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Dívida. Nove meses de “recuperação” não conseguem baixar juro dos 5%

Para não variar, a emissão de ontem foi vendida como um êxito. Porém, os juros continuam insustentáveis. Irlanda pagou 4,1% na última emissão com a troika, Portugal paga 5,12%
TIAGO PETINGA/LUSA

Nove meses depois da última emissão a 10 anos, Portugal regressou ontem pela enésima vez aos mercados para pedir 3 mil milhões de euros emprestados a bancos e fundos de investimento. Se em Maio de 2013, na primeira emissão a 10 anos desde a entrada da troika, Portugal pagou 5,669% de juros por 3 mil milhões, agora o preço exigido foi de 5,112%.

Assim, os nove meses de austeridade e de “recuperação económica” que passaram desde Maio de 2013, o ano do “enorme aumento de impostos”, resultaram num preço 0,55 pontos percentuais mais baixo. E com a economia portuguesa sem perspectivas de crescer acima de 1% a médio prazo, comprar dinheiro a mais de 5% continua a estar longe de ser uma trajectória sustentável – veja-se que, segundo a teoria da Comissão Europeia, um país com um crescimento nominal de 3,5% a 4%, e com um saldo primário estrutural positivo a variar entre 2,6% e 3% do PIB, tem como juro considerado sustentável a fasquia de 4,5%, conforme avançou ontem Teixeira dos Santos, ministro das Finanças de José Sócrates. Ora Portugal está bem longe de crescer àquele ritmo ou semelhante e está a pagar mais de 4,5% por cada emissão de dívida. Mas para os bancos e corretoras envolvidas neste tipo de mercado, assim como para o governo, a operação de ontem foi mais uma vez um sucesso – opinião quase constante em todas as emissões de dívida portuguesas, note-se.

Para justificar o “sucesso” da operação, aposta-se sobretudo na procura registada pela dívida portuguesa. Ontem a procura foi equivalente a mais de três vezes a oferta: “A procura foi forte, de mais do triplo da oferta. A operação vem em linha com as intenções do governo de emitir a prazo longo – ter uma procura alta para a nossa dívida a longo prazo é um sinal muito positivo”, observou Filipe Silva, do Banco Carregosa.

A alta procura pela dívida portuguesa, contudo, não é um sinal de sucesso ou a prova de que está a ser trilhado um bom caminho: esta alta procura justifica–se mais pelo facto de a dívida portuguesa ser das mais rentáveis este ano. Com um retorno elevado, a procura dispara. Veja–se por exemplo a Grécia. Tal como Portugal, tem a dívida mais rentável para especuladores e investidores graças aos juros altos que paga. Logo, também as suas emissões de dívida estão a recolher mais procura que a oferta, como ocorreu ontem, quando a colocação de 1300 milhões de euros suscitou uma procura 2,38 vezes superior à oferta (ver texto ao lado).

Também Miguel Frasquilho, deputado do PSD e quadro do BES, saudou ontem a procura registada pela dívida portuguesa, sublinhando ainda que “80% a 90% da dívida será colocada em investidores estrangeiros”. Assim, os contribuintes portugueses estão a pagar juros altos para o Estado se endividar e quem está a lucrar mais com a situação são investidores não residentes em Portugal – ou seja, mais dinheiro que foge da economia portuguesa. “Foi dado mais um passo para que Portugal possa terminar este programa da forma mais favorável possível”, disse Frasquilho.

O BES foi um dos bancos envolvidos na emissão de dívida de ontem, que contou também com o apoio do Barclays, do Citigroup, do Royal Bank of Scotland, do Crédit Agricole e do Société Générale. Só estas entidades asseguraram logo à partida que 975 milhões seriam contratados (um terço da operação, portanto) e a procura superou os 9,5 mil milhões de euros, tendo a taxa de juro média ficado pelos 5,112%.

Sobre a taxa paga por Portugal, Teixeira dos Santos, ex-ministro responsável por emissões de dívida a juros ainda mais altos, admitiu ontem que “5,1% é uma melhoria relativamente às condições que tivemos no passado, mas apesar de tudo ainda está a níveis elevados”. Posição semelhante à manifestada por Pedro Pintassilgo, da F&C Investments, que, também ao “Económico”, realçou que “é uma taxa alta, que não é sustentável”.

Já o analista do Banco Carregosa, Filipe Silva, avançou ainda que “a queda recente das taxas e do risco foi uma oportunidade bem aproveitada pelo governo. Por outro lado, para os investidores a rentabilidade oferecida também acaba por ser bastante atractiva. Acho que foi uma operação positiva”.

in: Jornal i, 12 Fevereiro 2014

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