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Negociações. UE fala em “porta aberta” mas continua a ser a dos fundos

Líderes repetiram que “as portas estão abertas” para negociar, mas BCE mantém arma apontada a Atenas e ninguém assume falar da dívida.

Depois da difícil digestão do resultado do referendo, especialmente manifestada nas palavras de Jeroen Dijsselbloem – que rotulou a vitória do “não” como “muito lamentável” –, ontem coube aos líderes democraticamente eleitos tomar a palavra sobre a situação na Grécia. Apesar de menos duros que o ministro das Finanças holandês e presidente do Eurogrupo, certo é que Merkel, Hollande e companhia continuaram omissos em relação à grande questão do momento:o alívio da dívida grega, cuja insustentabilidade é reconhecida por cada vez mais países ou organismos, incluindo o FMI.

Abertas… mas nada de dívida Ontem, a expressão do dia foi “as portas abertas”. Angela Merkel e François Hollande, depois de se reunirem em Paris ao final do dia em preparação da cimeira de hoje, bateram nessa tecla:“As portas continuam abertas para Alexis Tsipras apresentar propostas sérias”, disse o presidente francês. “As portas para negociar continuam abertas, mas a Grécia tem de apresentar as suas propostas”, comentou Merkel que, todavia, salientou:“Como as coisas estão, ainda não há uma base para conversar sobre um novo programa.”

Apesar da mensagem conciliatória dos líderes do eixo franco-alemão, que não aceitaram responder a questões, horas antes deste encontro já o governo de Berlim tinha enviado recados mais duros a Atenas. Coube ao porta-voz do executivo alemão dar a real visão do país sobre a situação:“A nossa posição é bastante conhecida… uma redução na dívida não está em cima da mesa”, referiu Martin Jaeger. No entender dos alemães, explicou, não há bases para negociar a reestruturação da dívida, já que ainda não há entendimento para mais apoios financeiros a Atenas – em 2012, os líderes europeus também impuseram um novo pacote de austeridade à Grécia, prometendo reestruturar a dívida depois… até hoje.

Sigmar Gabriel, o “mais merkelista que Merkel”, ainda foi mais longe na posição alemã:“Se querem ficar no euro, terão de apresentar propostas que vão bem além do que ofereceram até aqui”, disse o vice-chanceler. Portas abertas, ma non troppo.

Grécia quer alívio Aposição do governo grego, porém, é a de não assinar qualquer acordo sem que este preveja, sem sombra para dúvidas, um alívio da dívida – já que sem este alívio é impossível recuperar as contas públicas do país, conforme já alertaram o FMI, os Estados Unidos e pelo menos dois prémios Nobel da Economia. Assim, as “portas abertas” ontem oferecidas pela Europa correm o risco de serem vistas por Atenas como as mesmas “portas abertas” das semanas anteriores ao referendo, ou seja, portas que levam a uma nova ronda de austeridade sem qualquer alívio na dívida, o que, para Tsipras, são “portas” para lado nenhum.

A proposta que vários líderes europeus pediram a Atenas que apresentasse hoje, no decorrer das reuniões previstas em Bruxelas, dificilmente virá sem incluir a redução da dívida. Basta ver que ontem, na reunião com os diferentes líderes partidários gregos, Tsipras conseguiu o apoio da maioria da oposição para as novas negociações, com todos a concordar com a inclusão da insustentabilidade da dívida.

BCE mantém arma apontada Também a postura do BCE não mostrou propriamente que “as portas abertas” dos líderes europeus signifiquem outras portas que não as do costume. Não só os governadores dos bancos centrais do euro decidiram manter o nível da linha de liquidez de emergência, impedindo assim o levantamento do controlo de capitais no país, como avançaram mesmo com um maior aperto no garrote imposto à economia grega e guardando para quarta-feira, leia-se dependendo do que acontecer na cimeira de hoje, a hipótese de puxar de vez o tapete aos gregos.

O BCE decidiu ontem, em função da vitória do “não”, desvalorizar os activos dados pela banca grega como garantias para aceder à linha de emergência, o que para todos os efeitos significa que reduziu o acesso desta a essa linha, dificultando ainda mais a sobrevivência dos bancos, que permanecerão fechados pelo menos até amanhã. Mais do que isso, e tal como tem sido feito com as tranches dos empréstimos já fechados, o BCE reservou a tomada de nova posição para depois das reuniões de hoje, em que se tentará reiniciar negociações com vista a um novo pacote de empréstimos.

Se estas não correrem de acordo com o que a UE quer, o BCE poderá decidir forçar ainda mais o garrote sobre a economia grega. Basta ver que, segundo o “Financial Times”, dois governadores do BCE queriam avançar com medidas ainda mais duras.

in: Jornal i, 7 Julho 2015

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