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Emprego. Já foram cortados dois milhões de salários desde 2011

Seis em cada 10 desempregados já não têm direito a qualquer apoio do Estado e dificilmente voltarão ao activo

São vários os traumas associados ao desemprego de longa duração (mais de 12 meses), uns mais imediatos que outros. É o próprio Banco de Portugal (BdP) que salienta alguns, referindo desde logo “o estigma social associado a longos períodos de desemprego”. A este junta-se o facto da protecção social do Estado abandonar estas pessoas à sua sorte – dos 886 mil desempregados registados no final do segundo trimestre, apenas 388 mil (43,9%) tinham direito a um apoio. Para completar o cocktail do desespero, e voltando ao Banco de Portugal, o regulador avançou ontem que quem está no desemprego há mais de 12 meses vê as probabilidade de regressar ao activo caírem a cada dia que passa: “Um aumento acentuado da duração do desemprego resulta em dificuldades acrescidas de empregabilidade” de todas as pessoas que caem nesta situação, lê-se no Boletim Económico – Outono 2013 (ver ao lado).

Do total de desempregados registados pelo INE em Junho, 62% estão nessa situação há mais de 12 meses, ou seja 550 mil homens e mulheres, um universo de profissionais que dificilmente regressará ao mercado de trabalho e onde os poucos que o conseguirem terão “uma maior penalização salarial” face ao que já está a ocorrer em Portugal. “Não só devido à depreciação das competências profissionais (…) mas também porque os próprios salários de reserva tendem a diminuir com a duração do desemprego”, refere o BdP. “Esta depreciação do capital humano é especialmente relevante numa população com baixo nível médio de escolaridade e no contexto de reestruturação em curso na economia portuguesa”, atira ainda o supervisor financeiro, realçando que “o desemprego de longa duração continuou a crescer” no primeiro semestre do ano, situação especialmente grave nos casos do desemprego de muito longa duração (mais de 25 meses), que “continuou a crescer a taxas elevadas”. Neste último caso encontravam-se 310 mil profissionais no final de Junho.

Salários a pique Já ao nível dos residentes em Portugal com emprego, o cenário é também de deterioração. Segundo o BdP, “no período mais recente, em 2011 e 2012, observou-se um aumento da fracção de trabalhadores com reduções de remuneração, que ascendeu a 22,2% e 23%, respectivamente”. Um aumento “significativo na medida em que se reconhece que as reduções nominais da remuneração podem ter um impacto negativo na produtividade”, alerta. Considerando o total de trabalhadores com direito a salário registados no país, falamos de cerca de 1,1 milhões de empregados que viram os salários cortados em 2012 – a estes devem juntar-se o enorme rol de empregados pagos pelo mínimo legal que, por mais que as empresas queiram, não podem receber menos. Segundo os últimos dados, são mais de 600 mil os trabalhadores em Portugal a receber o salário mínimo (13% do total).

Ainda em relação às variações negativas dos salários note-se que segundo os valores avançados pelo Banco de Portugal, “em 2011 e 2012, 15,4% dos trabalhadores tiveram variações nulas nos dois anos e 39,4% teve pelo menos uma variação negativa”. Ou seja, mais de 1,8 milhões de trabalhadores viram os salários cair desde 2011. A “rotação de trabalhadores” – ou seja a troca avulso de empregados por outros mais baratos -, é uma das formas preferidas das empresas para forçar a baixa salarial, tendo usado um total de 776 mil trabalhadores neste esquema: “A remuneração média dos que entraram em 2012 foi mais baixa, em cerca de 110 euros, ou 11%, do que a remuneração média dos trabalhadores que cessaram contrato em 2011”, atira o BdP.

O esmagamento salarial que está a ocorrer neste momento em Portugal surge apesar do país já ser dos que salários mais baixos pratica em toda a UE: o salário médio em Portugal vale 55% do salário médio da UE27, ou seja, os 1078 euros brutos de média portuguesa são 1936 euros brutos na UE27.

in: Jornal i, 9 Outubro 2013

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