Saltar para o conteúdo

Exportações. O “porta-aviões” de Portas pode ser mais um submarino sem rumo definido

FMI não confia na sustentabilidade das exportações, mas mesmo assim continua a prever generosos crescimentos anuais das vendas ao exterior para justificar austeridade
O governo só fala em exportações, contudo, numa balança comercial há outra rubrica a ter em atenção: as importações. É o bê-á-bá do comércio e da economia e foi ontem explicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) a Passos Coelho e companhia. A esta lição junta-se uma segunda: mais do que quanto vendemos, convém saber o que vendemos e a capacidade de continuar a vender esses bens. Ontem, no relatório sobre a 10.a avaliação do ajustamento português, aquilo que Paulo Portas rotulou como um porta-aviões foi mais retratado pelo FMI como um submarino que pode não ter rumo definido e se move a fumos de combustível.
A começar pelas importações. Tal como o i avançou na edição de 11 de Fevereiro, apesar do bom comportamento das exportações em 2013, que ficaram em linha com as previsões do executivo, Portugal falhou redondamente o objectivo global: para o governo, a balança comercial portuguesa em 2013 deveria ter melhorado 3080 milhões de euros mas ficou 1450 milhões de euros aquém desse objectivo. O que correu mal? As importações, que segundo as previsões deviam ter caído 1,7% mas acabaram por crescer 0,8%, impedindo a melhoria prevista por Passos – e complicando a tarefa de cumprir os objectivos da troika, salva pelo excesso de receita no IRS.
Este é mesmo um dos maiores alertas que o FMI deixou ontem ao governo, tentando conter a euforia de quem só olha para um lado da balança. É que convém sublinhar que as importações portuguesas estão a níveis historicamente baixos e, diz o Fundo, tarde ou cedo irão voltar aos níveis anteriores, o que porá em causa de forma mais evidente os ganhos do lado das exportações, sobretudo “quando as importações recuperarem destes níveis anormalmente baixos e pouco usuais”. É que “o ajustamento externo tem sido conseguido, em larga parte, devido à compressão das importações de bens que não sejam combustíveis”, pelo que o esforço do lado das exportações poderá ser anulado pela recuperação das importações – o FMI prevê que as compras ao exterior cresçam 3%já este ano, chegando aos 4,4% em 2016 e continuando a subir nos anos seguintes.
Também a “qualidade” das vendas ao exterior portuguesas foram postas em causa pelo Fundo Monetário Internacional ontem. “Esta dependência da compressão das importações de bens que não combustíveis e das exportações de combustíveis arrisca minar os ganhos conseguidos até à data quando as importações recuperarem dos níveis anormalmente baixos e quando as refinarias atingirem a sua capacidade produtiva máxima, ao passo que a melhoria na balança de serviços é vulnerável a choques e à procura turística. Por exemplo, o aumento das exportações de serviços para França (2,5%) pode reflectir a opção dos turistas franceses de vir a Portugal e não ao Magrebe, e isso poderá mudar.”
As vendas de combustíveis para fora têm sido o principal motor das exportações portuguesas, com um crescimento médio de 5%, que contrasta com as subidas de 1,5% nos restantes bens. Aliás, e segundo contas do “Negócios”, sem contabilizar os combustíveis, o saldo comercial português teria estagnado em 2013 em relação a 2012.
Uma das formas de evitar todas estas preocupações passa pela continuação do empobrecimento dos residentes em Portugal, obrigando-os dessa forma a comprar cada vez menos – reduzindo as importações à força. A passagem a “permanentes” das medidas “temporárias”  é uma das formas de garantir isso. Aliás, o FMI vai mais longe neste campo e até mostra aos portugueses o futuro que este caminho lhes guarda: “Tanto o consumo público como privado terão de se ajustar a uma nova normalidade em níveis mais baixos, ao mesmo tempo que se cria espaço para o investimento privado recuperar e eventualmente aumentar o potencial de crescimento.”
Faz o que prevejo, não o que digo. Apesar das preocupações manifestadas pelo FMI em relação à sustentabilidade do crescimento das exportações, os técnicos do Fundo continuam a justificar o programa de austeridade com previsões de fortes crescimentos anuais das vendas de Portugal ao exterior nos próximos anos. Em 2014 e até 2019, estima o FMI, as exportações vão continuar a subir mais de 5%ao ano, isto depois dos crescimentos fortes registados desde pelo menos 2009. Assim, e apesar dos alertas do FMI quanto ao nível das exportações, o próprio FMI deixou as previsões para esta rubrica inalteradas.
in: Jornal i, 20 Fevereiro 2013

Comentar

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: