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Como ser freelance a tempo inteiro?

Muitos profissionais veem o trabalho freelance como o El Dorado do mercado laboral. Mas esta ideia está longe de ser uma realidade, pelo menos em Portugal. Ser freelancer exige resiliência, paciência e muita capacidade de gestão financeira. Descubra como é possível equilibrar a carteira, mesmo quando o orçamento é irregular.

In: Revista Montepio nº31, agosto 2019 Versão online aqui.

Se há tempo para a família, os clientes ou encomendas não abundam. Se há clientes e encomendas, pode não haver tempo para a família. Apesar do crescimento da Gig Economy – economia flexível que procura freelancers para funções qualificadas – o trabalho sem patrões ou colegas fixos continua a ser um desafio financeiro para milhares de profissionais portugueses. A gestão da liquidez, entre recebimentos voláteis e contas fixas, é possivelmente um dos maiores desafios que enfrenta um freelancer, um cenário que o empurra para um universo mais complexo que o do trabalhador por conta própria. Mais cedo ou mais tarde, o caráter solitário desta escolha levará os profissionais a acumularem competências de secretaria, direção
financeira, contabilidade, angariação de clientes ou cobrança de dívidas. A intermitência dos trabalhos e pagamentos, a incerteza do rendimento, o aumento de intermediários entre empresa e freelancer e um regime fiscal pesado e longe de oferecer níveis de proteção social comuns a outro tipo de trabalhadores são apenas algumas das dificuldades sentidas pelos freelancers. É aqui que entra outra competência imprescindível: a de psicólogo, essencial para gerir a sua própria ansiedade.

“Muitas vezes é mais uma questão de estar sujeito ao que aparece, sem grande poder de escolha. Até porque não chovem ofertas de trabalho a toda a hora na minha área e neste mercado”, confessa Miguel Aragão, 41 anos e quatro como copywriter de publicidade em regime freelance.

Em Portugal, o trabalho freelance ainda está longe da dimensão de países como Estados Unidos, Inglaterra ou Índia. De acordo com um levantamento do Instituto Nacional de Estatística (INE), no final de 2017 Portugal contava com mais de 790 mil trabalhadores por conta própria, dos quais 550 mil eram trabalhadores freelancers, ou seja, perto de 16% da população empregada. É um valor que está por dentro da média da União Europeia, mas aquém dos Estados Unidos (35%).

Um dos principais desafios é a angariação de trabalhos – são estes que lhes garantirão um rendimento semanal ou mensal indispensável para fazer face às despesas regulares. E se um freelance em início de carreira tenderá a aceitar todos os trabalhos que lhe surgem, a experiência será fundamental para separar o trigo do joio. Existem várias aplicações e sites dedicados a freelancers a nível global ou local, ainda que alguns impliquem custos para se estar registado. Sites como o Upwork, Veedeeo.Guru ou Zaask permitem-lhe criar um perfil e promover os seus serviços e áreas de especialização. Se procura entrar na Gig Economy, este é um bom ponto de partida para ganhar novos clientes ou projetos esporádicos. No caso do Upwork, contudo, não é certo que o site o aceite: o seu perfil será avaliado e só depois conhecerá o veredicto.

Apesar de parecer uma desvantagem, esta acaba por ser uma excelente forma de saber se tem um perfil forte. A ser validado pela Upwork, poderá usá-lo noutros sites. Por fim, e caso queira oferecer serviços a clientes internacionais, será importante ter uma conta PayPal ou Revolut.

Uma carreira, vários mitos
Existem diversos mitos associados aos freelancers. Um deles é facilidade de gerir horários ou de os adaptar à vida pessoal. “Organizar o trabalho em torno da vida familiar, para um trabalhador freelancer, também não é fácil”, avança Miguel Aragão.

O dia a dia do freelance assenta num equilíbrio difícil e precário: se os horários são leves, não existe nenhuma encomenda digna desse nome e, logo, nenhum pagamento à vista. Existindo essa encomenda, os horários podem ser tudo menos leves. Se, por outro lado, existir um equilíbrio no fluxo de trabalhos e recebimentos, possibilitado ao profissional o poder de escolha sobre a que horas pode concretizar um trabalho, é realmente uma vantagem. “Temos mais tempo para a vida familiar, quanto mais não seja nos intervalos dos trabalhos”, garante Miguel Aragão.

