Acordo avança com reticências alemãs e pedido de eleições

Ministro da Saúde grego diz que eleições antecipadas são inevitáveis. Berlim mantém pé atrás sobre acordo

O governo grego e os representantes dos credores fecharam ontem o acordo que vai permitir o avanço do terceiro resgate financeiro do país, avaliado em 86 mil milhões de euros a três anos.

O executivo de Alexis Tsipras espera avançar já amanhã com a discussão e votação do acordo no parlamento helénico, o que permitirá que os restantes governos da zona euro possam também eles iniciar os procedimentos necessários até dia 20, data em que a Grécia tem de pagar 3,2 mil milhões ao Banco Central Europeu (BCE). Antes das discussões em cada país, caberá ao eurogrupo – grupo informal que reúne os ministros das Finanças da moeda única – pronunciar-se sobre o acordo, o que deve ocorrer já na sexta–feira, caso o parlamento grego o aprove amanhã.

A maratona negocial que se estendeu do fim-de-semana à madrugada de segunda para terça-feira acabou por resultar num acordo aparentemente mais favorável para a Grécia do que o previsto nas várias propostas e contrapropostas que Atenas e os credores europeus foram trocando ao longo de Junho e Julho. Destaque para as metas exigidas ao Syriza no que toca aos excedentes primários que deve obter anualmente, revistas em baixa. Às alterações não serão alheios os impactos da imposição do controlo de capitais na Grécia, cujos efeitos ainda se vão sentindo e que levaram a uma ainda maior degradação das contas públicas – as receitas fiscais, por exemplo, caíram a pique. Além da revisão em baixa das exigências para os excedentes primários, o acordo também prevê mais recessão do que as versões anteriores (ver texto ao lado).

Dos 86 mil milhões de euros que o novo resgate grego deverá envolver, entre 20 e 25 mil milhões de euros devem ser entregues logo na primeira tranche. Este cheque chegará assim que Atenas aprovar as “acções prévias” exigidas pelos credores (ao lado), devendo desaparecer logo de seguida: cerca de 10 mil milhões vão para a banca e 7,5 mil milhões para responsabilidades da dívida, incluindo o pagamento ao BCE no dia 20 de Agosto, com o restante a servir para abater pagamentos em atraso das entidades públicas gregas.

Política interna Além do aproximar da data para saldar 3,2 mil milhões de euros junto do BCE, a urgência do governo grego em ver o acordo aprovado virá igualmente por razões de política interna. O líder grego vê no avanço do acordo e no fim das medidas que restam do controlo de capitais a solução para recuperar alguma normalidade para a sociedade grega e, ao mesmo tempo, evitar uma maior deterioração, ao nível de apoio político e popular, do seu executivo.

Desde que o Syriza foi encostado à parede pelos credores, sendo obrigado a aceitar mais uma dose da receita dos últimos anos, que a coligação de governo vive dias estranhos: Tsipras perdeu quase metade dos seus deputados, que votaram contra o pré-acordo com os credores, estando dependente do voto da oposição para ver os diversos diplomas relacionados com o novo resgate aprovados. Esta situação tem levado a pedidos para que Tsipras avance com novo sufrágio, de forma a reforçar a legitimidade do Syriza. Depois de na segunda-feira uma porta-voz do governo grego ter desvalorizado essa hipótese – mas sem a negar –, ontem coube ao ministro da Saúde regressar ao tema.

Pouco depois das notícias sobre o fecho do acordo com os credores, Panayiotis Kouroublis veio a público reclamar eleições: “O erro de George Papandreou [ex-PM grego] em 2010 foi não ter avançado logo com eleições antecipadas. O Syriza foi eleito com um programa diferente daquele que está agora a levar a cabo. O programa existente não pode ser implementado tendo por base o nosso mandato, daí precisarmos de um novo”, referiu o responsável pela Saúde, citado pelo “Ekathimerini”. “Por mais doloroso e difícil que seja, precisamos de eleições”, rematou.

Política externa Além da pressão interna, a Grécia enfrenta igualmente a desconfiança de alguns países do euro, casos da Alemanha e da Finlândia, cujos governos já deram a entender não estarem muito satisfeitos com o acordo. Se Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, saudou o entendimento e anunciou que o mesmo será votado por Madrid na próxima semana, o executivo de Angela Merkel voltou a criticar as negociações: “Qual é a pressa para fechar o acordo?”, chegou mesmo a questionar a chanceler alemã. Também Jens Spahn, vice-ministro das Finanças do país, referiu ontem que Berlim preferia “qualidade à velocidade” e que “um programa para três anos precisa de ser negociado mais detalhadamente. Tem de ser convincente e não depender apenas da data-limite de 20 de Agosto”. Também na Alemanha tem havido resistências parlamentares à ideia de voltar a aplicar dinheiro na Grécia, isto apesar dos mais de 100 mil milhões de euros que o país já lucrou com esta crise. Um quinto dos deputados da coligação de Angela Merkel votou contra a proposta do início de Julho relativa ao pré-acordo entre Atenas e os credores.

in: Jornal i, 12 Agosto 2015