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Grécia: Seis anos e 20 datas de muitos cortes, promessas e impostos

A incapacidade europeia e grega de gerir a crise em que caiu o país fica evidente pelo facto da situação grega estar quase a celebrar o sexto aniversário e de pouco ter melhorado e muito ter piorado em todos estes anos. Mas este tempo não foi totalmente infrutífero, já que a cada resgate da Grécia correspondeu uma redução da exposição do sector bancário à dívida grega, que foi colocada gradualmente nos ombros dos contribuintes europeus.

 19 Outubro de 2009. O novo governo socialista grego, liderado por George Papandreou, revela publicamente que há um enorme buraco nas contas gregas, duplicando as previsões do défice daquele ano para 12%. Na altura, o primeiro-ministro admitiu que a economia grega tinha entrado nos “cuidados intensivos”. Previa-se que a dívida grega chegaria a 135% do PIB em 2011 e Papandreou admitia que “esta é sem dúvida a maior crise económica do país desde a restauração da democracia”, em 1974. Apesar de todos estes alertas, a Standard&Poor’s optou por manter a dívida grega com um rating “A-“. Em Novembro, o governo socialista prometeu um pacote de austeridade avaliado em três mil milhões de euros.

 8 Dezembro de 2009. A agência Fitch decide baixar o rating da dívida grega para BBB+, provocando uma sequência ascendente dos custos de financiamento do Estado grego. As agências rivais da Fitch, S&P e Moody’s, acabaram por imitar a Fitch, provocando subidas ainda mais aceleradas nos custos de financiamento da Grécia. Uma semana antes, no final de Novembro, a Grécia foi colocada oficialmente sobre “supervisão da UE”. O ministro das Finanças grego prometeu novo pacote de austeridade já para Janeiro.

 14 Dezembro de 2009. Não foi possível esperar por Janeiro. Papandreou delineou com alguma urgência um plano agressivo de reformas para tentar recuperar a confiança dos mercados que no entanto desencadeou uma série de manifestações, greves e protestos no país. “Há certos momentos na história de uma nação em que as decisões definem as décadas seguintes”, disse então Papandreou. “Hoje é um desses momentos”, sentenciou. Tinha razão mas não no sentido desejado. “Chegou a hora de atacar e resolver, de uma vez por todas, os problemas profundamente entranhados na economia.” O líder socialista garantiu também “proteger a classe média e os mais desfavorecidos”. Seguiram-se vários aumentos de impostos, cortes nas prestações sociais e, claro está, um crescendo de contestação. De nada serviram nem as medidas, nem a contestação às mesmas. O ano terminou com uma contracção de 1,2% do PIB e o desemprego a chegar aos 9%.

 23 de Abril de 2010. A sequência de cortes e de aumentos de impostos, já em cima de um pacote de medidas inicial avaliado em três mil milhões de euros, acabaram por acelerar a espiral recessiva da Grécia, tornando o país mais deficitário, logo mais dependente dos mercados, que assim lhe cobravam cada vez mais juros, aumentando-lhe o défice, e tornando-o ainda mais dependente dos mercados, e por aí fora… Logo, a 23 de Abril de 2010 Papandreou anunciou que o país cedia à pressão dos mercados e solicitava um resgate de 45 mil milhões de euros à União Europeia e ao Fundo Monetário Internacional. Este era apenas uma primeira tranche de um acordo para um resgate global de 110 mil milhões de euros.

Um dia antes da oficialização do pedido de acesso ao resgate, o Eurostat publicou uma avaliação muito crítica da real situação das contas gregas: “Expressamos a nossa reserva face à qualidade dos dados reportados pela Grécia, dadas as incertezas em relação ao excedente da Segurança Social em 2009, à classificação de algumas entidades públicas e ao registo de alguns swaps.” O défice grego foi revisto de 12,7% para 13,6%. O FMI pediu de imediato um apertar das medidas de austeridade em vigor no país.

 6 de Maio de 2010. Onze meses antes de José Sócrates ir às televisões comunicar que também Portugal iria recorrer a um resgate, na Grécia aprovava-se o primeiro de quase dez pacotes de austeridade para acalmar a ira dos mercados. O governo aprovou cortes e aumentos de impostos num valor total de 30 mil milhões de euros em três anos, incluindo cortes mínimos de 7% nas pensões e nos salários públicos e privados ou o aumento do IVA, de 19% para 21%. Estas medidas juntavam-se às prometidas já em Março, como as reduções de 30% nos suplementos salariais e bónus. Na noite anterior, as manifestações em Atenas tinham resultado em três mortos.

 O ano prossegue entre manifestações e o agudizar da crise social e financeira. As agências de rating continuam a baixar o nível da dívida grega e ao longo de 2010 o governo grego vai aprovando novas medidas de austeridade pontuais, como o a limitação dos salários nas empresas públicas e cortes de 10% nos salários que ainda estivessem acima de 1800 euros. No final de 2010, o desemprego já estava nos 14,4% e o PIB acumulou uma contracção de 5,4% no ano.

 23 de Maio de 2011. Líderes europeus concordam com a necessidade de preparar um novo resgate à Grécia, dada a incapacidade do anterior programa da troika em dar a volta à situação, tendo aliás ajudado a agravá-la. Por pressão de David Cameron, a União Europeia acaba por concordar que os resgates do euro deviam ser financiados unicamente pelos países do euro. Pede-se à Grécia um novo pacote de austeridade, agora avaliado em 28 mil milhões de euros, além de se exigirem privatizações num valor de 50 mil milhões.

 6 Novembro de 2011. Entre as manifestações e uma crise que não pára de crescer, Papandreou e Antonis Samaras, líder da oposição, negoceiam um governo de coligação. Papandreou demite-se e é nomeado um ex-vice-presidente do Banco Central Europeu para primeiro-ministro, Lucas Papademos. No final do ano, PIB contraiu 8,9% e o desemprego já se encontra acima dos 20%.

 23 Janeiro 2012. O combate à evasão fiscal leva o governo a tornar pública uma lista  com mais de 4 000 gregos que, juntos, devem mais de 14,9 mil milhões de euros em impostos. Entre estes estavam algumas figuras públicas, como desportistas e cantores. Dos referenciados, destaque para um contabilista, entretanto já na cadeia, que sozinho devia 952 milhões de euros. A publicação desta lista obrigou a uma alteração da lei sobre a privacidade do país.

 12 Março 2012. Os ministros da zona euro assinam um novo resgate para a Grécia, avaliado em 130 mil milhões de euros, elevando os dois resgates até aos 240 mil milhões. Além das medidas aprovadas procurou-se obter algum alívio na dívida grega: O governo, através de uma troca de títulos de dívida por outros de valor inferior, reestruturou um total de 100 mil milhões de euros da dívida pública. A operação foi considerada um “default técnico”. Papademos, agradecendo aos privados que aceitaram a decisão do governo grego, reforçou: “Temos que pensar nos erros que cometemos e que nos trouxeram até aqui e nos obrigaram a reestruturar a dívida.” Na altura, os alertas também se multiplicaram: “O corte de 100 mil milhões ajuda a Grécia mas provavelmente não é suficiente para colocar a dívida numa rota de sustentabilidade”, comentava Gary Jenkins, da Swordfish Research.

 10 de Abril de 2012. “O governo de ocupação de Tsolakoglou [referência aos gregos colaboracionistas com o regime nazi] acabou com qualquer hipótese que tinha para sobreviver, que se baseava num salário decente para o qual trabalhei 35 anos sem qualquer ajuda do Estado. Como tenho uma idade [77 anos] que já não me permite reagir em força, ainda que se alguém já tivesse pegado numa Kalashnikov eu pegaria logo noutra, não vejo outra solução para ter um fim digno e evitar ter que vasculhar o lixo para comer. Acredito que esta juventude, que agora não tem qualquer futuro, vai pegar em armas e enforcar os traidores na praça de Syntagma, tal como os italianos fizeram a Mussolini.” A nota foi deixada em casa por um grego pouco antes de dar um tiro na cabeça à porta do Parlamento na hora de ponta matinal. O pensionista, de 77 anos, estava afundado em dívidas por causa do aumento do custo de vida no país e dos cortes nas pensões.

