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Infinito e mais além. Dívida portuguesa é a que mais sobe desde 2010

Plano da troika e do governo previa uma dívida máximade 108,6% durante o ajustamento, mas o fracasso da austeridade já elevou a dívida para 127% e está em ascensão
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Uma família com problemas financeiros promete a si mesma que até meados de 2014 vai cumprir todas as suas responsabilidades com um ligeiro aumento de dívida, compensado por uma dieta rigorosa nos gastos lá de casa e com a venda de jóias que estão na família há décadas. Chegados a um ano do final do prazo imposto, a dívida da família explodiu, os gastos não estão controlados, as jóias da família foram vendidas mas o dinheiro já desapareceu ninguém sabe muito bem como. O pai reúne a família e declara: estamos no bom caminho, já só falta um ano para o fim do prazo.

Os principais indicadores que medem a evolução do programa de ajustamento em que Portugal mergulhou em meados de 2011 continuam longe de apresentar qualquer sintonia com aquilo que o programa de austeridade prometia aos portugueses: ontem o Eurostat revisitou os números das diferentes dívidas de cada estado dos 27, voltando a sublinhar a trajectória explosiva em que o endividamento do estado português entrou recentemente e que não apresenta sinais de melhoria. No final do primeiro trimestre deste ano, Portugal apresentava uma dívida pública equivalente a 127,2%, segundo os dados avançados ontem pelo Eurostat. Um número chocante, especialmente se considerarmos que ainda em Fevereiro deste ano, na avaliação ao programa português, a Comissão Europeia validava uma previsão de 123% de dívida pública para este ano. Se recuarmos mais no tempo, o buraco entre os objectivos da troika e o concretizado torna-se ainda maior.

Olhando para a evolução das dívidas públicas na Europa desde 2010, constata-se que foi o endividamento do Estado português aquele que mais cresceu desde Janeiro daquele ano até Março deste ano: a dívida passou de 94% do PIB para 127,2%, mais 33,2 pontos percentuais, valor que só encontra paralelo com a evolução da dívida irlandesa, que subiu 33 pontos no mesmo período. Neste período, no entanto, houve uma reestruturação parcial da dívida grega, que provavelmente impediu que os gregos liderassem esta tabela.

O rácio da dívida em relação ao PIB sobe tanto pelo aumento do endividamento como pela contracção da economia, estando Portugal a ver o peso da dívida subir graças à conjugação daqueles dois factores. Ontem Passos Coelho foi lesto a afastar a responsabilidade do crescimento da dívida do seu governo, culpando antes a recessão profunda em que o país caiu: “O rácio de dívida aumenta porque o produto interno bruto nominal, com a recessão, diminuiu”, explicou o primeiro-ministro, esquecendo-se de referir o contributo da política do seu executivo para o aprofundamento da recessão do país. Veja-se que no programa inicialmente acertado com a troika a austeridade deveria resultar numa recessão de apenas 1,8% em 2012, trazendo crescimento logo a partir de 2013. Mas desde que foi posto em prática os resultados têm saído todos ao lado: a recessão em 2012 foi de 3,2% e este ano deverá chegar aos 2,3%, sendo o próximo ano, na melhor das hipóteses, de estagnação.

“A ideia de que o tratamento está certo independentemente do que acontece ao paciente já cai no universo da bruxaria e não da ciência”, observava em Março passado Martin Wolf, comentador do “Financial Times”, a propósito da austeridade. A um ano do fim do ajustamento, a bruxaria está longe de resultar.

in: Jornal i, 23 Julho 2013

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