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Produtividade. Trabalhador português cada vez mais barato

Enquanto na Europa o custo médio de uma hora trabalhada subiu 1,9%, em Portugal o preço de uma hora de trabalho caiu 0,3%

É tudo uma questão de perspectiva na análise aos dados sobre a evolução da produtividade em Portugal ontem divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Do ponto de vista do governo, por exemplo, será sobretudo de realçar nos dados da OCDE que os custos unitários de trabalho em Portugal caíram 2,4%, sinal de um aumento da produtividade do trabalhador português no primeiro trimestre do ano, face ao último trimestre de 2012. Contudo, abrindo já a porta à outra perspectiva possível, é de referir que este aumento não ocorreu por um crescimento na motivação dos trabalhadores ou através da redução de burocracias e outros entraves existentes na economia, mas em parte graças à redução dos salários.

Segundo a OCDE, em apenas três meses os portugueses sofreram uma redução nas remunerações de 0,6%, isto já depois de na segunda metade de 2012 terem recuado 0,7%. Esta quebra, em conjunto com a subida de 1,9% na produtividade, levou à contracção total de 2,4% nos custos do trabalho em Portugal, a maior queda entre todos os países da OCDE.

As quebras nos salários pagos em Portugal, que as estatísticas evidenciam cada vez mais, foram uma das formas encontradas pelo governo e pela troika para obrigar os portugueses a reduzir o consumo, como forma de conter as importações, e aumentar a produtividade dos portugueses: não tanto porque a produção aumenta de facto mas porque simplesmente fica mais barata. Contudo, é de recordar que um trabalhador médio em Portugal ganha o equivalente a 55% do salário médio pago a um trabalhador da União Europeia a 27 países – 1078 euros brutos contra 1936 euros brutos -, sendo por isso difícil concluir que o problema da produtividade portuguesa esteja nos salários – ainda para mais quando o governo, por via de decisões políticas, aumenta o custo do trabalho através do aumento dos impostos sobre o mesmo. Aliás, salários médios inferiores aos portugueses só se encontravam em 2010 na Bulgária, Roménia, Lituânia, Letónia, Hungria, Eslováquia, Polónia, Estónia e República Checa.

Independentemente do que mostram os dados, o que é certo é que a recuperação da competitividade portuguesa aos olhos do governo e da troika passa pelo esmagamento dos custos do trabalho e, nesse aspecto, o programa de ajustamento está a ser um sucesso: um trabalhador em Portugal é cada vez mais barato. Contudo, também aqui há uma outra perspectiva a ter em conta. É que baixar salários que já são baixos tem obrigatoriamente repercussões na economia, provocando o que hoje se vê em Portugal: o aprofundamento da recessão, o que está a destruir todos os outros aspectos do ajustamento.

in: Jornal i, 21 Junho 2013

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