 Segundo dados então divulgados pela polícia, desde o final de 2009 e até meados de 2011, a taxa de suicídios na Grécia aumentou 20%. “As razões financeiras são as mais referidas”, acrescentou um psicólogo da linha de emergência e de apoio a potenciais suicidas.

 20 de Junho de 2012. Antonis Samaras, da Nova Democracia, de centro-direita, torna-se primeiro-ministro da Grécia na sequência das eleições de Maio. Samaras é obrigado a procurar uma coligação já que não obteve a maioria nas urnas. A Nova Democracia ganhou as eleições com apenas 18% dos votos – contra os anteriores 33,5% – e Alexis Tsipras foi a surpresa: o Syriza foi o segundo partido mais votado, com 16,78% dos votos. Tsipras recusou então participar num governo que prometia continuar com o caminho da austeridade. Já a extrema-direita, pela mão da Aurora Dourada, assegurou 7% dos votos. O eleitorado grego começava a evidenciar sinais de grande desgaste para com os partidos do “arco da governação” e começava a fugir destes. Também os Gregos Independentes, partido conservador de direita, angariou 10,6% dos votos. Sobre a hipótese de se coligarem com Samaras estes afirmaram:  “São ‘yes men’ que assinam qualquer coisa que a Merkel e o seu ministro das Finanças lhes metam à frente.”

 “No fundo, o grito das urnas é uma última reacção antes de se empurrarem as desesperadas e destruídas famílias da classe média para reacções mais violentas”, analisava sobre os resultados das eleições o diário “Kathimerini”.

 26 de Julho de 2012. Mario Draghi, já presidente do Banco Central Europeu, promete “fazer tudo o que for preciso” para defender a moeda única. “Acreditem, vai ser suficiente”, assegurou também. Os juros sobre a dívida pública de Espanha, Portugal ou Grécia começam a corrigir em baixa dada a promessa de “Super Mario”.

 26 de Setembro de 2012. Os cortes e as rondas de austeridade pontuais iam, no entanto, continuando a ser uma realidade no dia-a-dia dos gregos. Por esta altura negociavam-se cortes avaliados em mais 11,5 mil milhões de euros para 2013 e 2014.  Este viria a ser o sexto pacote de austeridade que um governo grego aprovaria em três anos: serviu para recapitalizar a banca, impor mais reformas laborais e novos aumentos fiscais. O copo de água transbordou.

 Nesta noite, depois da greve geral durante o dia, cerca de 200 mil gregos juntaram-se numa manifestação no centro de Atenas que resultou em violentos conflitos com as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogéneo aos cocktails molotov de alguns manifestantes. Os governantes gregos exigiram que fosse montada uma barreira à prova de bala à volta do Parlamento.

 27 de Novembro de 2012. “Um período muito cinzento e negro para os gregos está definitivamente fechado.” A promessa foi de Antonis Samaras, na sequência do desbloqueio de mais um dos inúmeros impasses da situação da Grécia. Os credores internacionais não queriam libertar uma tranche do empréstimo prometido a Atenas e após meses de reuniões, discussões e conversas mais ou menos secretas, a tranche acabou por avançar, com os credores a permitirem uma nova redução na dívida grega, agora de 40 mil milhões de euros, a troco de um novo programa de reformas.

 Contra o optimismo de Samaras, o cepticismo de Tsipras em relação a mais este programa: “Não inclui qualquer plano viável para o crescimento e desenvolvimento da Grécia  e é por isso que isto não é acordo nenhum”, comentava o então líder da oposição, manifestando que a única saída para a Grécia era cortar com as políticas de austeridade que a levaram para a espiral do suicídio económico. No final de 2012, o desemprego estava nos 25,5% e o PIB contraiu mais 6,6% ao longo do ano.

 5 de Junho de 2013. Numa postura que teve mais de limpeza de consciência do que de rectificação das medidas, o FMI admitiu ter cometido “sérios erros” na gestão da crise grega, num relatório que chegou às mãos do “Wall Street Journal”. Segundo a avaliação feita pelo próprio FMI ao seu trabalho, a organização reconheceu que subestimou o impacto que a austeridade iria ter no país, que foi obrigado a recorrer a dois resgates em três anos.

 No final do ano, o desemprego na Grécia chegava a 27,6% da população activa e o PIB tinha contraído mais 3,9%.

 9 de Abril de 2014. Foi neste dia que Atenas regressou aos mercados. Lá como cá, o dia foi visto como um enorme sucesso. O governo aceitou um juro de 5% por uma emissão a cinco anos. Contra os que clamaram sucesso, outros lembraram a importância da promessa de Mario Draghi de “tudo fazer” para salvar a moeda única.

 29 de Dezembro de 2014. O fracasso das tentativas do governo grego em eleger um novo Presidente leva à marcação de eleições antecipadas para 25 de Janeiro. As sondagens já há muito que apontam para uma vitória do Syriza e a marcação do acto eleitoral leva a bolsa de Atenas a cair 10%. “Dentro de alguns dias, o governo de Samaras, que pilhou o país, vai pertencer ao passado, tal como o memorando da austeridade”, prometia então Alexis Tsipras.

No final de 2014, a economia grega acumulava uma contracção do PIB de 28,4% desde 2009 – incluindo já o crescimento de 0,8% conseguido em 2014. Já o desemprego estava nos 26,2%.

25 de Janeiro de 2015. As eleições confirmam o que já se antecipava: o Syriza ganha as eleições e a Europa entra em pânico, rotulando de imediato o partido anti-austeridade como de “perigosos radicais”. Tsipras consegue 149 dos 300 lugares no Parlamento. “O povo grego, soberano, atribuiu hoje um mandato claro, indiscutível e forte. A Grécia virou uma página e vai deixar para trás a austeridade destrutiva, o medo e o autoritarismo”, prometeu o líder do Syriza.

2 de Março de 2015. O governo do Syriza herda um calendário incomportável de pagamentos de dívida: 3,8 mil milhões em Maio, quase sete mil milhões em Junho e mais de 14 mil milhões em Julho… O governo grego é obrigado a solicitar uma extensão do resgate por mais quatro meses para tentar ganhar tempo, tendo para isso que se comprometer com as medidas assinadas pelos governos anteriores. Mais uma vez, o bloqueio de tranches dos empréstimos já prometidos à Grécia foram usados como forma de pressão.  

24-30 de Junho de 2015. E desta forma chegamos ao ponto actual: Ainda a contas com uma montanha intransponível de dívidas deixadas pelos acordos e empréstimos aceites pelos governos anteriores, a Grécia tem uma tranche do empréstimo internacional bloqueada, tranche essa que lhe permitiria pagar os 1,6 mil milhões que tem que saldar junto do FMI até 30 de Junho. Para obter esta verba, os credores internacionais têm tentado convencer Atenas a avançar com um novo programa de austeridade, o que obriga Tsipras a ter que ceder face ao seu programa eleitoral: apresentou uma proposta de cortes e subidas de impostos de oito mil milhões de euros que, todavia, foi considerada insuficiente pelos credores.

Para a frente. Mesmo que o acordo entre a Grécia e os credores avance, o Syriza tinha ainda que enfrentar o seu próprio Parlamento, onde muitos deputados já tinham prometido votar contra as medidas em negociação e que têm vindo a ser noticiadas. Terá sido esta a razão que levou Alexis Tsipras a decidir-se por levar as propostas e medidas de austeridade a referendo, já que o primeiro-ministro não sente que tenha um mandato que lhe permita concordar e validar mais austeridade.

Em: ionline, 27 Junho 2015

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