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O 25 de Abril, hora a hora, explicado por Salgueiro Maia

Relatorio de missao 25abril

23 de Abril

23h30

“Fui informado pelos TEN. CAVª Santos Silva e Sardinha que um contacto do movimento se encontrava na Pastelaria Bijou, tendo-me deslocado ao referido local encontrar o Sr. Capitão CAVª Valente e ADM. MIL. Torres que conduzi ao meu carro (…). Nessa altura recebi a Ordem de operações assim como outras directivas. Durante o espaço de tempo que durou o contacto, fui vigiado e posteriormente seguido por 2 homens que se deslocavam num Toyota Colora novo, de cor amarela e matrícula LA – 90 – 83.”

24 de Abril

Pela manhã

“Foram contactados os primeiros Furriéis Mils. visto que a ideia de manobra era só de conhecimento de cerca de 6 oficiais do Q. P. e 3 oficiais Mils. Os Furriéis contactados mostraram-se totalmente colaborantes”

Até às 21h30

“Como a escola estava vigiada pela D.G.S. e afim de não se notar algo diferente no movimento normal os Graduados aliciados entraram no Quartel à civil e individualmente até ao fechar da Porta de Armas pelas 21h30, dirigindo-se imediatamente aos quartos onde se combinaram em pormenor as operações a desenrolar e o dispositivo a adoptar ao mesmo tempo que escutavam as Emissões dos EAL. e Rádio Renascença afim de ouvir o sinal de execução”

00h45:

“Pelas 00h45 o Exmo. Major CAVª Costa Ferreira, Capitães CAVª Garcia Correia, Bernardo e Aguiar tentaram aliciar o 2º comandante da E.P.C., Ten. Cor. Sanches, único Oficial superior que permanecia no Quartel. Posteriormente foram ao Gabinete todos os Oficiais para informar que o apoio ao Movimento era total, mas não houve adesão do 2º Comandante”.

01h30:

“Deu-se ordem para acordar todo o pessoal e formarem na Parada onde cada Comandante de Esquadrão pôs ao corrente a situação o pessoal sob as suas ordens e da parte destes a adesão foi total, ao ponto de a quase totalidade quererem marchar sobre Lisboa”

03h30:

Saíu-se da E.P.C com destino ao Terreiro do Paço

05h30:
“No itinerário para o Terreiro do Paço passamos por viaturas da Polícia Segurança Pública no Campo Grande e Polícia de Choque na Av. Fontes Pereira de Melo. As referidas forças não se manifestaram”
“Na altura da entrada em dispositivo no Terreiro do Paço a P.S.P. que cercava a zona não interferiu na nossa acção e colaborou no isolar da mesma para com a população. Ao mesmo tempo entrava na zona um pelotão reforçado AML/Chaimite do R.C. 7 comandado pelo Alferes Milº. David e Silva que aderiu imediatamente ao Movimento.”

07h00:
“Pelas 07h00 da manhã surgiu do lado da Ribeira das Naus um Pelotão de Rec. Panhard do R.C.7 comandada pelo Ex.mo Ten.Cor Ferraud de Almeida que posto perante o dilema de ter que disparar ou se render optou pelo segundo”

“Pouco depois surgiram forças da G.N.R. do lado do Campo das Cebolas. Tendo chegado à fala com o Comando destas forças aconselhei-o a abandonar a zona visto não ter potencial para se bater comigo, no que fui obedecido pouco depois de ocupar posições na zona apresentou-se-me às ordens”

09h00:
“Foi pedido um reforço pelo B.C. 5 para o Q.G./RML pelo qual eu mandei seguir para o local uma AML e uma ETT comandadas respectivamente pelo Alferes Graduado de Cavalaria Marcelino e Asp. Milº Cavª Ricciardi, chegados ao Q.G. a força apresentou-se ao Sr. Cap. Inf. Bicho Beatriz CMDT da C.C.A.C. que ocupava a zona.

Depois das 09h00
Começou a circular na nossa frente a fragata F-743. Dei ordem para que o 1º Oficial Superior da Marinha que chegasse junto ao cerco fosse conduzido à minha presença. Tendo-me surgido um Oficial Superior da Marinha cuja identificação não recordo pu-lo ao corrente da situação pois necessitava de saber se devia abrir fogo contra o barco ou não pois que isso obrigava a alterar o dispositivo e a colocar as EBR em frente ao referido barco; O Oficial da Marina declarou-me que ia saber o que se passava e posteriormente fui informado de que o barco se encontrava ali por ordem do Governo mas que não disparava contra nós”

10h00:

Pelas 10h00 surgiu uma força comandada pelo Brigadeiro Junqueira Reis e constituída por 4 C.C.M/47,1 Companhia de Caç. do R.I.1 e alguns pelotões de PM. O referido Brigadeiro dividiu as suas forças em 2 núcleos que progrediam respectivamente pela Rua Ribeira das Naus e Rua do Arsenal.

