Mais que criar, é urgente salvar empregos

Com a entrega de 3 mil milhões de euros para salvar os balanços dos bancos fica arrumada 50% da liquidez que os contribuintes compraram aos fundos de pensões da banca. São 3 mil milhões que, na teoria do governo, vão libertar verbas nestas instituições para serem emprestadas às empresas. Assim, diz a mesma teoria, as boas empresas vão ter bons créditos para fazer bons investimentos e criar bons empregos. Na prática, isso dificilmente vai acontecer.

Os bancos vão refinanciar dívida própria ou dívida dos clientes (bons ou maus) mais em risco ou reforçar balanços. Assim, os 3 mil milhões (ou grande parte) ficam fechados no umbigo da finança. E quantos empregos vão ser criados? Talvez zero. Agora pensemos no custo de oportunidade de se ter dado este dinheiro à banca. Se os 3 mil milhões – à imagem do que foi feito na saúde – fossem usados para saldar dívidas que o Estado tem acumulado perante milhares de fornecedores, quantas empresas passariam de “à rasca” para “viáveis”? E quantas empresas poderiam cancelar/reduzir reestruturações? E quantas passariam a ter as contas em dia? E quantos milhares de empresas poriam esse dinheiro a circular saldando, por seu turno, dívidas com os seus fornecedores ou trabalhadores? E quantos desses trabalhadores saldariam dívidas que os asfixiam? E quanto consumo razoável não seria retomado? Quanto dinheiro chegaria aos portugueses para melhorarem a sua situação ou continuarem com um nível de vida razoável? Com tudo isto, quantos empregos seriam salvos? É importante que se fale em crescimento e criação de emprego, mas, vendo a dimensão da hemorragia actual – todos os dias morrem centenas de empregos –, a prioridade não deveria ser estancá-la? Ou vamos continuar a fingir que não há milhares e milhares de empresas em risco iminente de fechar e arrastar para o fundo milhares de trabalhadores (e as contas públicas)?

Está na hora de pensar em salvar empregos, porque sem essa sangria estancada será preciso muito mais tempo até conseguirmos um crescimento líquido de emprego.

in: Jornal i, 8 Março 2012

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