O Banco de Portugal (BdP) divulgou ontem as mais recentes previsões para a economia portuguesa, trazendo no seu Boletim de Inverno um conjunto de estimativas que terão agradado ao governo, incluindo um salto de 0,8% no produto interno bruto (PIB) no próximo ano, contra os 0,3% que previa anteriormente. Já para este ano, a contracção deverá ficar–se pelos 1,5%.
Em relação a 2015, exercício pela primeira vez considerado pelo Banco de Portugal nas suas perspectivas, é antecipado um crescimento de 1,3% do PIB, ainda que, assume o banco central, esta é uma previsão feita num cenário em que não haverá mais austeridade naquele ano.
Também a melhoria das previsões para o corrente e para o próximo ano surge com alguns detalhes de salientar: é que, segundo o Boletim Económico divulgado, há mais de 50% de probabilidades de o consumo privado, as exportações, as importações ou o investimento não correrem como o BdP antecipa em 2014. “Esta quantificação determina riscos de uma evolução menos favorável da actividade económica em 2014 e 2015, resultante do impacto dos factores de risco considerados, em particular no que diz respeito ao consumo privado e exportações”, as duas principais componentes do crescimento esperado, assume o Banco de Portugal.
Em relação aos rendimentos dos portugueses, o próximo ano ainda não será de boas notícias, segundo o BdP. “A manutenção de condições relativamente desfavoráveis no mercado de trabalho, que implicarão um quadro de moderação salarial, deverá também condicionar a evolução das remunerações no sector privado”, lê-se no boletim. E, apesar de o banco central levantar a hipótese de haver perspectivas para uma evolução positiva no rendimento dos portugueses em 2015, estas surgem bastante condicionadas. É que, se o BdP refere que “para 2015, antecipa-se uma recuperação moderada do rendimento disponível real, em linha com alguma melhoria da situação no mercado de trabalho”, tal só se aplica no caso da “hipótese técnica de ausência de medidas adicionais de consolidação orçamental”. Algo difícil de ocorrer, até porque é o próprio banco central que acha difícil que o país viva nos próximos anos sem austeridade: “O processo de ajustamento deverá assumir uma natureza permanente, não só no que se refere à trajectória de consolidação orçamental de médio prazo, mas também ao conjunto de reformas estruturais em curso.”
Quanto à capacidade de a economia portuguesa começar a criar empregos, o banco central salienta que é durante 2014 que a destruição de postos de trabalho deverá começar a dar a volta, depois de mais 134 mil empregos suprimidos ao longo deste ano. Contudo, Portugal vai demorar muitos anos a chegar a níveis de 2008: em 2014, e no cenário em que nenhum risco se concretize, a economia deverá aumentar o total de empregos em 22 mil, repetindo o valor em 2015. Ou seja, dentro de dois anos, Portugal terá uma oferta global de 4,54 milhões de postos de trabalho contra os 5,2 milhões que existiam em 2008 – entre 2011 e 2015, o total de empregos no país terá recuado 8%, menos 350 mil postos de trabalho.
Recuperação As previsões do Banco de Portugal colocam a responsabilidade da recuperação da economia portuguesa na retoma do consumo das famílias e nas exportações. O consumo privado, depois de uma queda acumulada de 6% entre 2011 e 2013, deverá timidamente dar sinais de alguma vitalidade, com um crescimento de 0,3% em 2014 e de 0,7% no ano seguinte. Porém, também isto depende do menu de austeridade que o governo irá ainda elaborar: “A projecção para a economia portuguesa engloba um perfil de progressiva recuperação da procura interna, condicionada pela continuação do processo de consolidação orçamental e de desalavancagem do sector privado”, refere o relatório do Banco de Portugal.
A recuperação do consumo das famílias já tem sustentado grande parte da evolução do PIB deste ano, levando, aliás, a que o BdP melhorasse a contracção prevista em 2013 de 2% para 1,5%. No terceiro trimestre deste ano, as famílias consumiram -1,2% que no período homólogo de 2012, a melhor evolução desde 2010.
Entre as previsões feitas agora pelo Banco de Portugal, destaca-se pela negativa o abrandamento previsto para as exportações que, ainda assim, continuam com a responsabilidade de serem o grande motor da economia portuguesa nos próximos anos, sendo-lhes exigido crescimentos anuais superiores a 5% entre 2013 e 2015. Em 2014, esta rubrica deverá crescer mais 5,5%, e depois 5,4% em 2015. “As projecções apontam para um crescimento robusto das exportações, traduzindo um perfil de aceleração da procura externa, a par de ganhos de quota de mercado progressivamente menores ao longo do horizonte de projecção”, diz o BdP que, no entanto, alerta que a evolução das exportações poderá ficar aquém do esperado, sobretudo se a conjuntura externa não melhorar tanto quanto se prevê.
Empresas lucram mais O Banco de Portugal salienta também no seu boletim que, ao contrário do que tem ocorrido com o rendimento das famílias, as empresas estão a conseguir aumentar as suas margens de lucro ao longo deste ano, culpa do esmagamento salarial. “Com efeito, o aumento moderado dos preços em 2013, em conjugação com a queda dos custos de trabalho unitário de trabalho no sector privado e do deflactor das importações excluindo bens energéticos, determina um aumento das margens de lucro unitárias das empresas, medidas pelo excedente bruto de exploração por unidade produzida.”
in: Jornal i, 11 Dezembro 2013