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Mrs. President e First Gentleman. A barba e o ataque às desigualdades

“Os yankees resolveram, para contrariar a epidemia da emancipação feminina, praticar um feito nitidamente viril, em que as mulheres não nos podem igualar – deixar crescer as barbas!” A culpa era das modernices do pós-Grande Guerra. Numa madrugada de Maio de 1925, um polícia prendeu “uma linda rapariga” em Lisboa. Porquê? “Porque andava na rua vestida de homem.” Era uma “descarada senhora” que se cruzou com “um polícia arredio das expressões modernas e torpes desta civilização pós-guerra”. É que, conforme explica o repórter do “Diário de Lisboa” de 7 de Maio de 1925, “inda que tal pese a todas as Cruzadas de Mulheres e Associações de Sufragistas do mundo inteiro, somos contra certas emancipações femininas. Safa! (…) Já lhes não basta a dactilografia, a advocacia, a medicina, os diversos e diferentes empregos liberais ou não liberais (…). Como se já não tivessem bastante, para que mais proveitosa lhes seja a concorrência resolveram suprimir o resto – a saia! E ficar em calças!”

A estratégia dos yankees de 1925, de deixar crescer as barbas para não serem igualados pelas mulheres, parece ter surtido algum efeito e só agora, 90 anos depois, é que os “yankees” mais modernos são confrontados com a real possibilidade de ter uma mulher a liderar os destinos da nação. E quanto a Bill Clinton? Irá deixar crescer a barba?

O ex-presidente norte-americano poderá vir a ser o primeiro marido da primeira presidente da história dos EUA, algo que a nível mundial está longe de ser caso único, ainda que pouco frequente – como se pode ver pelos casos mais actuais e emblemáticos citados nos textos à direita. Mas Bill Clinton será sobretudo – e durante muito mas muito tempo – o único ex-presidente a seguir carreira como primeira-dama. E este cargo de “First Lady” é, em si, sintomático: não só pelo nome em si como pela falta de responsabilidades executivas, tendo como principal “job description” servir de anfitriã e organizar a vida social e cerimonial da Casa Branca, podendo também envolver-se em causas sociais – mas não polémicas. Para lidar com as suas tarefas tem um staff próprio, incluindo uma “Chief Floral Designer”, por exemplo. Mas o mais provável é que Clinton renuncie ao “cargo”, já que o mesmo não é obrigatório: a própria Hillary, já a trilhar o seu caminho político específico, “abdicou” a favor da filha, Chelsea, durante parte da presidência do marido. A filha do casal pode, assim, dar por si “reconduzida no cargo”. “Aposição é tradicionalmente ocupada pela mulher do presidente mas, historicamente, se não é casado ou se a mulher está incapacitada, o presidente pode convidar uma familiar ou amiga a ocupar a posição”, lê-se na descrição do cargo. Mas tudo isto é apenas um detalhe num mundo marcado pelas desigualdades de género e tantas outras.

Achegada de uma mulher ao mais alto cargo da hierarquia política de um país traz consigo, desde logo, a vantagem de chamar a atenção para as diferenças que se fazem sentir, nesse mesmo país, nas posições ocupadas por mulheres e homens. Os Estados Unidos não são excepção: as mulheres estão sub-representadas na política – 18% dos lugares do Congresso são ocupados por mulheres –; os seus salários médios são 81% da média dos vencimentos dos homens, num fosso que está a crescer desde meados de 1980; e apenas 5% das 500 empresas do Fortune 500 são lideradas por mulheres, só para citar alguns exemplos. Será que a chegada de uma mulher à liderança do país é suficiente para inverter práticas enraizadas nas sociedades há séculos?

A resposta mais imediata é um não.A evolução social é algo que se faz muito lentamente, quando se faz. Que o digam os afro-americanos. Com a presidência de Barack Obama já na recta final, continuam não só a suceder-se os casos de mortes, agressões e exageros policiais dirigidos a afro-americanos, algo recorrente no país já há largas décadas, como se mantiveram ou agravaram desigualdades de rendimentos ou de acesso à educação entre brancos, negros e hispânicos, por exemplo. Segundo o Institute on Assets and Social Policy, as famílias brancas dos EUA acumulam, em média, um património de 113 mil dólares; já as latinas ficam-se por 6300 dólares, e as afro-americanas não mais de 5700. Isto num país já desigual como um todo:1% acumulam 37% da riqueza.

First Gentlemen

Denis Thatcher. Ex-militar da II GM e financiador da Dama de Ferro

“Esposo da primeira-ministra do Reino Unido, de 1979 a 1990.” Denis Thatcher foi combatente na Segunda Guerra Mundial, tendo-lhe o conflito dado não apenas várias distinções militares, mas também via aberta para entrar na vida da Dama de Ferro. Casou-se antes de partir para os mares, em 1941, mas quando foi desmobilizado, em 1946, a mulher já estava… noutro. Odivórcio avançou em 48 e, em Fevereiro de 49, Denis conheceu Margaret Roberts, então investigadora em química e candidata ao Parlamento. Casaram-se em 51, já Dennis era empresário de sucesso, tendo financiado a formação de Mrs. Thatcher como advogada de barra junto de tribunais superiores. Mais do que isso, apoiou-a antes, durante e depois dos mandatos: “Nunca teria conseguido sem ele ao meu lado”, confessou Margaret.

Joachim Sauer. Oquímico amante de Wagner e que foge do público

Angela Merkel tem um percurso amoroso engraçado: primeiro vem a física, depois a química. Ou como quem diz:primeiro casou com Ulrich, estudante de Física, de quem se divorciou em 1982. Já em segundas núpcias, foi a vez de um professor de QuímicaQuântica. Do primeiro casamento ficou apenas o apelido:Merkel, que não era de Angela, mas sim de Ulrich. Já Sauer dá aulas de Química na Universidade de Berlim e tem dois filhos de um casamento anterior. Não gosta da exposição pública inerente ao facto de ser o marido da chanceler alemã, fugindo, aliás, do cargo. Não marcou presença na tomada de posse, que seguiu pela televisão, e só aparece com Angela em eventos públicos quando estes são do seu agrado, ou seja, ópera e Wagner. De resto, só fala publicamente sobre química.

Stephen Kinnock. O galês de Helle e do Fórum Económico Mundial

Helle Thorning-Schmidt é primeira-ministra da Dinamarca desde Outubro de 2011 e lidera os sociais-democratas do país desde 2005. Foi a primeira mulher a chegar a qualquer um destes cargos. Desde 1996 que é casada com Stephen Kinnock, britânico nascido em Gales. Kinnock foi assistente do Parlamento Europeu e, em seguida, diplomata britânico, primeiro em Bruxelas e depois na Serra Leoa. Foi nomeado para o Fórum Económico Mundial em Genebra já em 2009, sendo o director da instituição para a Europa e Ásia Central. A sua carreira continua em evolução, sendo já um dos candidatos do Labour para o Parlamento. O casal tem duas filhas e a vida a que são obrigados já deu origem a críticas dos mais tradicionalistas:ela vive em Copenhaga com as filhas, ele na Suíça. Um casal, duas carreiras políticas. Não é fácil.

in: Jornal i, 16 Abril 2015

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