(…). Tentei dialogar com o referido Brigadeiro no lado da Ribeira das Naus mas o mesmo exigia que eu fosse ter com ele atrás das forças que comandava e eu que ele viesse a meio do espaço que nos separava. Ordenou ao Alferes Milº. de Cavª Souto Mayor para abrir fogo sobre mim com as peças do CC M/47 mas não foi obedecido tendo de imediato ordenado a prisão do referido Oficial declarando-lhe que: “você já estragou a sua vida”. Deu ordem aos apontadores das CC M/47 e aos atiradores que progrediam atrás dos Blindados também para abrir fogo, mas não foi obedecido nesta altura o referido Oficial General disparou alguns tiros para o ar tentando que as NT lhes respondessem. Não houve troca de tiros. (…) Logo que o Major Pato Anselmo se rendeu mandou-se voltar as torres dos CC M/47 e avançar na nossa direcção no que fomos obedecidos”

“Na rua do Arsenal [segundo núcleo das forças do Brigadeiro Junqueira Reis] as negociações foram feitas pelos Tens. Cavª. Santos Silva e Assunção e Furriel Milº Cavª J. Nunes do RC 7 que se tinha passado para o nosso lado. O furriel milº J. Nunes iniciou um movimento até junto dos CC M/47 afim de informar o Brigadeiro Reis de que devia vir a meio caminho estabelecer conversações. Tendo andado cerca de 5 metros precedido pelo Ten. Cavª Santos Silva o Brigadeiro Reis abriu fogo na nossa direcção pelo que ambos se viram na contingência de ocupar as anteriores posições de defesa.

“O Ten. Cavª Assunção alheio aos incidentes verificados dirigiu-se à Rua do Arsenal e procurou entabular conversações tendo-se dirigido ao outro lado pedindo a vinda ao meio do caminho do Brig. Reis o que não lhe foi concedido, prosseguindo por isso até junto dos CC M/47. Nessa altura o Brig. Reis mandou abrir fogo sobre o Ten. Cavª Assunção não tendo sido obedecido pelos soldados tendo-se o Ex.mo Cor. Romeiras interposto entre as armas e o referido Tenente aconselhando calma ao Brig. Reis que nessa altura agrediu o Ten. Assunção com 3 murros. Devido ao insucesso das conversações o Ten Assunção voltou às suas linhas.”

10h00:
“Pelas 10h00 surgiu um grupo de Comandos comandado pelo Exm.º Major Neves levando sob as suas ordens vários oficiais, alguns dos quais à civil. Major Neves entrou no Ministério a fim de prender os Ministros e passou revista aos mesmos. Também por esta altura surgiu o Exmoº Ten. Cor. Cavª Correia de Campos que passou a comandar as operações no Terreiro do Paço”

“Tendo-se constatado a fuga dos Ministros e a não existência da zona ocupada de objectivos remuneradores o Exmº Coronel Correia de Campos propôs ao P. C. a escolha de outros objectivos no que foi atendido. Propus a divisão do nosso efectivo em duas forças, sendo uma formada pelo pessoal da E. P. C. e a outras pelos aderentes RC 7, RL 2 e RI 1(…) tendo-se estes dirigido para o Q.G. da Legião Portuguesa na Penha de França. A minha coluna progrediu pela Rua Augusta em direcção ao Rossio sendo aclamada em apoteose pela população durante todo o trajecto”

12h30:
“Pelo meio dia e trinta cerquei o quartel da G.N.R. do Carmo. Foi bastante importante o apoio dado pela população no realizar destas operações pois que além de me indicarem todos os locais que dominavam o quartel e as portas de saída deste, abriram portas, varandas e acessos a telhados para que a nossa posição fosse mais dominante e eficaz. Também nesta altura começaram a surgir populares com alimentos e comida que distribuíram pelos soldados”

“Pouco depois populares vieram-me informar que estávamos a ser cercados por 2 companhias da G.N.R. e outra da polícia de choque, como não tinham viaturas blindadas não me preocupei com o assunto. Posteriormente fui informado que o Brigadeiro Junqueira dos Reis comandando viaturas blindadas e outra companhia do RI 1 se encontrava também a cercar as N.T. Pelas 14h00 surgiu-me um sargento do RI 1 a dizer que o pessoal se encontrava disposto a passar para o nosso lado”

“Para complicar mais a situação das tropas fiéis ao Governo surgiu um esquadrão do RC 3 comandado pelo Capº Cavª Ferreira que cercou o que restava das tropas do Brig. J. Reis. Entretanto recebi ordem para obrigar à rendição do Quartel do Carmo. A ordem foi escrita pelo Exm.º Major Otelo Saraiva de Carvalho e dizia:

