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JP Morgan diz que leis em defesa de trabalhadores são “defeitos” de países periféricos

O receio da emergência de governos antieuropeus e a defesa do statu quo político-empresarial, levam banco de investimento a emitir recomendações que roçam o autoritarismo. Banco diz que foi “mal interpretado pelos media”
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A culpa é da Constituição e da protecção que esta dá aos trabalhadores, mas também da contestação social, potenciada pelo direito de realizarem manifestações e demais protestos contra as mudanças indesejadas que os governos na Europa tentam por estes dias implementar. É para estes “culpados” que a JP Morgan aponta num relatório de final de Maio, em que é pintado um cenário onde aparentemente, não fossem “os constrangimentos constitucionais” em países como Portugal, até estaria tudo a correr bem.

O “research” em causa – “The Euro area adjustment: about halfway there” – é polémico e surge em defesa da austeridade e do reforço do poder dos governos de cada país para reagir contra a vaga antieuropeia que pode ganhar força no Velho Mundo. Para este banco de investimento, que recebeu quase 100 mil milhões de dólares dos contribuintes norte-americanos, a crise financeira tornou “evidentes os defeitos dos sistemas políticos dos países da periferia” da Europa. E que defeitos são esses? “Executivos fracos; administrações centrais fracas em relação aos poderes regionais; protecção constitucional dos direitos laborais; sistemas de consenso que potenciam clientelismo político; e o direito a protestar contra mudanças indesejadas no statu quo político”, atira o banco que aconselha normalmente dezenas de governos e empresas.

“Os defeitos deste legado político foram revelados pela crise. Os países da periferia têm sido apenas parcialmente bem sucedidos com as reforças orçamentais e económicas porque os governos estão constrangidos pela Constituição (Portugal), regiões poderosas (Espanha) e a emergência de partidos populistas (Itália e Grécia)”, explica ainda o banco neste artigo. Para o JP Morgan, estes “defeitos” identificados nos países periféricos têm raiz “nas constituições, que mostram uma forte influência socialista, reflectindo a força política que os partidos de esquerda tiveram depois da queda do fascismo”.

O artigo ganha ainda outros contornos quando o JP Morgan passa em revista os principais indicadores da zona euro, defendendo que há progressos em quase todos menos no que toca a estas “reformas políticas” que defende. Para a JP Morgan, os estados estão a conseguir reduzir as suas dívidas públicas e a avançar com reformas estruturais, faltando só então as reformas políticas.

Contactado pelo i, o JP Morgan esclareceu que o seu relatório “foi mal interpretado pelos media“, salientando que o autor do trabalho, David Mackie, “no parágrafo citado” não “quer sugerir que há um choque entre democracia e negócios” e que, em qualquer caso, o banco “não acredita sequer que esse seja a situação. O parágrafo em questão é sobre o funcionamento da união económica e monetária (UEM)”, especificam. “Há muitas formas de construir a UEM. Uma das maiores alterações estará entre a divisão do fardo por toda a região e a flexibilidade a nível nacional. Em princípio, a região [Europa] pode escolher onde situar-se entre estes pontos.” Ou seja, quanto maior a integração europeia, menor flexibilidade nacional.

Voltando ao artigo, o JP Morgan salienta ainda a propósito dos “defeitos” encontrados nos periféricos que “há um reconhecimento crescente da extensão deste problema”, mas só em Espanha “estão a ocorrer algumas mudanças” e o “próximo ano será palco de um enorme teste”, defendendo que em Itália “o novo governo deverá avançar com uma profunda reforma política”.

A vontade de reforçar os poderes dos governos começa assim a fazer escola na Europa, em parte por causa do receio de que os partidos antieuropeus comecem a ganhar eleições, o que a acontecer será por vontade dos eleitores, isto se Bruxelas e Berlim deixarem. É que convém recordar o que está a acontecer actualmente: o segundo resgate português está a ser discutido em segredo para evitar que os alemães se dirijam às urnas em Setembro próximo com vontade de castigar Merkel pelo novo resgate e pelo falhanço da austeridade que tanto defende.

Curiosamente, vem também da Alemanha a fórmula que o JP Morgan propõe indirectamente para convencer os países periféricos a avançar com as “reformas políticas” que sugere: “A nosso ver, é pouco provável que a Alemanha concorde com as obrigações europeias sem mudanças significativas nas constituições dos países periféricos.”

in: Jornal i, 10 Julho 2013

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