

Quando o enredo da tragédia já ia bem para lá de complicado, os autores clássicos resolviam-no com uma intervenção súbita de um ou vários deuses. Estes chegavam e com as suas artes divinas resolviam de vez a trama: a isto chamou-se Deus ex-machina, algo como “Deus vindo da máquina” pois o actor que fazia de deus chegava pelos ares, segurado por uma grua, por exemplo, a máquina. Hoje, é a crise da crise grega que suspira pelo seu Deus ex-machina.

É que o enredo da crise, já a complicar desde 2009, tem conseguido ficar ainda mais denso nos últimos dias, mexendo já com os nervos de vários envolvidos. Ontem, Wolfgang Schauble, ministro das Finanças alemão, lançou um ataque duro a Tsipras. “Tenho pena do povo grego”, disse, rejeitando quaisquer conversações com Atenas até se realizar o referendo ou mesmo depois:“O governo grego não é confiável para novas conversações sobre resgates”, disse mesmo. Depois deste, viriam mais críticas:“Este governo não fez nada desde que entrou em funções”, disse ao parlamento alemão. “Só reverteram medidas e renegaram compromissos” e rematou:“A Alemanha sempre manteve o acordado, sempre cumpriu as regras e se todos tivessem feito o mesmo a Grécia não estaria nesta situação.” Mas a Alemanha foi o primeiro país a violar as regras do défice do Pacto de Estabilidade.

Merkel quer FMI Angela Merkel pouco depois viria a amenizar o tom do discurso mas realçando a mesma ideia:negociações só depois do referendo. A Alemanha ditou, o Eurogrupo seguiu o ritmo:na teleconferência de ontem à tarde os ministros das Finanças repetiram a mensagem de Berlim de que só haveria negociações pós-referendo. Antes já Dijsselbloem, líder do Eurogrupo, tinha recordado que um eventual novo resgate virá com condições mais duras para Atenas. De volta a Merkel, a chanceler acrescentou um detalhe ao seu discurso, ao salientar que o FMIterá que participar em futuras negociações com Atenas, algo que contraria um dos desejos gregos para o resgate, de ser exclusivamente europeu.

Entretanto, em Atenas… A divulgação da proposta de última hora de Tsipras tornou evidente que o governo grego já cedeu em quase toda a linha aos credores – provocando fortes protestos na esquerda grega ontem. Mas mesmo cedendo, Tsipras não abdica do ataque. Ao final da tarde foi à televisão e voltou a acusar os credores europeus de chantagem:“Nunca pensei que a Europa democrática não desse espaço e tempo [ao referendo]. É uma desgraça estarmos nesta vergonhosa situação porque fecharam os bancos por termos decidido dar voz às pessoas.” Para Tsipras, só a vitória do “Não” dará a força negocial que necessitará para manter-se agarrado ao último ponto de honra do Syriza: a reestruturação da dívida pública, tal como os parceiros europeus prometeram há mais de dois anos.

A Grécia, todavia, há muito que não está sozinha a lutar pela redução da dívida. Ontem o FMI e os Estados Unidos voltaram a pedir à Europa que avance com a reestruturação e Varoufakis recordaria isso na justificação sobre o porquê da defesa do “Não”:“OFMI, os EUA, vários governos de todo o globo e a maioria dos economistas independentes acreditam, tal como nós, que a dívida tem que ser reestruturada.” A consulta de dia 5, porém, ficou ontem manchada pela análise do Conselho da Europa, de defesa dos Direitos Humanos, que considerou o prazo entre a convocação e a realização do acto “demasiado curto face aos nossos padrões”, que deveria ser de 15 dias.

Em síntese, os gregos vão votar um referendo que não cumpre os requisitos internacionais e que é sobre uma proposta a que o governo já respondeu para iniciar negociações de um terceiro resgate, resgate que os parceiros europeus poderão tornar num acordo totalmente diferente ao que vai a votos e ignorando os conselhos de FMI e EUA. Tudo isto para resolver a actual crise da crise grega e não esta última, que está para ficar. Deus ex-machina, onde andas?

in: Jornal i, 2 Julho 2015

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