BESgate. Brasileiros saem da PT em nome do Pai, do Filho e (do contágio) do Espírito Santo

Meses antes da fusão os representantes da Oi na administração da Portugal Telecom não gostaram de ser os últimos a saber do financiamento de 900 milhões ao GES e bateram com a porta

Octávio Azevedo e Fernando Portella, administradores nomeados pela Oi para a Portugal Telecom que se demitiram, admitiram ontem que a sua saída da PT se deveu a não terem sido ouvidos no negócio que levou a operadora a financiar um balão de oxigénio para a Rioforte, do Grupo Espírito Santo (GES). A ideia de sair da PT já antes existia, sobretudo no caso de Azevedo, também presidente do grupo Andrade Gutierrez (AG), mas o financiamento de quase 900 milhões de euros da PT a uma holding não financeira do GES precipitou tudo.

Segundo explicou Octávio Azevedo ao “Valor Económico”, sendo presidente da AG, surgiram alguns conflitos de interesses que recomendavam a saída da PT. Porém, “ao me sentir desconfortável por ter tomado conhecimento da operação, que não é pequena, apenas quando foi divulgada por comunicado à imprensa, achei que era hora de sair”. O casamento pedido pela PT à Oi começa mal.

A PT é a maior credora do Grupo Espírito Santo, segundo dados avançados ontem pelo “Negócios”, uma posição desconfortável agora que o império familiar entrou em decadência. A PT avançou com a decisão de financiar o grupo mas os administradores da Oi – no fundo, a nova manda-chuva no grupo PT – não gostaram de ficar à margem do negócio. Antes da absorção da PT pela Oi, o império Espírito Santo dominava a operadora. Agora acabou-se a festa, a recolha dos foguetes está a correr mal e também os investidores já perceberam isso.

A reacção dos mercados à exposição da PT ao grupo Espírito Santo parece um castelo de cartas a ruir: a acção da operadora viu por estes dias o seu valor cair para níveis de 1996, depois de acumular uma perda de 15% desde que foi conhecida a dimensão do financiamento da empresa de telecomunicações a sociedades da família Espírito Santo – exposição já confirmada pela operadora, que referiu ter 897 milhões de papel comercial da Rioforte – sociedade de investimentos do GES. O risco associado a este financiamento, e mesmo o risco de tudo isto afectar a avaliação da operação de absorção da PT pela Oi, levou os investidores a decidirem proteger-se do contágio BES/PT.

“As acções da PT estão a ser penalizadas, devido às implicações negativas que o investimento em dívida de curto prazo da Rioforte poderão ter na fusão com a Oi”, comenta Steven Santos, da XTB Portugal, ouvido pelo “Negócios”. “A elevada exposição da tesouraria a uma contraparte que está em dificuldades, a demissão da PT de administradores que representavam a Oi e a ruptura com o BES por Ricciardi, que é apontado no memorando de entendimento entre a PT e a Oi como membro da administração, pode afectar a fusão”, acrescentou.

O financiamento da PT ao GES foi visto como a solução de recurso encontrada para dar um balão de oxigénio ao império familiar, balão esse, porém, que termina em breve – terá de ser pago ou refinanciado. Contactado pelo i, Octávio Azevedo preferiu não acrescentar comentários ao que foi publicado pelo “Valor”.

A Portugal Telecom investiu quase 900 milhões de euros em papel comercial da Espírito Santo International (ESI), tendo trocado em Abril estes títulos de dívida por um produto financeiro idêntico da Rioforte, holding não financeira do GES. Os títulos adquiridos pela PT vencem em Agosto, altura em que a Rioforte terá de reembolsar o capital mais juros contratualizados.

O investimento da PT foi realizado em duas sociedades do seu maior accionista, precisamente o GES, com 10% das acções da operadora, mas que apresenta um vasto rol de problemas financeiros. A Espírito Santo International está em situação de falência técnica (com capitais negativos) e apresenta um endividamento que supera os 7 mil milhões de euros. Segundo declarações de Machado Cruz, ex-contabilista da sociedade, ao semanário “Expresso”, a contabilidade da ESI é falsificada desde 2008. Uma auditoria do Banco de Portugal detectou igualmente que faltavam 1,3 mil milhões de euros em dívidas nas contas da sociedade com sede no Luxemburgo. A Rioforte, por seu lado, está sob enorme stresse financeiro, possuindo igualmente uma dívida elevada que obriga a um esforço de refinanciamento significativo.

in: Jornal i, 3 Julho 2014