O freelance garante outra vantagem dos trabalhos pontuais: o foco. Estar numa equipa e integrado numa
estrutura pode, muitas vezes, ser um contra. Mais distrações, mais interrupções, mais “conversa de escritório”. Um freelancer vive desligado da realidade de quem o contrata, para o bem e para o mal. “Acabamos por estar sempre mais focados no trabalho, porque não temos a bagagem da empresa em questão e a carga, positiva ou negativa, que lhe está associada.” Isto acontece mesmo quando as encomendas implicam passar uma temporada na empresa – sejam três dias, sejam três meses.

Qualquer que seja a área de atividade, parece inevitável que a Gig Economy veio para ficar. Segundo um estudo publicado pela Upwork no final de 2018, 51% dos freelances norte-americanos não se veem a voltar para um trabalho tradicional. Um estudo global da consultora Delloite, por outro lado, revelou que 63% dos profissionais encara a possibilidade de se tornar freelancer. Apesar dos contras desta decisão, os prós começam a ganhar terreno e até as empresas começam a acompanhar esta tendência. Conseguirá a nossa carteira acompanhar este momento?

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Questão para debate

Vai trabalhar em casa? Siga estas dicas.


Trabalhar a partir de casa, um local onde está habituado a descansar ou divertir-se, é um dos principais desafios dos freelancers. Para que a sua produtividade não sofra um revés que torne a sua vida ainda mais confusa, estabeleça algumas regras e siga-as ao limite. Para os freelances todos os minutos contam e um trabalho entregue fora de prazo pode ser o último. Este artigo do Ei, o site de literacia financeira da Associação Mutualista Montepio, ajuda-o a evitar que tal aconteça. Siga também o Ei no Facebook, em facebook.com/eieducacaoeinformacao.

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As 3 áreas-chave para os freelances em Portugal

  1. Trabalhos criativos e multimédia
  2. Escrita e traduções
  3. Desenvolvimento de software e tecnologia
    Fonte: Online Labor Index (julho 2019)
    longo do tempo

P&R
Matilde Cunha

Fotógrafa freelance

Matilde Cunha nasceu em 1996, no Porto, e frequentou a Escola Artística Soares dos Reis, onde se especializou em fotografia, formação que aprofundou no IADE e no Ar.Co. Vive e trabalha no Porto, dedicando-se ao freelance na área audiovisual há três anos, “entre a fotografia e, esporadicamente, o vídeo”.

Quais os principais desafios financeiros de trabalhar como freelancer?
O maior desafio é em termos de organização. Ser organizado e estar a par de toda a legislação relativa a trabalhadores independentes é fundamental.

Como gerir o orçamento mensal com a incerteza associada a pagamentos, valores, oportunidades?

As incertezas de oportunidades e datas de pagamento são o mais complicado de se ser freelancer. Quanto às oportunidades, é um risco que tomamos e é bom assegurar vários clientes com trabalhos fixos por mês. Porém é sempre imprevisível. Não temos muita proteção no que toca à incerteza dos pagamentos, mas há precauções que podemos tomar quanto a isso, como por exemplo o pagamento adiantado, seja por inteiro ou metade.

O regime fiscal é convidativo a trabalhar como independente? É vantajoso?

Depende do caso e de como a pessoa se gere financeiramente. Contudo, nos últimos tempos tem havido melhorias no sistema financeiro e tem-se tornado mais vantajoso.

Diz-se que a grande vantagem de ser freelancer é organizar trabalho à volta da vida pessoal e não o oposto. Ideia coincide com a sua experiência?

Coincide totalmente, ainda que muitas vezes haja datas fixas a que não nos podemos escapar. Ainda assim compensa, pois, se soubermos organizar bem o nosso tempo, temos oportunidade para concretizar tudo o que queremos fora da vida profissional, o que a meu ver é imprescindível para o bem-estar emocional.

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