“Tentámos fazer um ultimato ao QG/GNR para entrega do Presidente do Conselho sem grandes resultados. Os tipos desligam o telefone ou retardam a chamada dizendo que vão ver se as pessoas estão.
Com o megafone tenta entrar em comunicações e fazer um aviso – ultimato para a rendição. Eu já ameacei o Cor. Ferrari mas ele parece não ter acreditado. Com auto metralhadora rebenta fechaduras do portão para verem que é a sério. Julgo que não reagirão. Felicidades. Um Abraço.
OTELO”

15h00:
“Pelas 15h10 com megafone solicitei a rendição do Carmo em 10 minutos. Como não fui atendido passados que foram 15 minutos ordenei ao Ten. Cavª Santos Silva para fazer uma rajada da torre da Chaimite que comandava sobre as mais altas janelas do Quartel do Carmo”

“(…) quando já tinha perdido as esperanças de resolver o problema sem utilização de armas pesadas, surgiram 2 civis com credencial de Sua Exª o General António Spínola que entraram no Quartel para dialogar com o Presidente do Conselho. Demoraram cerca de 15 minutos e saíram dizendo-me que se tinham de dirigir à residência do referido oficial General”

“Entretanto desloquei-me ao Quartel onde verifiquei que a disposição do pessoal era de se render. Falei cerca a de 15 minutos com o General Comandante do QG da GNR e outros oficiais superiores. Pedi audiência ao Prof. Marcello Caetano no que fui atendido. A conversa decorreu a sós e com grande dignidade. Nela o Professor Caetano solicitou que um oficial General fosse receber a transmissão de poderes para que o Governo não caísse na rua”

15h00:

“Na Rua António Maria Cardoso pelas 15h00 agentes da DGS instalados na sede abriram fogo sobre a multidão que se aglomerava na referida rua tendo causado 1 morto e 2 feridos que foram transportados nas nossas ambulâncias”

18h00:
“Pelas 18h00 chegou ao Quartel do Carmo Sua Ex.ª o General António de Spínola acompanhado pelo Ten. Cavª Dias de Lima. Entretanto havia viaturas com combustível quase esgotado e necessidade de óleo para os motores e sistemas hidráulicos. O Senhor José Francisco, agente comercial – morador na Rua Serpa Pinto, nº 8 – 5º Esq – Odivelas, que desde os primeiros momentos se colocara à disposição das NT (…) orientou uma viatura nossa no deslocamento até à zona da estação de Santa Apolónia onde em estações de serviço requisitamos combustível e os óleos necessários”

19h00:
“Pelas 19h00 levantámos cerco ao Carmo para nos dirigirmos ao Quartel da Pontinha tendo ficado na zona somente as forças do RI 1. O Professor Caetano e os outros elementos do Governo, foram conduzidos na auto metralhadora Chaimite ‘BULA’, que ao mesmo tempo deu escolta à viatura civil onde se deslocava Sua Exª o General Spínola também em direcção à Pontinha”

21h00:
“Pelas 21h00 atingimos a Pontinha e por não ter instalações disponíveis tivemos que nos deslocar para o Colégio Militar”

22h00:
“Comandando 6 viaturas blindadas segui para o RL 2 às ordens do Exmº Major de Cavª Monge com vista à rendição dos RL 2 e RC 7 e prisão dos respectivos Comandantes. Esta acção terminou pelas 01h30 horas do dia 26 de Abril de 1974”

D+1

05h00:
“Pelas 05h00 o Ten. Cavª Santos Silva deslocou-se para a Rua do Alecrim a fim de cercar o comando da DGS tendo regressado pelas 19h00”

08h30:
“Seguimos em patrulhamento para o centro da cidade”

11h30:
“Tomámos conta do edifício da Defesa Nacional a fim de garantir a segurança das individualidades que lá foram tomar posse”

19h00:

“Recolhemos ao RC 7 pelas 19h00 e durante todo o tempo em que estivemos na Cova da Moura foi extraordinário o apoio da população às nossas tropas ao ponto de no prédio em frente à Defesa Nacional várias Senhoras terem cozinhado o almoço para todo o pessoal”

D+2

09h30:
“Pelas 09h30 efectuámos um patrulhamento pelo centro da cidade que se encontrava calma tendo regressado cerca das 12h00 horas; para voltar a sair pelas 14h00 a fim de escoltar os arquivos existentes na Escola Prática da DGS”

19h00:

“Às 19h00 chegou ao RC pessoal sob o comando do Cap.º Cav.ª Cadavez a fim de substituir todo aquele que se encontrava sob o meu comando, substituindo o mesmo nas 4 guarnições das 4 viaturas blindadas que continuaram no RC 7”

20h00:
“Pelas 20h00 regressei com as 3 EBR, uma ET e o pessoal rendido tendo chegado a Santarém às 22h30”

in: Jornal i, 25 Abril 2014

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